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O medalhista de ouro da Ucrânia que é também deputado do país

Zhan Beleniuk, da luta greco-romana, levou o primeiro ouro da Ucrânia nas Olimpíadas de Tóquio. Além de atleta, o lutador está em seu primeiro mandato no Parlamento

O lutador Zhan Beleniuk, da luta greco-romana, fez história ao levar na quarta-feira, 4, o primeiro ouro das Olimpíadas de Tóquio para a Ucrânia.

Na Rio 2016, o ucraniano de 30 anos já havia ganhado uma prata, o que o tornou também o primeiro ucraniano da luta greco-romana a conquistar duas medalhas nos Jogos Olímpicos.

Mas para além do sucesso nas competições, Beleniuk chama atenção por outro motivo. Há dois anos, em julho de 2019, o lutador era escolhido pela população para se tornar o primeiro político negro eleito na história do Parlamento ucraniano.

Puxado pela popularidade garantida com a medalha no Rio, Beleniuk foi um dos dez parlamentares melhor votados da lista de seu partido, o Servant of the People (servo do povo, em tradução livre), o mesmo do atual governo ucraniano.

Em seus dois anos de mandato até agora (a próxima eleição é em 2023), Beleniuk se destacou sobretudo na defesa de políticas para o esporte, sendo também membro do Comitê para Juventude e Esportes no Parlamento.

Em 2019, o atleta disse que seu principal objetivo é "desenvolver os esportes na Ucrânia, o movimento esportivo, de modo que nossa nação possa ser saudável, atlética e mostrar bons resultados no cenário internacional".

As histórias de atletas que têm profissões ou formações fora do esporte ganharam destaque nas Olimpíadas: de casos como da judoca brasileira Gabriela Chibana, que é enfermeira, à australiana Jo Brigden-Jones, do caiaque, que atuou na linha de frente contra a covid-19 como paramédica.

Também não é incomum que atletas, sendo personalidades públicas e amplamente conhecidas, se tornem políticos. No Brasil, exerceram ou exercem mandatos nomes como o ex-senador Romário (PL), campeão mundial no futebol, a senadora Leila Barros (Cidadania), do vôlei, o deputado e ex-nadador Luiz Lima (PSL), entre outros.

Mas isso ocorre, no geral, após a aposentadoria, o que torna o caso do lutador ucraniano mais peculiar.

Embora lute desde os nove anos de idade, Beleniuk é também estudou administração de empresas pela Interregional Academy of Personnel Management, instituição na cidade de Kiev, capital da Ucrânia, onde cresceu.

Beleniuk na semifinal em Tóquio: o atleta diz que usará seu mandato para profissionalizar os esportes na Ucrânia

Beleniuk na semifinal em Tóquio: o atleta diz que usará seu mandato para profissionalizar os esportes na Ucrânia (JACK GUEZ/AFP/Getty Images)

Racismo na Ucrânia

Apesar da popularidade na Ucrânia, Beleniuk nem sempre foi bem visto.

O lutador é filho de mãe ucraniana e pai nascido em Ruanda. Após estudar aviação na Ucrânia, seu pai morreria atuando como piloto na Guerra Civil de Ruanda, nos anos 1990.

Com o episódio, Beleniuk foi criado em Kiev pela família materna, em um apartamento de um cômodo. (abaixo, foto do atleta com a mãe)

Em entrevistas anteriores, Beleniuk já falou sobre o racismo sofrido no país e as dificuldades em encontrar uma identidade por ser mestiço. Ao jornal Tribuna.com, disse se sentir "muito branco para a África, muito escuro para a Ucrânia". 

O lutador ucraniano disse já ter recebido propostas para se naturalizar e treinar nas seleções da China e do Azerbaijão, países com mais história na luta greco-romana, mas afirma jamais ter cogitado deixar de ser ucraniano.

"Eu me considero 100% ucraniano", frisou repetidas vezes. No pódio desta semana, o lutador apresentou uma dança típica do país, a hopak, como já tem feito em outras vitórias. "Mais cedo ou mais tarde, haverá mudanças positivas."

A Ucrânia, país que já fez parte do bloco comunista liderado pela antiga União Soviética (URSS), tem maioria da população branca, de diferentes etnias. Beleniuk nasceu em 1991, meses antes de a Ucrânia proclamar independência frente à URSS.

Os negros são menos de 10% da população de 45 milhões de pessoas do país, vivendo sobretudo em grandes cidades — que se tornaram mais heterogêneas do que na infância de Beleniuk nos anos 1990.

Ainda assim, segundo as organizações de direitos humanos, o sentimento racista ligado à xenofobia ainda é um dos mais presentes, de modo que é comum que cidadãos ucranianos negros sejam confundidos com estrangeiros.

Beleniuk no Parlamento ucraniano, em 2019: primeiro negro eleito como parlamentar

Beleniuk no Parlamento ucraniano, em 2019: primeiro negro eleito como parlamentar (Maxym Marusenko/NurPhoto/Getty Images)

Esse cenário foi um dos responsáveis por fazer com que Beleniuk fosse o primeiro parlamentar negro, somente em 2019.

O mandato do lutador também não acontece em momento dos mais tranquilos para a política ucraniana. O país se envolveu desde 2014 em um conflito com a Rússia, depois de o governo russo de Vladimir Putin anexar o território da Crimeia, que ficava na Ucrânia. A fronteira do país com a Crimeia é palco de conflitos armados e milícias desde então.

Antes disso, a Ucrânia vinha também se aproximando da União Europeia, o que desagrada Moscou.

Como retrato da bagunça política da Ucrânia, a eleição de 2019, a mesma que elegeu Beleniuk, levou à Presidência o "azarão" Volodymyr Zelensky.

O presidente era comediante e atuou numa série onde zombava da política — programa que, tal como o partido que ele viria a criar, também se chamava Servant of the People.

Zelensky venceu o então mandatário ucraniano, Petro Poroshenko, por mais de 70% dos votos no segundo turno. Uma de suas promessas de campanha é não concorrer à reeleição.

Beleniuk é do mesmo partido do presidente, e disse que recebeu o convite para se candidatar do próprio mandatário. "Ele parece ter visto qualidades em mim que ajudarão a promover o desenvolvimento do esporte ucraniano", disse à agência francesa AFP em 2019 (abaixo, foto de Beleniuk com o presidente ucraniano). 

Após a eleição, o lutador afirmou que seu foco seguiria nas Olimpíadas de Tóquio apesar da atuação no Parlamento, mas que, após os Jogos Olímpicos, estaria "100% dedicado à política ucraniana". Ele já afirmou também que Tóquio tende a ser sua última Olimpíada.

"Quando minha avó se mudou para Kiev, ela tinha medo de pegar o trem com uma pessoa negra, mas o mundo está mudando. Espero servir como um bom exemplo", disse em 2016, após a medalha no Rio. A ver quais projetos o atleta e parlamentar liderará na volta para casa.

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