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Atletas mais velhos do Brasil dão show nas Paralimpíadas

Após os Jogos Olímpicos de Tóquio darem visibilidade a grupos minorizados, como mulheres e LGBTI+, os Paralímpicos reforçam a importância do incentivo a atletas de todas as idades. O exemplo pode inspirar as empresas?

CAPA DO DIA_3_home_paraolimpiadas_pcd O paratleta Claudiney Batista dos Santos,de 42 anos: bicampeão paralímpico em 2021 na classe F56 de lançamento de disco com um novo recorde paralímpico: 45,59 metros

O paratleta Claudiney Batista dos Santos,de 42 anos: bicampeão paralímpico em 2021 na classe F56 de lançamento de disco com um novo recorde paralímpico: 45,59 metros (Alex Davidson/Getty Images)

Depois de os Jogos Olímpicos de Tóquio darem visibilidade a pautas de grupos socialmente minorizados, como mulheres e LGBTI+, agora os Jogos Paralímpicos reforçam a importância do incentivo e da geração de acesso às pessoas com deficiência, bem como o entendimento da particularidade de cada atleta.

Na delegação brasileira, eles são 234 convocados e com diferenças entre si, a começar pelo gênero: 139 homens e 95 mulheres. No grupo há ainda a diversidade etária, uma vez que 17% do total têm menos de 23 anos, e parte deles têm 50 anos ou mais, sendo Beth Gomes vencedora do ouro e dona de um recorde em lançamento de peso na classe F52, para competidores em cadeiras de rodas a mais velha atleta da delegação aos 56 anos. [Veja mais abaixo]

O etarismo, de modo geral, tem marcado as competições e parte delas têm acontecido apenas com atletas com mais de 40 anos. Isto traz uma importante reflexão sobre a necessidade de se olhar para as pessoas mais velhas como ativas e parte importante de uma sociedade que envelhece cada vez mais. Até 2050, 30% da população brasileira terá mais de 60 anos. O país será o sexto mais velho do mundo, segundo dados do IBGE compilados na pesquisa "Longevidade" organizada pela Fundação Dom Cabral.

Além disso, de acordo com o Ipea, órgão de pesquisas ligado ao governo federal, 57% da população em idade economicamente ativa no Brasil terá mais de 45 anos daqui três décadas. Ao mesmo tempo, há mais dificuldade de inserção no mercado de trabalho para pessoas nesta faixa etária. Percebendo isto, a consultoria Talento Incluir, focada em inclusão de pessoas com deficiência, lança em outubro um serviço para a inclusão de talentos maduros no mercado de trabalho. A inovação na companhia se dá por ser algo voltado para pessoas com ou sem deficiência.

“Há uma crença limitante do mercado que entende o profissional mais velho como desatualizado, que pode ficar doente e mais. Esta é uma análise pouco inteligente que não aproveita os benefícios da diversidade e a expertise de profissionais já acostumados a lidar, por exemplo, com crise e diferentes relações interpessoais”, diz Carolina Ignarra, sócio-fundadora da Talento Incluir.

Para diminuir essa percepção ao longo dos próximos anos, a recomendação é a de que esses profissionais se mantenham abertos para o aprendizado contínuo e consigam valorizar o próprio networking.

“Cerca de 85% das recolocações desses profissionais ocorre, hoje, por meio de recomendação. Uma enriquecedora presença virtual, somada à possibilidade do profissional ser referência na área em que atua usando conteúdo relevante, podem contribuir significativamente para este profissional alcançar seus objetivos mais rapidamente”, diz Mauro Wainstock, colunista da Exame e consultor da Hub 40+.

No recorte específico de pessoas com deficiência, as realizações profissionais de pessoas mais velhas têm inúmeros fatores: há aqueles que se tornam deficientes em uma fase da vida, há os que levam algum tempo para serem aceitos em suas funções e até os que descobrem tardiamente sua deficiência, como no caso de autistas.

“De modo geral, percebe-se que as pessoas com deficiência iniciam a vida profissional um pouco mais tarde, e por várias razões como conciliar tratamento de saúde, escolarização, falta de empresas que oferecem oportunidades ou até mesmo por maturidade e segurança no momento do ingresso”, diz Marinalva Cruz, diretora de relações governamentais e de empregabilidade da Associação Turma do Jiló, que busca garantir a educação inclusiva nas escolas públicas.

Na Specialisterne, consultoria dinamarquesa que atua no Brasil desde 2015 auxiliando na contratação de profissionais autistas com alto desempenho, a maior parte dos 224 já contratados possuem mais de 20 anos, e alguns deles 50 anos.

“Alguns recebem o diagnóstico de forma tardia, muitas vezes até quando estão atrás do diagnóstico de um filho, como aconteceu com essa pessoa de 50 anos que levamos para o mercado de trabalho”, diz Glaucia Ribeiro, gerente de marketing da Specialisterne Brasil.

