O Irã anunciou, nesta terça-feira, 21, que ainda não enviou sua delegação ao Paquistão para a segunda rodada de negociações com os Estados Unidos, a menos de 48 horas do término do cessar-fogo que interrompeu a guerra no Oriente Médio.
A medida mantém em suspense o destino da trégua, que, segundo o presidente americano, Donald Trump, expirará na noite de quarta-feira, 22.
As tensões aumentam à medida que Teerã e Washington trocam acusações sobre a violação do acordo de duas semanas.
Trump, em publicação no Truth Social, acusou o Irã de violar o cessar-fogo em diversas ocasiões, enquanto o país persa rebate, afirmando que o bloqueio imposto pelos EUA aos seus portos e a apreensão de um de seus navios foram violações do acordo.
Os dois países haviam realizado uma rodada inicial de negociações no início de abril, o encontro de maior nível desde a fundação da República Islâmica em 1979. No entanto, o diálogo fracassou. Enquanto o Irã manteve o Estreito de Ormuz fechado, ponto estratégico para o tráfego de hidrocarbonetos, os Estados Unidos reagiram com o bloqueio dos portos iranianos.
Como a nova liderança no Irã pode prejudicar negociações com os EUA
“Nenhuma delegação do Irã viajou para Islamabad, seja a delegação principal ou a secundária”, informou a televisão estatal iraniana, confirmando a falta de progresso nas negociações.
Críticas de ambos os lados
Trump acusou Teerã de atacar navios no Estreito de Ormuz, enquanto o Irã aponta que o bloqueio dos EUA viola os termos do cessar-fogo. As autoridades iranianas expressam descontentamento com o processo, acusando Washington de não demonstrar boa fé nas negociações.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohamad Baqer Qalibaf, afirmou que o país não aceitará negociar "sob a sombra das ameaças" de Trump e se mostrou disposto a usar "novas cartas no campo de batalha" se a guerra for retomada.
Impacto da trégua na população iraniana
Enquanto isso, moradores de Teerã, em entrevistas com a AFP a partir de Paris, relataram que a vida no país piorou devido à opressão do governo e às consequências da guerra. "Este maldito cessar-fogo nos destruiu. Não há luz no fim do túnel", afirmou Saghar, uma iraniana de 39 anos. “A situação é terrível. Não conheço ninguém ao meu redor que esteja bem”.
Babak Samiei, um engenheiro de 49 anos, destacou que aproveitou o período de trégua para voltar a praticar esportes e ioga, após o sofrimento dos “40 dias de guerra”. Ele, no entanto, está cético quanto ao futuro. "Tenho a sensação de que nenhum acordo será alcançado e a guerra será provavelmente retomada", disse.
O futuro da trégua
Embora a trégua deva terminar na noite de terça-feira, Trump afirmou que o prazo se estende até a noite de quarta-feira (horário de Washington). Ele ainda declarou que uma prorrogação do cessar-fogo é “altamente improvável”.
O presidente dos EUA também ressaltou que o Irã “deveria estar” nas negociações no Paquistão, insistindo que, caso o cessar-fogo chegue ao fim, “muitas bombas começariam a explodir”.
O governo de Trump mantém um bloqueio aos portos iranianos e impõe condições rigorosas para um possível acordo, como a entrega do urânio enriquecido pelo Irã, vinculado ao seu polêmico programa nuclear.
O presidente republicano, por sua vez, rejeitou a ideia de estar sendo pressionado pelo tempo. “Não estou sob nenhuma pressão, embora tudo vá acontecer relativamente rápido", escreveu no Truth Social.
O impacto no mercado de petróleo
Com a incerteza sobre o futuro das negociações, os preços do petróleo registraram queda na terça-feira, sendo negociados abaixo dos US$ 100 por barril, refletindo o clima de instabilidade.
Líbano: outro cenário de tensão
No Líbano, outro cessar-fogo, anunciado na última sexta-feira, segue em vigor.
O país se tornou a outra grande frente de batalha desde que o Hezbollah, grupo libanês pró-Irã, entrou no conflito em apoio ao Irã, em 2 de março.
Israel e Líbano, que não mantêm relações diplomáticas, se preparam para uma segunda rodada de negociações em Washington, marcada para esta quinta-feira, 23, conforme fontes do Departamento de Estado dos EUA.
Os ataques israelenses contra o Líbano já deixaram ao menos 2.387 mortos desde o início da guerra, segundo dados mais recentes fornecidos pelo governo de Beirute.