Donald Trump: disputa geopolítica no Ártico eleva tensão entre Estados Unidos, União Europeia e aliados da Otan. (Getty Images/Montagem/Exame)
Repórter
Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 06h35.
A União Europeia prometeu uma resposta “firme, unida e proporcional” às ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, relacionadas à Groenlândia, território autônomo da Dinamarca no Ártico.
A reação do bloco ocorre às vésperas de uma reunião em Davos, nesta quarta-feira, 21, dedicada ao futuro estratégico da ilha.
Desde que reassumiu a Casa Branca, Trump sustenta que os Estados Unidos “precisam” da Groenlândia por razões de segurança nacional, citando o risco de avanço da Rússia e da China sobre uma região considerada estratégica e rica em minerais e terras raras. Antes de embarcar para o Fórum Econômico Mundial, o republicano evitou esclarecer até onde está disposto a ir para alcançar esse objetivo. “Vocês vão descobrir”, disse, ao ser questionado.
O clima de tensão se intensificou após oito países europeus, todos membros da Otan, manifestarem oposição pública à ideia. Entre eles estão Reino Unido, Alemanha e França, as maiores economias do continente. Trump reagiu ameaçando impor tarifas comerciais aos países que resistirem ao plano.
Em discurso em Davos, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, alertou que as propostas de Washington podem levar as relações transatlânticas a uma “espiral descendente”. Segundo ela, tarifas entre aliados históricos representam um erro estratégico. “Nossa resposta será firme, unida e proporcional”, afirmou.
O presidente da França, Emmanuel Macron, defendeu que a União Europeia utilize seus instrumentos comerciais anti-coerção, considerados o mecanismo mais duro de retaliação econômica do bloco. A posição provocou reação imediata de Washington. O representante da Casa Branca para o Comércio, Jamieson Greer, afirmou que não seria “prudente” recorrer ao instrumento, apelidado por ele de “bazuca comercial”.
Em meio ao agravamento da crise, o Parlamento Europeu decidiu suspender o processo de ratificação do acordo comercial entre União Europeia e Estados Unidos, segundo confirmaram nesta terça-feira os principais grupos políticos da Casa.
O presidente publicou uma fotomontagem em que aparece fincando uma bandeira americana em um cenário gelado, ao lado de uma placa com os dizeres: “Groenlândia — Território dos Estados Unidos. Est. 2026”.
Em Davos, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, declarou apoio “firme” à Groenlândia e à Dinamarca e afirmou que o sistema de governança global liderado pelos Estados Unidos enfrenta uma ruptura profunda. Sem citar diretamente Trump, Carney disse que o mundo vive “o fim de uma fantasia confortável e o início de uma realidade brutal”, marcada pela geopolítica das grandes potências sem restrições claras.
Na mesma linha, o ex-secretário-geral da Otan e ex-primeiro-ministro da Dinamarca, Anders Fogh Rasmussen, afirmou à AFP que as ameaças americanas configuram uma crise para a comunidade transatlântica e representam um desafio direto à ordem internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial.
Os líderes da União Europeia se reúnem na quinta-feira, em Bruxelas, para definir a resposta política à crise, considerada uma das mais graves nos vínculos entre Europa e Estados Unidos nos últimos anos.
As relações entre Trump e Macron se deterioraram ainda mais após o presidente americano ameaçar impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses, depois que Paris indicou que poderia não participar do chamado “Conselho de Paz” proposto por Washington. Macron reagiu afirmando que a França prefere “respeito a intimidação” e classificou as tarifas como “inaceitáveis”.
Analistas comparam o conselho idealizado por Trump a uma versão alternativa do Conselho de Segurança da ONU, na qual os países precisariam pagar para participar. Trump confirmou que Vladimir Putin está entre os líderes convidados. O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, também foi chamado, mas declarou ser “muito difícil imaginar” dividir o mesmo espaço com o líder russo.
Zelensky disse ainda estar preocupado com o fato de a crise envolvendo a Groenlândia desviar a atenção internacional da guerra na Ucrânia, quase quatro anos após a invasão russa.
Trump afirmou nesta terça-feira que não participará de uma eventual reunião de emergência do G7 sobre a guerra, proposta por Macron. O republicano divulgou uma mensagem privada do presidente francês em sua rede Truth Social, sugerindo um encontro em Paris. Horas depois, Macron disse que nenhuma reunião estava formalmente prevista, mas que a França estaria disposta a organizar o encontro.
*Com informações da AFP