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Nova presidente do Peru: primeiras horas de Dina Boluarte no cargo serão decisivas

Vice-presidente até quarta-feira, Boluarte terá de formar gabinete ministerial e garantir que não será a próxima a deixar o cargo antes de julho de 2026

 (AFP/Reprodução)

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AFP

8 de dezembro de 2022, 08h23

A incerteza domina o Peru nesta quinta-feira (8), no primeiro dia da presidência de Dina Boluarte, que pediu uma trégua à oposição para tentar superar a crise institucional após a fulminante destituição e detenção de Pedro Castillo por uma tentativa frustrada de golpe de Estado.

A advogada de 60 anos, vice-presidente até quarta-feira, terá que formar nas próximas horas seu primeiro gabinete ministerial, o que permitirá sentir o pulso da orientação de seu governo e vislumbrar suas possibilidades de sobreviver à tempestade política no Parlamento.

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Após uma sucessão de anúncios que abalaram as instituições do Peru em poucas horas, Boluarte tomou posse como a primeira mulher presidenta do país e deixou claro que aspira cumprir o restante do mandato, até julho de 2026.

Suas decisões iniciais serão cruciais para saber se conseguirá concretizar o objetivo ou se ela será obrigada a recuar e convocar eleições gerais antecipadas.

No primeiro discurso como chefe de Estado, Dina Boluarte pediu a "unidade nacional" e fez um apelo para que os partidos deixem de lado as ideologias, uma referência tácita ao confronto que marcou a relação entre o governo do esquerdista Pedro Castillo e o Congresso, dominado pela direita.

Depois fez um aceno à Organização dos Estados Americanos (OEA): "Faço um pedido muito concreto à representação nacional, solicito uma trégua política para instalar um governo de unidade nacional".

Em 1º de dezembro, uma missão da OEA que monitora a crise política peruana solicitou uma trégua de 100 dias entre o Executivo e o Legislativo, o que não aconteceu.

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Crise em tempo real

O Peru viveu na quarta-feira horas de suspense que terminaram com Castillo detido à noite em uma base da polícia no leste de Lima, acusado em flagrante pelo crime de rebelião.

Horas antes de o Congresso debater sua terceira tentativa de remover Castillo do poder em 16 meses, ele anunciou que era alvo de "um ataque sem quartel" por parte do Parlamento, anunciou a dissolução do Congresso e um toque de recolher. O agora ex-presidente pretendia governar por decreto.

O ex-presidente Pedro Castillo (centro) deixa a prefeitura de Lima, onde estava detido, em uma viatura da polícia 7 de dezembro de 2022 (AFP/Reprodução)

As Forças Armadas e a polícia, no entanto, não o apoiaram. O Congresso ignorou seu anúncio e seguiu com o processo de destituição.

Desde que assumiu a presidência em julho de 2021, Castillo viveu sob a pressão do Congresso e do Ministério Público, que o acusa de comandar uma suposta "organização criminosa" que distribui contratos públicos em troca de dinheiro

A destituição do esquerdista, que tinha um índice de rejeição de 70% nas pesquisas mais recentes, foi aprovada por 101 votos de um total de 130 congressistas.

Após a destituição, o porta-voz do Departamento de Estado americano, Ned Price, chamou Castillo de "ex-presidente" e considerou que os congressistas peruanos tomaram "medidas corretivas" de acordo com as regras democráticas.

Países de toda a região defenderam o respeito ao Estado de Direito e à democracia no Peru.

Uma presidência frágil

Sem bancada própria no Congresso, Boluarte enfrenta uma situação de fragilidade muito similar à vivida entre 2018 e 2020 pelo então presidente Martín Vizcarra, que acabou perdendo o cargo.

"Não tem bancada no Congresso, está sozinha", advertiu o ex-presidente Ollanta Humala na quarta-feira em entrevista ao Canal N.

"Ela não tem as ferramentas para governar, deve convocar eleições antecipadas, pode ser renunciando para que o presidente do Congresso assuma e antecipe as eleições", acrescentou Humala, que governou o país de 2011 a 2016.

O ex-presidente expressou ceticismo sobre o futuro do governo de Boluarte.

"O que acontece hoje é uma trégua que vai durar um mês ou talvez mais, mas depois aparecerão os grandes problemas do país", disse.

"Esperamos que a presidente nomeie um gabinete com uma base ampla, um gabinete muito bom. Todos devemos fazer o possível para que as coisas funcionem bem", tuitou a líder de direita Keiko Fujimori.

A filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000) afirmou que seu partido, Força Popular, a principal minoria do Congresso, apoiará a nova presidente.

Dina Boluarte pode ter a seu favor o enorme descrédito do Congresso, marcado por escândalos de corrupção. O Parlamento tem índice de rejeição de 86% nas pesquisas recentes.

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