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Trump é um "valentão" e Biden deve ser agressivo para vencer no debate, diz ex-prefeito de Nova York

Primeiro embate na TV americana entre os dois candidatos a presidente será realizado nesta quinta

Bill de Blasio, ex-prefeito de Nova York (Tayfun Coskun/Getty Images)

Bill de Blasio, ex-prefeito de Nova York (Tayfun Coskun/Getty Images)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de macroeconomia

Publicado em 27 de junho de 2024 às 13h03.

Última atualização em 1 de julho de 2024 às 15h16.

O presidente Joe Biden deve adotar uma estratégia mais agressiva contra o ex-presidente Donald Trump no debate desta quinta, 27, para aumentar suas chances de ir bem, avalia Bill de Blasio, ex-prefeito de Nova York e membro do Partido Democrata.

"Donald Trump tem a personalidade de um valentão. Uma coisa que um valentão espera é o medo. Biden entende que para debater com Trump, precisa ser muito agressivo. Isso dará a ele uma vantagem contra Trump. Biden tem que dizer 'você é um réu condenado, que retira os direitos das mulheres'", disse Blasio.

Ex-prefeito de Nova York (2014-21) e candidato presidencial nas primárias de 2020, Blasio participou de um evento organizado pelo Iree (Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa), em São Paulo.

Biden e Trump farão o primeiro debate presidencial das eleições de 2024 na noite desta quinta, 27. O programa começa às 22h (hora de Brasília) e terá transmissão dos canais CNN e CNN Brasil.

Blasio avalia que a decisão de antecipar o debate entre os dois candidatos finais para antes das convenções, algo inédito na história do país, mostra a disposição dos democratas de arriscar.

"Antecipar o debate é uma estratégia arriscada, mas campanhas vencedoras geralmente assumem riscos", disse.

"Os republicanos criaram uma armadilha para si mesmos, aos insistir que Joe Biden não é mais capaz. A equipe de Joe Biden entendeu que se eles forem ao debate e tiverem um desempenho razoavelmente forte, podem mudar a dinâmica da eleição em seu favor", prosseguiu. "Eu queria, às vezes, que Joe Biden apresentasse as coisas de outro modo, mas você não pode tirar suas conquistas. Biden costuma ser muito forte nos debates, e quando focado, pode ser um mensageiro muito efetivo."

"Ninguém sabe o que vai acontecer esta noite. Milhões de pessoas estão muito tensas, preocupadas de que as coisas podem ir a outra direção. Mas acho que foi uma estratégia brilhante. Os republicanos pintaram a imagem de um presidente incapaz de tomar decisões muito básicas. Joe Biden terá de fazer muito pouco para vencer hoje à noite."

Perguntado sobre que dicas daria a Biden para o programa, Blasio recomendou que o presidente repita muitas vezes que Trump foi condenado na Justiça. O republicano foi considerado culpado por fraude fiscal envolvendo um pagamento de suborno. Sua sentença, que pode chegar a quatro anos de prisão, será anunciada em 11 de julho.

Blasio avalia que a imigração será o tema mais difícil para Biden responder aos ataques de Trump. O número de entradas irregulares no país bateu recorde nos útimos anos, sob gestão democrata.

"A resposta tem de ser visionária, dizer algo como 'nós podemos resolver este problema', com um ampla reforma de imigração. E perguntar 'você se juntaria comigo nisso?' porque Trump nunca vai dizer que sim. Nem George W. Bush conseguiu ter seu partido junto para uma reforma de imigração. Então ao menos neutralizaria o ataque de Trump", comenta.

Sobre ataques por conta da alta inflação, Biden deve ressaltar que criou programas para reduzir gastos dos americanos, como a compra de remédios, algo que ele vem falando em discursos há alguns anos.

Quem decidirá a eleição nos EUA?

Blasio considera que a disputa deste ano será muito apertada, com eleitores decidindo seus votos nos últimos dias, e que as mulheres de subúrbio dos estados-chave serão as responsáveis pelo resultado final. A votação será realizada em 5 de novembro.

"Esta eleição será decidida por um número muito pequeno e um grupo muito específico de pessoas. Eu acredito, tendo trabalhado em campanhas presidenciais, que quem vai decidir serão as mulheres que vivem em áreas de subúrbio, em seis estados, que são politicamente moderadas. Algumas são independentes, outras são republicanas, mas temos visto, de forma consistente nas últimas eleições, mulheres moderadas e republicanas se movendo para o lado democrata, porque Donald Trump está tirando os diretos delas", disse. "Acho que estas mulheres vão decidir a eleição, e em favor de Joe Biden."

Pesquisas apontam que seis estados deverão ser decisivos na disputa: Arizona, Nevada, Michigan, Geórgia, Pensilvânia e Wisconsin.

"Joe Biden já tem ido a estes estados cruciais. É o que ele precisa para vencer. Ele já foi muitas vezes a eles, e ainda é junho", aponta.

O democrata avalia ainda que as questões de gênero também terão peso na eleição. "Há um medo tremendo da comunidade LGBT sobre como as leis podem mudar sob Turmp. O mesmo raciocínio que levou à decisão sobre o aborto pode ser usado para retirar direitos das pessoas gays", afirmou.

Em 2022, a Suprema Corte, de maioria conservadora, suspendeu o direito ao aborto no país. Três dos nove juízes foram nomeados por Trump quando era presidente, e ele celebra na campanha o fato de ter ajudado a acabar com o direito ao aborto no país.

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Blasio fez campanha para Hillary

Blasio, 63 anos, foi prefeito de Nova York por dois mandatos, de 2014 a 2021. Antes, fez parte do conselho da cidade (espécie de Câmara de Vereadores) por sete anos. Ele atuou na campanha derrotada de Hillary Clinton à Presidência, em 2016.

Em 2020, Blasio foi pré-candidato à Presidência nas primárias e chegou a participar de debates com Biden, mas desistiu da disputa.

O democrata contou que, após a vitória de Trump em 2016, foi encontrá-lo para uma reunião, com a esperança de que o presidente fosse ser um líder moderado e que os exageros fossem apenas algo encenado, mas se decepcionou. "Vi uma pessoa que tinha momentos de lucidez e momentos de absoluto surrealismo. Era uma reunião um a um, e ele não teria de fingir ser quem não é. Ele disse coisas como 'três milhões de pessoas votaram ilegalmente', que já foram provadas como falsas".

Blasio comentou ainda ter a esperança de que, em cerca de 10 anos, uma mudança importante poderá mudar a política do país e favorecer seu partido. "Muitas pessoas estão se mudando para o Texas, vindas de estados onde há força democrata. Se o Texas for vencido pelos democratas nas eleições presidenciais, as eleições terão mudanças de longo prazo, dado o peso do estado no Colégio Eleitoral". O Texas tem 40 dos 538 delegados que decidem a eleição presidencial.

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