Vô Sônia, da Casa de Bolos: "Fui aprendendo no dia a dia" (Tabata Barbosa)
Repórter de Negócios
Publicado em 26 de maio de 2026 às 06h00.
Última atualização em 27 de maio de 2026 às 11h38.
Em 2009, Sônia Ramos tinha 64 anos, um filho recém-demitido e a ideia simples de vender os bolos caseiros que ela já fazia para a família. O país ainda sentia os reflexos da crise financeira de 2008, e a aposentadoria não era suficiente para cobrir as despesas de casa. Quinze anos depois, uma empresa britânica com receita anual de R$ 120 bilhões assinou um contrato para comprar tudo o que ela construiu.
A AB Mauri Brasil, subsidiária da britânica Associated British Foods e dona de marcas como Fleischmann e Ovomaltine no país, anunciou a compra de 100% da Casa de Bolos, a maior rede de franquias de bolos do Brasil. O valor da transação não foi divulgado. O negócio ainda depende de aprovação regulatória.
Para a AB Mauri, a aquisição fecha um ciclo que já estava quase completo. A empresa que vende ingredientes para bolos comprou quem mais vende bolos no país.
A companhia fornecia ingredientes para padarias, confeitarias e indústrias de panificação. Ou seja, já estava presente nos bastidores da produção dos bolos da Casa de Bolos. Agora, passa a controlar também a venda final, capturando valor em mais uma etapa da cadeia.
A Casa de Bolos nasceu em 2010, quando a família Ramos alugou um espaço comercial no centro de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, e abriu a primeira loja. No primeiro ano, mais quatro unidades foram inauguradas na região. Diante da rápida aceitação, os quatro filhos de Sônia — Rafael, Daniel, Eduardo e Fabrício — foram se integrando ao negócio. Em 2011, a família apostou no modelo de franquias.
O crescimento foi construído sobre uma proposta simples: bolos caseiros, sem massa pronta, ovo em pó, conservantes ou corantes, com frutas frescas e receitas da própria Sônia.
A forma como o negócio escalou impressiona. Por nove anos consecutivos, a Casa de Bolos figurou entre as 50 maiores franquias do Brasil pela ABF.
A rede encerrou 2025 com mais de 600 lojas em 250 cidades e 20 estados, além de uma unidade internacional em Lisboa. São 60 mil bolos produzidos por dia e uma nova loja inaugurada a cada seis dias em 2025. O faturamento chegou a R$ 720 milhões no ano passado.
Para 2026, a projeção era de R$ 800 milhões e 700 unidades.Tudo isso sem que Sônia tivesse feito um curso formal de gestão ou finanças. "Fui aprendendo no dia a dia, escutando muito, observando, errando e acertando", afirmou em entrevista à Exame em junho de 2025.
A aquisição reflete uma mudança mais ampla no setor de alimentação. Empresas antes concentradas na indústria e no fornecimento passaram a buscar marcas com conexão direta com o consumidor. Em um mercado pressionado por custos e disputa por distribuição, controlar canais próprios virou vantagem estratégica.
A Casa de Bolos cresceu apostando em um espaço pouco explorado pelas grandes redes: o consumo cotidiano e acessível. Enquanto parte do food service avançou para experiências premium, a marca construiu escala em cima de um produto simples, de tíquete médio baixo e forte apelo emocional.
O modelo de franquias ajudou. Com operação enxuta, cardápio padronizado e baixa complexidade logística, a rede avançou sobretudo em cidades médias e bairros residenciais, regiões menos disputadas por grandes cadeias.
"O que nos atraiu foi a autenticidade da marca e a solidez do modelo construído ao longo dos anos", afirmou Danilo Nogueira, diretor-geral da AB Mauri Brasil.
O movimento acontece em um momento de amadurecimento do franchising brasileiro. Segundo a ABF, o setor faturou R$ 102,6 bilhões no estado de São Paulo em 2025, alta de 10,7% sobre o ano anterior.
O segmento de alimentação e food service respondeu por mais de R$ 20,4 bilhões. Dentro desse universo, o mercado de confeitaria movimenta cerca de R$ 12 bilhões por ano — e os bolos caseiros representam a maior fatia, com receitas estimadas em R$ 10 bilhões e crescimento anual entre 3,5% e 5%.
Para os atuais franqueados, pouca coisa muda. A AB Mauri garantiu que marca, modelo de franquias e gestão operacional serão mantidos após a conclusão da transação. Os quatro fundadores seguem na liderança da operação. As receitas, sem massa pronta, conservantes ou corantes, também não mudam.
A principal diferença pode aparecer no suporte operacional. A compradora é uma das maiores fornecedoras de ingredientes para panificação do país, o que pode significar mais músculo na cadeia de abastecimento e melhores condições de escala para a rede.
Aos 79 anos, Sônia Ramos segue participando da criação de receitas, testando produtos e mantendo contato com os funcionários. A empresa mudou de dono. A vó, não.