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Tarifas dos EUA ao Brasil vão favorecer asiáticos, diz Amcham em audiência

Governo americano ameaça nova rodada de taxação ao Brasil e debate o tema em audiência em Washington

Abrão Neto, presidente da Amcham, durante evento em São Paulo (Divulgação)

Abrão Neto, presidente da Amcham, durante evento em São Paulo (Divulgação)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de internacional e economia

Publicado em 6 de julho de 2026 às 17h56.

Última atualização em 6 de julho de 2026 às 17h59.

A Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham) participou da audiência pública realizada em Washington nesta segunda-feira, 6, e defendeu que as novas taxas poderão aumentar a dependência dos EUA de fornecedores asiáticos.

Os EUA debatem impor duas novas tarifas ao Brasil, de 25% e de 12,5%, em razão das acusações de que o país adota práticas desleais que prejudicam os Estados Unidos, com base na Seção 301. As acusações contra o Brasil incluem trabalhos forçados, desmatamento ilegal, corrupção, pirataria e críticas ao Pix.

Audiências públicas sobre o assunto estão sendo realizadas em Washington a partir desta segunda-feira, 6. A Amcham foi uma das instituições que se pronunciaram na audiência. Em sua argumentação, a entidade apontou que os produtos que o Brasil vende para os EUA e que serão taxados também são fornecidos pela China, Japão, Coreia do Sul, Vietnã e Tailândia.

Assim, ao dificultar a compra de produtos brasileiros, os americanos terão de comprar mais itens vindos da Ásia. A Amcham aponta que esse movimento já ocorreu em meio ao tarifaço de 2025, que levou o Vietnã e a Tailândia a aumentarem as suas vendas aos EUA.

"As tarifas propostas correm o risco de reforçar padrões de fornecimento que aumentam a dependência dos EUA em relação a fornecedores asiáticos, especialmente a China, ao mesmo tempo em que reduzem as importações de um parceiro regional confiável [o Brasil]", afirma a entidade.

"Tal resultado entra em conflito com os objetivos mais amplos dos EUA de fortalecer a resiliência da cadeia de suprimentos e diversificar as fontes de fornecimento em setores estratégicos", afirma a Amcham.

Soluções propostas

Como soluções para o impasse, a Amcham sugeriu a ampliação do acesso a mercados em determinados setores, a cooperação em minerais críticos, a extensão da moratória da OMC sobre negócios envolvendo transações eletrônicas, como o download de conteúdos e serviços digitais, e a agilização do exame de patentes no Brasil.

“Embora a investigação esteja na reta final e as negociações sejam complexas, ainda há espaço para que os dois governos intensifiquem esforços em busca de uma solução negociada. A aplicação de novas tarifas seria prejudicial para ambas as economias, com impactos negativos para o setor produtivo e os consumidores dos Estados Unidos, além de perda de competitividade das exportações brasileiras para um mercado crucial”, afirmou Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.

Entenda o caso da Seção 301

O governo dos Estados Unidos anunciou, em 1º de junho, que o Escritório do Representante Comercial (USTR) determinou que o Brasil agiu de forma não razoável no comércio bilateral, como parte da investigação aberta por meio da Seção 301, em julho de 2025.

Por conta disso, o USTR propôs que os EUA passem a cobrar do Brasil uma tarifa extra de 25%, com algumas exceções. A medida, no entanto, ainda não foi aplicada e há espaço para mais negociações. Uma decisão final sobre o caso será definida até 15 de julho.

Além disso, o Brasil é investigado em outro processo pela 301, junto com outros países, que investiga o uso de trabalhos forçados na produção. Caso o país seja considerado culpado neste caso, seria alvo de outra tarifa de 12,5%. As audiências públicas dessa ação começam na terça-feira, 7.

Um estudo feito pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que as novas tarifas que os Estados Unidos avaliam impor ao Brasil poderão afetar 4.187 produtos, que equivalem a US$ 14,9 bilhões anuais em exportações. Entre os produtos sob risco, há destaque para ferro-gusa, açúcar de cana, álcool etílico e tabaco curado.

Em 2025, o Brasil exportou US$ 37,6 bilhões em mercadorias aos EUA. Em 2026, o total exportado até agora foi de US$ 17,4 bilhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Comércio, Indústria e Serviços.

"O Representante Comercial dos Estados Unidos determinou, nos termos da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que certos atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas preferenciais desleais; combate à corrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal são irrazoáveis ​​e oneram ou restringem o comércio dos EUA, sendo, portanto, passíveis de ação judicial nos termos da Seção 301(b) da Lei de Comércio", disse o USTR, no comunicado que anunciou a conclusão das investigações.

Ainda não foram anunciadas novas tarifas, mas a "proposição de ações corretivas para consulta pública, enquanto os Estados Unidos continuam a dialogar intensamente com o Brasil para buscar a resolução das preocupações americanas", disse o órgão.

Uma audiência sobre o tema foi iniciada nesta segunda-feira, 6, e é aberta a depoimentos de interessados em se posicionar contra ou a favor do país. Se os EUA mantiverem o entendimento de que o Brasil não adotou medidas corretivas, poderão implantar novas tarifas, além das que já estão em vigor.

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