Poluição de países mais ricos gera milhões de mortes no mundo, diz estudo

O estudo publicado na revista Nature joga luz sobre o tema da justiça climática enquanto líderes mundiais se reúnem para a COP26, conferência do clima em Glasgow, na Escócia
Bangladesh: países em desenvolvimento estão entre os mais afetados pela poluição fora das fronteiras (Getty Images/Habibur Rahman / Eyepix Group/Barcroft Media)
Bangladesh: países em desenvolvimento estão entre os mais afetados pela poluição fora das fronteiras (Getty Images/Habibur Rahman / Eyepix Group/Barcroft Media)
Por Carolina RiveiraPublicado em 03/11/2021 13:13 | Última atualização em 05/11/2021 12:30Tempo de Leitura: 3 min de leitura

A economia dos países mais ricos, sobretudo a intensa queima de combustíveis fósseis, é responsável por causar milhões de mortes por poluição no mundo — a maioria em países pobres ou em desenvolvimento.

Os números são de novo estudo publicado na prestigiada revista científica Nature na terça-feira, 2. O artigo é assinado pelos pesquisadores Keisuke Nansai, Susumu Tohno, Satoru Chatani, Keiichiro Kanemoto, Shigemi Kagawa, Yasushi Kondo, Wataru Takayanagi e Manfred Lenzen, filiados a universidades no Japão e na Austrália.

Ao todo, cerca de 4 milhões de pessoas morrem de forma prematura devido à poluição todos os anos. E o estudo sugere que 2 milhões dessas mortes estão relacionadas a produtos vendidos e/ou consumidos nas maiores economias do mundo.

A estimativa é que o consumo ao longo da vida de cada 28 pessoas nos países mais ricos esteja relacionado a uma morte prematura por poluição, incluindo em mais de 78.000 crianças.

Os pesquisadores usaram como parâmetro quase todos os membros do chamado G20, grupo das 19 principais economias, incluindo o Brasil, e a União Europeia.

"Uma vez que a maioria dessas mortes é em países em desenvolvimento, sem esforços internacionais coordenados essa situação polarizadora vai continuar", escrevem os autores no estudo.

No geral, metade dos países do G20 causa mais mortes no exterior com sua pegada de poluentes do que dentro de casa, o que inclui países como Estados Unidos e Canadá.

Na outra ponta, países muito pobres, como Bangladesh e Filipinas, estão entre alguns dos mais afetados, segundo o estudo. Os autores apontam que os países mais ricos devem trabalhar em conjunto com as nações em desenvolvimento para garantir que vidas não sejam injustamente afetadas fora de suas fronteiras.

O estudo joga luz sobre o tema da justiça climática enquanto líderes mundiais se reúnem para a COP26, conferência do clima em Glasgow, na Escócia, que começou no último fim de semana.

Nesta quarta-feira, 3, EUA, União Europeia e Reino Unido anunciaram auxílio de 8,5 bilhões de dólares para a transição energética da África do Sul — segundo o estudo na Nature, o país, assim como outros locais na África, é um dos mais afetados pela poluição estrangeira.

Para além da poluição do ar, os países mais pobres estão também entre os mais afetados pelo aumento da temperatura global e a crise climática como um todo. A estrutura precária nestes países, muitas vezes, também está mais suscetível a desastres como terremotos e furacões.

Estudo do Instituto Internacional para o Meio-Ambiente e Desenvolvimento (IIED) afirma que 46 dos países menos desenvolvidos do mundo não têm condições de resistir aos desastres intensificados pelas mudanças climáticas sem investimentos bilionários em infraestrutura.

O financiamento aos países mais pobres é um dos pontos-chave dos debates na COP. Na abertura do evento, na segunda-feira, 1º, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, relembrou a promessa feita em conferência anterior, em Paris, de que os países mais ricos empregariam 100 bilhões de dólares em apoio às nações mais pobres.

“A implementação do financiamento de 100 bilhões de dólares por ano a países pobres e em desenvolvimento é crucial”, disse. No entanto, o risco é que a COP termine sem que acordos mais ambiciosos — para além das fronteiras de cada país — sejam anunciados.

A EXAME na COP26: acompanhe a cobertura da conferência mais importante do ano direto de Glasgow, na Escócia