Como os bilionários podem mudar o rumo das eleições nos EUA

Saiba como funciona o Super PAC, mecanismo de financiamento que dá maior poder de influência aos muito ricos nas campanhas e pode mudar o rumo das eleições americanas

São Paulo – Quando abandonou a corrida para tentar disputar a presidência dos Estados Unidos pelo partido Republicano, no início desta semana, Rick Santorum atribuiu a decisão à doença de sua filha de três anos, que sofre de uma desordem genética e foi internada no último final de semana. Mas nesta quinta-feira, o ex-candidato sugeriu, em entrevistas, que o motivo que mais pesou na sua desistência foi outro: falta de recursos para continuar com a campanha.

Não é segredo que para ser bem sucedido em uma campanha eleitoral é preciso ter dinheiro, muito dinheiro. Na última eleição presidencial nos Estados Unidos, em 2008, os candidatos gastaram nada menos que um bilhão de dólares. Mas um ingrediente introduzido na disputa eleitoral deste ano promete dar uma importância ainda maior para a questão e elevar esta cifra a um patamar ainda mais alto: os Super PACs.

Os Super PACs são uma versão turbinada dos PACs (comitês de ação política, na sigla em inglês). Até as últimas eleições, os PACs eram a forma oficial que os candidatos tinham para arrecadar doações de empresas e sindicatos – já que doações diretas são permitidas apenas para as pessoas físicas, que podem dar até 2,5 mil dólares para seu favorito por eleição. 

Mas o poder de arrecadação dos PACs era limitado, já que eles podiam receber apenas 5 mil dólares de cada doador, incluindo empresas  e sindicatos. 

Fazendo jus ao seu nome, os Super PACs (criados em junho de 2010) têm superpoderes: eles podem receber doações ilimitadas. O Super PAC Priorities USA Action, que apoia a candidatura do presidente Barack Obama, por exemplo, recebeu uma doação individual de 1 milhão de dólares do comediante Bill Maher. Já o Restore Our Future, que apoia Mitt Romney, recebeu sete doações individuais no mesmo valor, de diferentes empresários e investidores, além de uma generosa contribuição de 3 milhões de dólares de Bob Perry, megaempreendedor do ramo da construção.

Só há uma restrição à atuação dos Super PACs: a verba não pode ser repassada ao candidato, ela deve ser gasta pelo próprio comitê, que não pode ter vínculo com os organizadores oficiais da campanha.

Na teoria, é assim que funciona. Mas na prática, os americanos dão seu “jeitinho” para burlar o sistema. O Restore Our Future, por exemplo, é comandado por três ex-coordenadores do comitê oficial da pré-candidatura de Mitt Romney em 2008. 

O que muda com os Super PACs

Juntos, os 421 Super PACs que estão atuando na corrida presidencial já arrecadaram mais de 159 milhões de dólares. O valor corresponde a quase metade dos 361 milhões arrecadados diretamente pelos candidatos.


Mas, até o momento, o peso dos Super PACs na campanha de cada candidato é diferente. Obama arrecadou 157 milhões de dólares diretamente – sendo 45% de doações “pequenas”, inferiores a 200 dólares, força que ajudou a elegê-lo na eleição passada. Os três Super PACs que o apoiam arrecadaram 6,5 milhões de dólares – o equivalente a apenas 4% do total arrecadado diretamente.

Já Mitt Romney, favorito para disputar as eleições em outubro pelo partido Republicano, arrecadou 44 milhões de dólares por meio dos Super PACs, o equivalente a mais da metade dos 74 milhões de dólares que arrecadou diretamente.

Um dos motivos para esta discrepância é que os republicanos estão em disputa entre si para definir quem vai representar o partido nas eleições – logo, é natural que eles coloquem um esforço maior nesta etapa do processo do que Obama, que ainda aguarda a definição do seu rival.

Mas há outra possível explicação para a diferença: Mitt Romney é visto como o candidato favorito dos super ricos. Enquanto Obama defende o aumento de impostos para os milionários, Romney, que é egresso do mundo dos negócios e já foi CEO da Bain & Company, estaria mais alinhado com os interesses de investidores e empresários, que estão entre os principais doadores dos seus Super PACs.

A principal crítica ao modelo dos Super PACs deriva justamente desta constatação: sem limites para o tamanho das doações, um pequeno grupo de indivíduos muito poderosos pode ter um papel decisivo nas campanhas. “Super PACs são um jogo para milionários e bilionários”, afirmou à CNN Fred Wertheimer, presidente da Democracy 21, uma organização que defende a reforma no financiamento das campanhas. 

Para Wertheimer, os Super PACs permitem que os super ricos tenham grande poder no resultado das eleições, comprando influência nas decisões do governo, caso o candidato vença.

O real impacto dos Super PACs no resultado das eleições só poderá ser medido nas urnas, mas Obama, que era um crítico do modelo antes da sua aprovação, já mudou de opinião. Durante um evento em fevereiro, o presidente fez um apelo a seus eleitores “prósperos” para que reforcem os fundos do Super PAC Priorities USA Action. Jim Messina, coordenador da campanha de Obama, justificou o apelo em um comunicado aos eleitores, dizendo que o trabalho feito nas comunidades não pode ser posto em risco pelos gastos ilimitados dos republicanos com campanhas negativas. 

O recado é claro: se os superpoderes dos Super PACs ainda não podem ser efetivamente medidos, eles definitivamente não devem ser subestimados.

Veja na tabela, os principais Super Pacs de Obama e Romney:

Super PAC (candidato)      valor gasto/arrecadado (dólares)   
Restore Our Future (Romney)       40,5 milhões / 43,2 milhões
Priorities USA Action (Obama)   1 milhão / 6,5 milhões 
Citizens for a Working America (Romney)  455.000 / 858,00
1911 United (Obama) 8.747 / 46.095                          

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