Inclusão no mercado de trabalho

De acordo com o Censo 2010, o Brasil possui cerca de 46 milhões de pessoas com deficiência, isto é 24% da população naquele período. Além disso, no país, a inclusão de pessoa com deficiência no mercado de trabalho, é mais acompanha desde a criação, em 1991, da Lei de Cotas para pessoas com deficiência, que obriga que empresas com mais de 100 empregados devem ter de 2 a 5% das suas vagas destinadas a pessoas com deficiência, variando de acordo com o número total de funcionários.

Apesar disso, em 2018, um estudo da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais – Ministério do Trabalho) apontou que existiam 7 milhões de pessoas com deficiência aptas ao mercado de trabalho, mas que apenas 486 mil estavam registradas em empregos formais.

“Ainda há muito preconceito nas empresas, e falta inclusão. Infelizmente, é comum saber de histórias de pessoas que passam mais de 10 anos no mesmo cargo de entrada”, diz Ignarra.

Para Cruz, o cenário de trabalho é reflexo do comportamento de toda a sociedade para com as pessoas com deficiência. “Durante muito tempo, as pessoas com deficiência passaram pelas escolas sem que houvesse uma preocupação com a sua qualidade do aprendizado, o que impacta em questões básicas para a entrada no mercado de trabalho”.

Segundo ela, este cenário pode mudar ao entendermos que todas as pessoas aprendem de forma diferente e devem ter suas particularidades trabalhadas de forma a conquistar objetivos em comum. Hoje, a inclusão está muito pautada em estereótipos, que colocam as pessoas com deficiência em posições de incapazes ou de super-heróis.

Essa inclusão se torna ainda mais difícil quando se trata de pessoas com deficiência intelectual. Segundo Cruz, grupo das pessoas que estão no mercado formal pela reserva legal de vagas, pessoas com deficiência intelectual são os que ocupam o menor número de postos de trabalho. Isto acontece também na Paralimpíadas, quando 3,9% dos atletas brasileiros têm deficiência intelectual.

“Percebemos que apesar dos avanços ainda há muita dificuldade em fazer por exemplo um currículo biopsicossocial, de entender que cada aluno é único e isso acaba interferindo na autonomia. Isto se reflete mais na frente na vida da pessoa com deficiência intelectual na busca pelo trabalho”, diz.

No trabalho da Specialisterne, por exemplo, os autistas são treinados por psicólogos para se adaptarem ao ambiente de trabalho, isto acontece já em parceria com empresas que têm interesse na contratação. De modo geral, há uma taxa de 70% de inclusão depois da formação e uma retenção de 90% após um ano na empresa. Apesar de parecer haver um interesse na contratação de autistas, especialmente em funções administrativas e de tecnologia, isto não se repete para as pessoas com deficiências mentais, intelectuais em geral.

Além de ter ofertas reais de emprego para essa população, é necessário estar atento às metas e aos objetivos profissionais de cada um. Na visão de Mauro Wainstock, fornecer oportunidades é excelente mas só com atenção completa aos objetivos de cada profissional é que o trabalho realmente pode se considerar “cumprido”.

“Nem todos os que têm mais de 40 anos pensam da mesma forma; nem todos os negros têm os mesmos sonhos; nem todas as mulheres têm exatamente os mesmos objetivos; nem todas as pessoas com deficiência têm os mesmos gostos, nem todas as pessoas de um mesmo gênero têm o mesmo interesse. Somos humanos, somos diferentes.

Assim, é possível perceber como empresas que se preparam para aceitar as diferenças e reconhecer as necessidades particulares de cada profissional podem sair na frente. “A Paralimpíadas dá visibilidade aos diferentes tipos de deficiência e a importância de se preparar para oferecer as melhores adaptações aos profissionais, de forma a conquistar um melhor ambiente de trabalho e resultado. Os executivos precisam considerar a potência da diversidade dentro de casa para melhor atender clientes com deficiência, diferentes idades, gênero e mais”, diz Ignarra.

Um exemplo de empresa tentando ampliar as fronteiras da diversidade é a RaiaDrogasil, que possui cerca de 2.000 funcionários com deficiência. Por lá há uma questão de entendimento de como incluir de fato cada funcionário, assim como os clientes que frequentam as lojas. Pensando nisto, cerca de 30.000 colaboradores já fizeram, por exemplo, curso de libras.

Outro exemplo é da fabricante de cosméticos Natura, que encerrou 2020 com 7.3% de pessoas com deficiência no quadro total de funcionários e tem uma meta para chegar a 8%. A companhia faz uma série de workshops de desenvolvimento, reavalia planos de saúde para melhor atender o grupo e busca inserir a acessibilidade em todos os conteúdos, desde as redes sociais, até nas trilhas de treinamento.

Ao contrário das Olimpíadas, em que o Brasil conquistou 21 medalhas sem a presença de atletas com mais de 39 anos, nas Paralimpíadas que têm uma quantidade maior de atletas na casa dos 40 quatro paratletas com 40 anos ou mais subiram ao pódio. Beth Gomes, Claudiney Batista, Daniel Jorge da Silva e Lúcia Araújo conquistaram medalhas em Tóquio e colaboraram para o quadro geral de medalhas do país.

