Mateus Mendes e Kayky Janiszewski, cofundadores da Legitimuz (Divulgação)
Freelancer em Negócios
Publicado em 20 de agosto de 2026 às 08h00.
Uma fraude pode começar com uma identidade verdadeira. O rosto é do cliente, o CPF também, mas alguém pode estar usando esses dados para abrir uma conta, contratar um empréstimo ou financiar um produto sem que o titular saiba. É esse problema que a Legitimuz quer atacar em uma nova etapa de sua tecnologia de autenticação.
Fundada em 2023, a startup atua na prevenção de fraudes de identidade. Agora, a companhia lança o LegitFace, uma tecnologia proprietária que amplia a autenticação facial tradicional. Em vez de apenas verificar se a pessoa diante da câmera é quem diz ser, o sistema combina diferentes camadas de informação para entender como aquela identidade está sendo usada e qual é o risco envolvido na operação.
A companhia começou a desenvolver o LegitFace em janeiro de 2025, quando já processava mais de 40 milhões de transações em um mês e ainda dependia de provedores estrangeiros de reconhecimento facial.
“Provar a identidade é o início, não o fim. A biometria é parte do processo e não o processo inteiro”, afirma Kayky Janiszewski, cofundador e CEO da Legitimuz.
A empresa fatura mais de R$ 100 milhões por ano e agora quer crescer principalmente no setor financeiro, onde já atende bancos, fintechs, empresas de crédito, marketplaces e varejistas. Ao mesmo tempo, prepara uma expansão para outros casos de uso, como a estimativa de idade para acesso a conteúdos e produtos destinados a maiores de idade.
Antes da Legitimuz, Janiszewski trabalhava com marketing digital. Começou aos 15 anos, vendendo anúncios e páginas de internet, e depois montou uma agência de cursos online.
A Legitimuz nasceu em 2023, quando a digitalização acelerada pela pandemia já havia mudado a forma como consumidores abriam contas, contratavam serviços e tomavam crédito.Antes, era comum provar a identidade presencialmente, diante de um funcionário e com documentos em mãos. Com a migração dessas etapas para o celular, empresas passaram a depender de sistemas capazes de verificar documentos e rostos à distância.
Um amigo de Kayky Janiszewski era dono de uma plataforma de pagamentos, mas usava uma solução de verificação de identidade que considerava ruim e apresentou o problema ao empreendedor. Aos 18 anos, Janiszewski decidiu transformar a dor em negócio ao lado do sócio, Mateus Mendes. Os dois investiram cerca de R$ 3 milhões do próprio bolso para desenvolver a empresa.
O primeiro desafio foi convencer os clientes a confiar em uma startup recém-criada para automatizar uma decisão crítica. Uma falha poderia permitir a abertura de uma conta fraudulenta, a concessão de crédito a um criminoso ou um financiamento em nome de uma vítima.
Para chegar aos primeiros clientes, os fundadores começaram pela conversa direta com profissionais de bancos, fintechs e varejistas para explicar a ideia da startup.A estratégia levou aos primeiros testes e ajudou a empresa a entender onde o problema era maior. A Legitimuz passou a atender bancos, fintechs, empresas de empréstimo, marketplaces e varejistas, concentrando-se em mercados regulados. Cerca de um ano e meio depois do início da operação, a empresa chegou ao ponto de equilíbrio.
Na prática, a IA desenvolvida pela Legitimuz analisa fotos de documentos de identidade para verificar sua validade. O sistema cruza diferentes elementos, como fonte, alinhamento das informações, fotografia, cores e assinaturas, em uma análise que busca identificar sinais de adulteração. “A ideia é entender se o documento tem validade ou não”, diz.
O reconhecimento facial entra como outra etapa dessa verificação. Mas, para a Legitimuz, confirmar a identidade não encerra o processo. Uma pessoa pode apresentar o rosto e o documento corretos e, ainda assim, estar sendo manipulada por um fraudador ou participando de uma operação suspeita. É dessa mudança de abordagem que surge o LegitFace.
O lançamento parte de uma diferença em relação aos modelos tradicionais de autenticação. Neles, a prova de vida busca responder se existe uma pessoa real diante da câmera e se aquele rosto corresponde à identidade apresentada.
