Repórter
Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 16h43.
Última atualização em 20 de fevereiro de 2026 às 16h45.
O governo da Argentina acelerou a tramitação da reforma trabalhista do presidente Javier Milei e obteve parecer favorável em comissão do Senado nesta sexta-feira, 20, em debate que durou pouco mais de uma hora.
Com isso, o projeto fica apto a ser votado em plenário na próxima semana, dentro do calendário que permite ao Executivo apresentar a proposta como resultado político no discurso sobre o estado da Nação, marcado para 1º de março.
O texto analisado pelas comissões acolheu a retirada do artigo 44, dispositivo que previa redução na remuneração de trabalhadores em licença médica. A exclusão foi a única mudança feita pela Câmara dos Deputados na madrugada desta sexta-feira, após a aprovação inicial do projeto pelo Senado na semana anterior.
Mesmo sem data oficial definida para a sessão final, integrantes do governo trabalham com a convocação do plenário para a próxima sexta-feira, 27 de fevereiro.O parecer conjunto das comissões de Trabalho e de Orçamento e Fazenda recebeu apoio da base governista e de bancadas da oposição, como UCR, PRO e forças provinciais. O interbloco Popular, que reúne setores do peronismo, registrou o único voto contrário e questionou a constitucionalidade da proposta, sob o argumento de que haveria supressão de direitos trabalhistas.
A condução do debate ficou a cargo da chefe da bancada libertária e presidente da Comissão de Trabalho, Patricia Bullrich (Capital). Ela abriu a reunião informando que o parecer confirmaria o texto aprovado pela Câmara dos Deputados e reservou a resposta às críticas da oposição para o encerramento da sessão.
"O parecer que vamos propor às comissões é para aceitar o projeto que vem da Câmara dos Deputados com um artigo que já não está mais, que é o artigo 44 — informou Patricia Bullrich, após o que assegurou que a intenção é “tratá-lo (o projeto) na próxima sexta-feira".
Pelo kirchnerismo, Jorge Capitanich foi o primeiro a anunciar posição contrária. Em seguida, Mariano Recalde criticou a condução do processo e a rapidez imposta ao exame da matéria. A reunião conjunta das comissões ocorreu menos de duas horas após o envio do texto pela Câmara, que concluiu a votação pouco depois das 2h da madrugada.
"Nunca tínhamos visto um procedimento tão irregular; aprovou-se tudo a portas fechadas", queixou-se Mariano Recalde, que classificou o conteúdo da reforma trabalhista como “uma afronta aos trabalhadores cada vez mais escandalosa”.
Sobre o mérito do projeto, o senador afirmou que “não há um único artigo que melhore a vida das pessoas; pelo contrário, piora a vida das pessoas” e reiterou que “essa lei vai acabar na Justiça porque afeta direitos constitucionais”.
Florencia López também direcionou críticas a parlamentares favoráveis ao texto. "Passaram vergonha porque tiveram de admitir que não haviam lido o projeto; por isso hoje estamos aqui debatendo a eliminação do artigo 44", acusou. A senadora questionou ainda a convocação da reunião conjunta, ao afirmar que se tratava de “um ato jurídico inexistente, porque nos convocaram para tratar algo que ainda não havia saído da Câmara dos Deputados”.
O projeto autoriza o pagamento de salários em pesos ou dólares e introduz o modelo de “negociação dinâmica”, que permite acordos sobre valores adicionais vinculados a metas de produtividade.
A possibilidade de quitação por meio de carteiras digitais constava na versão original, mas foi retirada pelo Senado.
As indenizações por demissão passam a excluir décimo terceiro, férias e bônus do cálculo, limitando a base ao salário mensal e estabelecendo teto de até três vezes o salário médio da categoria. Foi aprovada também a criação de um fundo para financiar essas compensações, com 130 votos favoráveis, 117 contrários e três abstenções.
No caso das férias, o texto permite o fracionamento com período mínimo de sete dias, ante os 14 dias previstos anteriormente. A jornada poderá alcançar 12 horas, desde que respeitado intervalo de 12 horas antes do próximo turno.
O projeto formaliza o banco de horas, mecanismo que acumula horas extras para compensação futura, e admite contratos em tempo parcial abaixo da jornada legal. Empregador e empregado poderão pactuar a compensação por meio de banco de horas ou folgas.
Com a proposta, acordos coletivos perdem validade na data de vencimento. A legislação anterior mantinha os acordos em vigor até a assinatura de novo instrumento. O texto determina ainda a extinção da Justiça Nacional do Trabalho e a transferência das competências para a Justiça de Buenos Aires, além de tratar de regras sobre greve e negociação coletiva, com prioridade para acordos empresariais ou regionais.
Um dos itens mais debatidos é a criação do Fundo de Assistência ao Trabalho (FAL), voltado ao financiamento de indenizações com contribuições patronais. Críticos apontam impacto potencial sobre o sistema de pensões e mencionam que o fundo, estimado em pelo menos US$ 3 bilhões, poderia ser utilizado pelo Ministério da Economia para financiar despesas do Estado.
No segmento de aplicativos, o texto institui a figura do entregador independente e estabelece que o vínculo não configura relação de emprego, mas contrato de prestação de serviço.
A proposta também revoga quatro estatutos profissionais — representante comercial, cabeleireiro, motoristas particulares e operadores de rádio/telegrafia — seis meses após a sanção. O estatuto do jornalista profissional será revogado a partir de 1º de janeiro de 2027.