Como o Fleury virou um laboratório de ideias em plena pandemia

O ano de 2020 foi o mais inovador dos 94 anos de história do Grupo Fleury. E isso tem tudo a ver com a pandemia da covid-19. Entenda as conquistas dessa estratégia até agora – e os riscos à frente
Grupo Fleury: empresa diversificou atuação durante a pandemia (Exame/Germano Luders)
Grupo Fleury: empresa diversificou atuação durante a pandemia (Exame/Germano Luders)
Por Mariana DesidérioPublicado em 10/03/2021 06:51 | Última atualização em 10/03/2021 11:00Tempo de Leitura: 7 min de leitura
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FLEURY: a marca é uma das maiores redes de diagnósticos do país. / | Leandro Fonseca (Leandro Fonseca/Exame)

O ano de 2020 foi o mais inovador dos 94 anos de história do Grupo Fleury. E isso tem tudo a ver com a pandemia da covid-19. Só no ano passado, a empresa de medicina diagnóstica colocou no ar uma plataforma de serviços e produtos de saúde, o Saúde iD, se aproximou do público sem plano de saúde e fez uma série de aquisições que ampliam seu escopo de atuação para além dos exames laboratoriais.

“Uma pessoa passa cerca de 1% da sua vida no hospital. Nós queremos fazer parte do seu dia a dia nos outros 99% do tempo.”, afirma o CEO Carlos Marinelli.

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Para isso, o Fleury precisava deixar de ser apenas uma empresa de laboratórios. A estratégia de diversificação do negócio foi traçada em 2018, ano em que o Fleury adquiriu a empresa de gestão de saúde SantéCorp. Em 2020, com a pandemia, projetos que já estavam desenhados foram acelerados.

“Vimos que nossa estratégia estava alinhada ao momento. Mas o que achávamos que aconteceria em cinco anos na realidade viria em apenas um ano, como a telemedicina”, diz o executivo. A plataforma de telemecidina do Fleury já fez mais 200 mil consultas.

Com a população com medo do vírus, o Fleury também despontou como alternativa para a realização de procedimentos de baixa complexidade, como procedimentos ortopédicos. Em 2020, a empresa fez a aquisição do Centro de Infusões Pacaembu (CIP), em São Paulo, por 120 milhões de reais, reforçando sua presença no mercado de infusões de medicamentos.

Outra aquisição recente foi a da Clínica de Olhos Moacir Cunha, também em São Paulo, por 29,5 milhões de reais. Ambas as aquisições ampliam a gama de serviços oferecidos para quem precisa de procedimentos de saúde, mas pode evitar o ambiente hospitalar.

Ainda com a proposta de oferecer saúde fora do hospital, o grupo anunciou no final de 2020 a criação de um centro de medicina reprodutiva, batizado de Fleury Fertilidade. Uma unidade com sala cirúrgica, laboratórios de embriologia e andrologia, e sala para congelamento de óvulos, sêmen e embriões.

População mais saudável

A pandemia gerou na população uma maior preocupação com a saúde. Alinhado a isso, o Grupo Fleury lançou no ano passado o Saúde iD, plataforma para venda de produtos e serviços ligados à saúde.

Atualmente, o Saúde iD hospeda a plataforma de telemedicina do grupo e faz q unificação das informações de saúde dos clientes, com exames em um só lugar. A meta, contudo, é incluir também venda de medicamentos ou até alimentos recomendados pelo médico, como em um marketplace. O projeto recebeu investimento de 50 milhões de reais.

Inicialmente disponível somente para empresas clientes do Fleury, em fevereiro, o Saúde iD passou a atender também pessoas físicas via assinaturas. Há dois modelos de assinatura, o light e o plus. No primeiro, a mensalidade custa 29,90 reais e dá direto a uma teleconsulta com retorno por mês e a 14 exames anuais feitos nas clínicas a+ Medicina Diagnóstica, que são do grupo. No modelo plus, a assinatura é de 59,90 reais. Basicamente, ela oferece o mesmo que a opção mais econômica, com o diferencial de que o cliente poder realizar também consultas presenciais, se desejar.

Com isso, o Fleury mira outra tendência do setor impactada pela pandemia. Com a alta do desemprego e poucas opções de planos de saúde individuais, a população que quer um atendimento de saúde alternativo ao SUS, mas está fora da carteira das grandes operadoras de planos, fica cada vez mais relevante.

Da foto ao filme

A diversificação nos negócios é parte do plano do Fleury de estar mais presente no dia-a-dia do cliente. “Com a medicina diagnóstica, temos algumas fotos do paciente. Isso é bom, mas queremos estar mais presentes, queremos ir da foto ao filme”, diz Marinelli.

O movimento é bem visto pelo mercado e ocorre em um momento agitado para o setor de saúde. Em dezembro, a Rede D’Or, maior rede privada de hospitais do país, abriu capital na bolsa de valores brasileira a B3, movimentando 11 bilhões de reais no maior IPO de uma companhia brasileira desde 2013. Em fevereiro, as operadoras de planos de saúde Notredame Intermédica e Hapvida anunciaram fusão, o que dará origem a uma empresa de 18,2 bilhões de reais em receita combinada.

“O Fleury está na ofensiva, buscando fazer parte do movimento de consolidação do setor de saúde e aproveitar as oportunidades de crescimento do setor nos próximos anos”, afirma João Vitor Freitas, analista da Toro Investimentos.

O mercado aguarda

Com os novos investimentos, as perspectivas para a empresa no longo prazo são animadoras. No curto prazo, porém, o mercado ainda está reticente. Os resultados do Fleury em 2020 foram afetados pela pandemia, com redução da demanda por exames, já que a população decidiu adiar idas ao médico e procedimentos não urgentes.

A empresa levou um tombo no segundo trimestre de 2020, com queda de 37% na receita e prejuízo de 73,3 milhões de reais no período. Nos meses seguintes, com a demanda por exames se normalizando, o Fleury se recuperou, ajudado em parte pela alta demanda de exames de covid-19. O quatro trimestre teve receira de 928 milhões de reais, alta de 29,8% em relação a 2019, e lucro de 139,5 milhões de reais, alta de 148,7% em relação a 2019.

Com o avanço da vacinação e a demanda por exames eletivos mais normalizada, fica a dúvida sobre como virão os números da empresa nos próximos trimestres, antes que a receita de outros segmentos do grupo comece a despontar e em um cenário de alta de custos para o negócio de diagnósticos, com dólar nas alturas. “É cedo para falar sobre novos níveis de demanda para a companhia”, escreveram analistas do Credit Suisse em relatório sobre o Fleury no final de fevereiro. A recomendação do banco para o papel é neutra.

Ponto de inflexão

Para os executivos do Fleury, 2021 é um ano para acelerar ainda mais. Muitas iniciativas anunciadas em 2020 ganharão tração este ano. Também é um ano para aperfeiçoar iniciativas que já estão rodando, por meio de novas tecnologias.

Algumas das inciativas já são bem concretas. O Grupo adotou no ano passado o Tytocare, um dispositivo portátil criado por uma startup israelense que permite a realização de exames clínicos à distância, via telemedicina.

Agora, está implementando o Sweetch, uma ferramenta que usa inteligência artificial para fazer acompanhamento de doenças crônicas e coleta informações do paciente ao longo do dia por meio de um aplicativo.

Para o presidente do Fleury, o mercado de saúde vive um ponto de inflexão, e a meta do Grupo Fleury é estar na ponta dessa transformação. “Estamos vendo apenas a ponta do iceberg do que será a saúde digital do futuro”, diz. 

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