O LegitFace mantém essa camada, mas acrescenta outras informações à análise. A tecnologia combina a prova de vida com sinais do dispositivo e da própria operação para avaliar como aquela identidade está se comportando e qual é o nível de risco envolvido.
A pergunta, portanto, deixa de ser apenas “essa pessoa é quem diz ser?” e passa a incluir outra: “essa identidade está se comportando como deveria?”
Um CPF pode ser verdadeiro e o rosto também, mas o celular, a localização ou o comportamento podem indicar que a pessoa está sendo usada por um fraudador. É o caso, por exemplo, de alguém que acredita estar participando de um sorteio, mas é induzido a fazer um reconhecimento facial que, na verdade, será usado para financiar um carro em seu nome.
É nesse tipo de situação que a empresa pretende atuar. Em vez de tratar a identidade como uma informação isolada, o LegitFace analisa o contexto em que ela aparece.O desenvolvimento começou em janeiro de 2025, quando a Legitimuz já havia atingido escala e processava mais de 40 milhões de transações em um mês. Naquele momento, a empresa usava provedores americanos de reconhecimento facial e concluiu que depender de tecnologias estrangeiras limitaria sua capacidade de lidar com as condições específicas do mercado brasileiro.
Parte do desenvolvimento do LegitFace está relacionada às características do mercado brasileiro. Segundo a empresa, a tecnologia foi construída considerando dispositivos antigos, câmeras de menor qualidade, conexões instáveis e diferentes condições de uso. A companhia também diz ter trabalhado com situações como vitiligo, albinismo, cicatrizes, paralisia facial e dificuldades de leitura e acessibilidade.
A Legitimuz afirma ter treinado seus modelos com uma massa de dados com diferentes perfis para reduzir erros de reconhecimento. A proposta é evitar que características do usuário ou as condições do dispositivo levem à reprovação indevida de uma pessoa legítima.Essa preocupação também se aplica à prova de vida. O sistema precisa diferenciar uma pessoa real de tentativas de manipulação, como fotografias, telas, máscaras e conteúdos gerados ou alterados digitalmente.
Essa identificação é apenas uma parte da análise. O objetivo é cruzá-la com outras informações para avaliar a legitimidade da interação como um todo.
Para testar os cenários de fraude, a Legitimuz criou um time de oito pessoas dedicado a atacar os próprios sistemas.
“Temos uma sala que a gente chama de laboratório da fraude, onde temos dezenas de máscaras, impressoras, projetores, monitores e até mesmo profissionais capacitados em alteração de hardware para fazer esse tipo de ataque”, afirma Janiszewski.
A equipe tenta reproduzir internamente as técnicas usadas por fraudadores. A empresa cita testes com máscaras, telas de alta resolução, papel impresso, deepfakes e injeção de câmera virtual.
A companhia também contratou empresas que acompanham tendências que aparecem na deep web, para identificar e se preparar para novas formas de ataque.A expansão do LegitFace acompanha o crescimento da Legitimuz. Nos últimos meses, a empresa passou de cerca de 40 para mais de 80 funcionários e hoje afirma ter mais de 150 clientes, processar aproximadamente 40 milhões de autenticações por mês e ter cerca de 150 milhões de faces vinculadas a CPFs únicos.
A empresa fatura mais de R$ 100 milhões por ano e projeta crescimento de 40% em 2027. Para sustentar a expansão, a Legitimuz ampliou a equipe e trouxe profissionais com experiência em bancos, tecnologia e identidade.Segundo a companhia, a combinação entre o LegitFace e a inteligência de dispositivo contribui para a expansão dos negócios no setor financeiro. A empresa já atende bancos, fintechs, empresas de crédito, marketplaces e varejistas e pretende ampliar a atuação dentro dos mercados regulados.
Ao mesmo tempo, a tecnologia começa a ser levada para outros casos de uso. Uma das apostas é a estimativa de idade pela face, que combina a prova de vida com um modelo de inteligência artificial para identificar se uma pessoa é maior ou menor de idade.O produto já está pronto e em operação, segundo Janiszewski, e pode ser usado em compras de bebidas, conteúdos restritos e outros serviços que exigem confirmação de idade.
No longo prazo, a ambição é ampliar os sinais usados nas decisões. Áudio, ligações e outras trocas de informação poderiam entrar na análise quando estiverem relacionadas a uma transação ou autenticação.