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Ucrânia exonera políticos acusados de corrupção em meio à guerra com a Rússia

Desde o começo da guerra, as críticas por corrupção do governo têm sido abafadas pela necessidade de união contra os russos

Volodymyr Zelensky: Ucrânia enfrenta problemas crônicos de corrupção desde muito antes da invasão (Samir Hussein/Getty Images)

Volodymyr Zelensky: Ucrânia enfrenta problemas crônicos de corrupção desde muito antes da invasão (Samir Hussein/Getty Images)

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Estadão Conteúdo

24 de janeiro de 2023, 13h47

A um mês de completar um ano da invasão da Ucrânia pela Rússia, vários altos funcionários ucranianos foram exonerados nesta terça-feira, 24, incluindo um importante assessor do presidente Volodymyr Zelensky e governadores de várias regiões ucranianas, acusados de corrupção no Exército. A medida marcou a maior mudança no governo de Zelenski desde o início da guerra, 11 meses atrás.

Membros de ministérios e pelo menos cinco governadores regionais foram demitidos ou deixaram seus cargos. O governo da Ucrânia, que anunciou as destituições no aplicativo de mensagens sociais Telegram, não forneceu detalhes sobre o motivo dos desligamentos mas eles aconteceram após relatos de que os militares da Ucrânia concordaram em pagar preços inflacionados por alimentos destinados às tropas do país.

Embora não haja provas de que as demissões se relacionam à apropriação indevida de assistência militar ocidental, as demissões parecem refletir o objetivo de Zelenski de tranquilizar os países aliados da Ucrânia — que estão enviando bilhões de dólares em ajuda militar — de que seu governo mostrará tolerância zero para a corrupção, enquanto se prepara para uma possível nova ofensiva de Moscou.

Desde o começo da guerra, as críticas por corrupção do governo tem sido abafadas pela necessidade de união contra os russos. A mudança vem justamente quando a Otan, a aliança militar do Ocidente, debate os prós e os contras de escalar sua ajuda militar a Kiev com o envio de tanques de guerra alemães para o conflito.

Houve duas baixas mais sérias por acusações de corrupção: o vice-ministro da Defesa, Viacheslav Chapovalov, foi acusado de inflacionar preços de comida para tropas, e o vice-ministro das Regiões, Vasil Lozinski, admitiu ter recebido US$ 400 mil (R$ 2,1 milhões) em suborno.

Caíram também o procurador-geral adjunto, Oleskii Simonenko, que tirou férias na Espanha com a família recentemente, e vice-ministros do Desenvolvimento, da Comunidade, da Economia e da Política Social, todos por má gestão e suspeitas de corrupção.

Além de Kirilo Timoshenko, vice-chefe do gabinete presidencial, que supervisionava a política regional e trabalhou na campanha eleitoral de Zelenski, cinco governadores regionais e quatro vice-ministros perderam seus cargos. Eles incluem os governadores da região de Dnipropetrovsk, Valentin Reznichenko; da região de Zaporizhia, Oleksandr Starukh; da região de Sumi, Dmitro Zhivitski; da região de Kherson, Yaroslav Yanushevich; e da capital, Kiev, Oleksii Kuleba.

Mais cedo na terça-feira, o Ministério da Defesa da Ucrânia disse que Viacheslav Shapovalov, o vice-ministro de Defesa, "pediu para ser demitido" após as denúncias. O ministério disse em comunicado que liberar Shapovalov de suas funções "preservará a confiança" dos ucranianos e dos parceiros internacionais do país.

Timoshenko era bem conhecido nacional e internacionalmente, frequentemente encarregado de fornecer atualizações sobre a guerra. Mas os jornalistas ucranianos levantaram questões sobre seu estilo de vida luxuoso e o possível uso de recursos do governo.

Em particular, ele foi criticado por andar em uma SUV cara que a General Motors havia doado para uso em missões humanitárias.

A Ucrânia enfrenta problemas crônicos de corrupção desde muito antes da invasão. Mas, para muitos ucranianos, o sentimento de luta comum e unidade durante a guerra torna particularmente revoltante a ideia de que altos funcionários podem prejudicar o esforço coletivo do país para seu próprio benefício, especialmente se a corrupção envolver os militares.

No fim de semana, um jornal ucraniano noticiou que o Ministério da Defesa comprou alimentos a preços inflacionados, incluindo ovos a três vezes o seu custo. O ministro da Defesa, Oleksii Reznikov, chamou as alegações de "tolice absoluta" e produto de "informações distorcidas".

Em sua declaração na terça-feira, o ministério enfatizou que as "acusações expressas são infundadas e sem fundamento", mas chamou o pedido de demissão de Shapovalov de "um ato digno nas tradições da política europeia e democrática, uma demonstração de que os interesses da defesa são superiores a quaisquer cargos ou cadeiras."

O fato de Shapovalov ter demorado três dias para deixar o cargo levanta sérias questões sobre o compromisso do Ministério da Defesa em erradicar a corrupção, disse Vitaliy Shabunin, diretor de operações do Centro de Ação Anticorrupção, uma organização não governamental com sede em Kiev.

"Um novo contrato social surgiu durante a guerra entre a sociedade civil, os jornalistas e o governo: não iremos criticá-lo como fazíamos antes da guerra, mas sua reação a qualquer escândalo e ineficácia deve ser o mais dura possível", disse Shabunin. "A posição do ministro da Defesa quebrou este acordo."