Conheça abaixo a história de cada um deles e de como chegaram aos Jogos de Tóquio 2021:

beth-gomes-paraolimpiada A paratleta Beth Gomes, de 56 anos: quebra de recorde mundial no lançamento de disco

A paratleta Beth Gomes, de 56 anos: quebra de recorde mundial no lançamento de disco (Pedro Ramos/Fotos Públicas)

Beth Gomes

Mais do que ganhar a medalha, a paratleta de 56 anos quebrou o recorde mundial no lançamento de disco. “Foram cinco anos esperando por esse feito, quando fiquei fora das Paralimpíadas de Rio, por conta de uma reclassificação funcional. E hoje posso comemorar esse feito, que venho galgando com a minha treinadora a cada treino, a cada suor derramado”, disse ela ao Globo Esporte.

Elizabeth Rodrigues Gomes, que é a atleta mais velha da delegação brasileira, conquistou o ouro na modalidade F53 do esporte, dedicada a atletas com deficiência severa. Beth tem esclerose múltipla, uma doença que afeta o cérebro e a medula. Ela começou a disputar o esporte na classe F54, mas, depois de um surto da doença que paralisou todo o seu lado esquerdo, passou para F53.

Antes do diagnóstico de esclerose múltipla, em 1993, Beth também foi jogadora de vôlei. Em seguida, começou a carreira no esporte paralímpico -- mas no basquete, em cadeiras de rodas. Nos treinos, descobriu o atletismo e não parou mais.

Além da medalha dos Jogos de 2021, ela já havia ganhado a medalha de ouro nos Jogos Parapan-Americanos de 2019 em Lima.

Claudiney Batista

Claudiney Batista dos Santos se tornou bicampeão paralímpico em 2021. Aos 42 anos, conquistou o ouro na classe F56 de lançamento de disco, estabelecendo o recorde paralímpico de 45,59 metros. Isso porque, em 2016, foi ele quem atingiu o recorde dentro da modalidade.

Sem o membro inferior de uma das pernas, ele entrou para o esporte paralímpico em 2007, dois anos depois de perder a perna em um acidente de moto.

Antes de entrar para a disputa de forma profissional, ele já tinha uma rotina de atividades físicas, como musculação, futebol, capoeira e jiu-jitsu.

“Conheci o esporte paralímpico, que me fez ter alegria novamente e superar o extremo de minhas limitações. Hoje, tenho o esporte como um aliado, que me aproxima de novas amizades, melhora ainda mais minha saúde, me traz alegria, motivação para viver e além disso também é minha profissão”, disse o atleta ao Estadão, em 2016.

Daniel Jorge da Silva

O atleta de vôlei sentado colaborou, aos 40 anos, para a vitória do Brasil no esporte durante os Jogos. Na Rio 2016, ficou em quarta colocação — e esperava chegar à vitória neste ano, o que de fato aconteceu pela primeira vez desde que começou a disputar os Jogos, em 2008.

Ainda assim, não é como se lhe faltassem títulos. Junto com a seleção, Daniel é tetracampeão parapanamericano, além de ter duas pratas e um bronze em Mundiais.

A chegada às Paralimpíadas aconteceu depois de ter que amputar uma das pernas por causa de um assalto, sofrido quando ele tinha 18 anos. Diante da nova realidade e com um amor já antigo pelo esporte  descobriu o vôlei sentado e investiu na carreira. Com 1,89 metro, se encontrou rapidamente no esporte, que começou a disputar em 2004.

O resultado da carreira, além dos títulos, foi o de conhecer muitos países e fazer amizades pelo mundo todo. Além disso, para Daniel, o esporte funcionou como uma forma de autoconhecimento.

lucia-araujo-paraolimpiada-toquio A judoca Lúcia Araújo, de 40 anos: medalha de bronze nos Jogos Paralímpicos de Tóquio

A judoca Lúcia Araújo, de 40 anos: medalha de bronze nos Jogos Paralímpicos de Tóquio (David Finch/Getty Images)

Lúcia Araujo

Lúcia Araujo, de 40 anos, conquistou medalhas nos jogos de Londres, Rio e Tóquio. Desta vez, Lúcia Araújo garantiu a medalha de bronze ao vencer a russa Natalia Ovchinnikova, pela categoria até 57 kg, por ippon.

Ela, que possui toxoplasmose congênita, adquirida de sua mãe ainda na gravidez, começou sua trajetória no judô aos 15 anos de idade, em 1996, continental park club, hoje atual Associação Kimura de Judô. Porém no ano de 2000 Lucia se distancia dos tatames e retorna apenas em 2006. No mesmo ano a atleta iniciou sua carreira de vitorias no campeonato brasileiro de judô, consagrando-se campeã.

De lá para cá ela representa o brasil ao redor do mundo e ganha medalhas em diferentes campeonatos. Em 2008, por exemplo, ela participou das Paralimpíadas de Pequim, ficando entre as dez melhores judocas do mundo na sua categoria.

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