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Negociações entre Irã e EUA avançam após semanas de guerra no Oriente Médio

Diálogo em Islamabad reúne também o Paquistão e ocorre em meio a divergências sobre sanções, Líbano e energia

As tratativas diretas entre os representantes dos dois países tiveram início às 16h55 no horário local (8h55 em Brasília) (ATTA KENARE / AFP/Getty Images)

As tratativas diretas entre os representantes dos dois países tiveram início às 16h55 no horário local (8h55 em Brasília) (ATTA KENARE / AFP/Getty Images)

Publicado em 11 de abril de 2026 às 15h38.

Irã e Estados Unidos finalizaram neste sábado, 11, em Islamabad, a etapa inicial de suas negociações diretas, com indicação de “otimismo” e início da troca das primeiras atas de entendimento, conforme relataram fontes diplomáticas à Agência EFE.

O encontro ocorre em meio às negociações trilaterais com o Paquistão, voltadas a encerrar uma guerra regional iniciada em fevereiro e tem impactado a economia global.

De acordo com um diplomata iraniano ouvido sob condição de anonimato, “a primeira fase das negociações foi concluída e agora as delegações estão trocando as atas”, acrescentando que ambos os lados demonstram confiança quanto aos resultados das discussões.

Segundo um funcionário de alto escalão da Casa Branca, os três países participaram de conversas diretas, o que representa uma mudança em relação ao formato anterior, quando Washington e Teerã negociavam de forma indireta, em salas separadas e com mediação.

A emissora estatal iraniana IRIB informou que há possibilidade de uma nova rodada de conversas ainda na noite deste sábado ou ao longo do domingo, 12, citando uma fonte próxima à delegação de Teerã.

Diálogo entre Irã, EUA e Paquistão

Segundo uma fonte diplomática paquistanesa, as tratativas diretas entre os representantes dos dois países tiveram início às 16h55 no horário local (8h55 em Brasília) e se estenderam até pouco antes das 19h (11h), quando foram interrompidas para uma pausa destinada à oração.

Após esse intervalo, o diálogo foi retomado e continua em andamento, sendo interrompido apenas por um jantar de trabalho entre as equipes envolvidas.

Mais cedo, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, reuniu-se ao meio-dia com o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, que lidera a delegação americana ao lado do enviado especial para missões de paz, Steve Witkoff, e do assessor Jared Kushner, genro de Donald Trump. O funcionário americano não detalhou quais representantes iranianos ou paquistaneses participam diretamente das negociações.

Sharif também se encontrou no Hotel Serena com a delegação iraniana, liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e que inclui o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi. O primeiro-ministro paquistanês afirmou esperar que o diálogo contribua para uma “paz duradoura na região”.

A comitiva dos Estados Unidos também inclui o assessor de segurança nacional da vice-presidência, Andrew Baker, e o assessor especial para assuntos asiáticos, Michael Vance, além de uma “equipe completa de especialistas americanos” enviada à capital paquistanesa.

Negociações pelo fim da Guerra do Irã

O encontro representa o primeiro contato direto e presencial entre Washington e Teerã desde a assinatura do acordo nuclear de 2015, sendo também a reunião de mais alto nível entre os dois países desde a revolução islâmica de 1979.

Segundo as agências iranianas Fars e Tasnim, as negociações foram iniciadas após avanços em discussões preliminares e uma redução nos ataques israelenses no sul de Beirute, no Líbano. As mesmas fontes apontaram como progresso a concordância dos Estados Unidos em liberar bens iranianos e a necessidade de aprofundar discussões técnicas, embora um funcionário americano tenha negado posteriormente qualquer acordo nesse sentido.

A guerra, iniciada em 28 de fevereiro após um ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, deixou milhares de mortos, principalmente no Irã e no Líbano.

Apesar de um cessar-fogo anunciado na terça-feira, 7, persistem divergências entre as partes sobre temas como sanções, a situação no Líbano e a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passava cerca de um quinto do petróleo e gás mundial antes de ser bloqueado quase totalmente pelo Irã.

Entre os pontos de tensão, Teerã e Washington divergem sobre a inclusão do Líbano em um eventual acordo de paz. Israel defende a continuidade das operações contra o Hezbollah e realizou, na quarta-feira, 8, os ataques mais letais do conflito no país, com pelo menos 357 mortos em um único dia, segundo o Ministério da Saúde libanês. Neste sábado, novos ataques israelenses no sul do Líbano deixaram dez mortos.

O Exército de Israel afirmou ter atingido mais de 200 alvos do Hezbollah nas últimas 24 horas. Paralelamente, Israel e o governo libanês têm uma reunião prevista para terça-feira em Washington, iniciativa que enfrenta resistência do Hezbollah e não interrompeu os combates.

Desconfiança em meio ao cessar-fogo

Declarações de autoridades também evidenciam desconfiança. “Temos boas intenções, mas não confiamos neles”, disse Ghalibaf, segundo a televisão iraniana, ao chegar a Islamabad. Ele afirmou ainda que a experiência anterior com os Estados Unidos foi marcada por “fracassos e promessas quebradas”.

O ministro das Relações Exteriores iraniano declarou, em conversa telefônica com seu homólogo alemão, que o país participa das negociações com “total desconfiança”, segundo a Tasnim. Do lado americano, J.D. Vance afirmou que os Estados Unidos estão dispostos a negociar “de boa-fé”, mas alertou que não reagirão de forma positiva a eventuais tentativas de engano.

Para apoiar o processo, o Paquistão montou uma equipe de especialistas para tratar de temas como tráfego marítimo e energia nuclear, segundo fonte diplomática. Ainda assim, Sharif avalia que as negociações ocorrem em um cenário de “tudo ou nada”, o que dificulta a consolidação de uma trégua duradoura.

No Irã, onde há restrições à internet, parte da população demonstra ceticismo em relação às negociações. Um morador de 30 anos, que pediu anonimato, afirmou à AFP que não leva a sério as declarações de Donald Trump, acusando o ex-presidente de adotar posições contraditórias.

Trump declarou na última semana que o Irã não teria “nenhuma vantagem” nas negociações, exceto o controle do Estreito de Ormuz, acrescentando que a via marítima “se abrirá automaticamente” porque o país depende dela para gerar receitas, em meio à expectativa dos mercados.

Segundo a agência Tasnim, especialistas de ambas as nações, com apoio de equipes de monitoramento de Washington, analisam agora os detalhes finais das negociações, o que pode estender o processo além do prazo inicialmente previsto de um único dia.

*Com informações da EFE e AFP.

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