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Narcotráfico, extorsão e talco: como se financia o Talibã

Estimativas apontam que o grupo extremista islâmico movimenta de US$ 400 milhões a US$ 1,6 bilhão

Após a tomada de Cabul, o grupo extremista islâmico do Talibã controla quase todo o Afeganistão. Um território grande quanto o estado do Pará, com cerca de 40 milhões de habitantes e uma economia entre as mais pobres do mundo.

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O mundo ficou surpreso com a rapidez do Talibã em conquistar o poder, penetrando no território controlado pelo então governo afegão tão rapidamente quanto uma faca quente na manteiga.

Mas como que esse movimento extremista, composto em grande parte por “estudantes islâmicos” se financia? Quem fornece a verba para que o Talibã possa adquirir armas e munições? Ninguém sabe exatamente quanto é a “receita bruta” do Talibã. Existem estimativas que variam de US$ 400 milhões (cerca de R$ 2,4 bilhões) e US$ 1,6 bilhão (cerca de R$ 10 bilhões), mas elas tem muitas cores.

Vermelha, como as papoulas de ópio com as quais inundam o mundo de heroína. Verde, como as infinitas ​​plantações de cânhamo nas regiões de Helmand e Kandahar. Cinza, como minérios extraídos das minas ilegais.

Mas também de um branco deslumbrante, o do talco extraído nas minas do Khorasan, exportado ilegalmente para o Paquistão e vendido para países que há 20 anos lutam contra esses mesmos extremistas que a produzem.

Os Talibãs devem ter aprendido com o passado, e com outras experiências de integralistas islâmicos que tomaram o controle de uma região, como o Estado Islâmico (ISIS), liderado por Abu Bakr al-Baghdadi. Naquele caso, o Estado Islâmico tinha apenas uma fonte de renda: o petróleo do Iraque e da Síria, vendido de contrabando nos países vizinhos.

Quando o ISIS perdeu o controle das principais jazidas de petróleo, seu poder acabou rapidamente. Até ser varrido do mapa do Oriente Médio. O Talibã aprendeu essa lição e decidiu diversificar suas receitas.

A mais famosa de todas, com certeza, é o narcotráfico, Nas regiões do sul do Afeganistão, o cultivo do ópio emprega dezenas de milhares de produtores. É um negócio complexo, no qual operam senhores da guerra, intermediários sóbrios e políticos corruptos. E, claro, o Talibã.

Há alguns anos, os extremistas não se limitam apenas a tributar o comércio e as safras, mas passaram a controlar toda a cadeia de abastecimento, desde as plantações até o produto acabado, ganhando centenas de milhões de dólares.

Os esforços dos EUA para reduzir essa fonte de renda foram em vão. Apesar dos US$ 8 bilhões gastos de 2002 a 2017 para levar adiante programas de erradicação de plantações de papoula e bombardeios aéreos contra os laboratórios de refino, a colheita sempre foi alta, crescendo 36% em 2020.

Mas o Talibã também está diversificando o tráfico de drogas, para não depender exclusivamente do ópio. Por exemplo através da planta ephedra, que cresce naturalmente nas montanhas centrais do Afeganistão, cada vez mais usada para produzir metanfetaminas. Outro negócio em rápido crescimento.

Todavia, a produção de ópio não é a única fonte de renda do Talibã. Não existem números definitivos sobre quanto essa organização ganha, mas estimativas indicam que a produção de opiáceos não representaria nem a metade do total.

Extorsão vira 'imposto'

O grosso das receitas do grupo extremista sempre foi, e continua sendo a extorsão. Atividade ilegal que o Talibã gosta de chamar de “impostos”. Cobranças sobre todos os tipos de bens, atividades e serviços nos territórios controlados pelos integralistas.

Eles dizem cobrar o “Ushur”, o imposto islâmico igual a 10% do valor das mercadorias ou colheita. Ao qual acrescentam o “Zakat”, o imposto religioso teoricamente destinado aos pobres (2,5% do patrimônio).

Mas acabam cobrando muito mais do que esses valores, impondo uma carga tributária muito pesada sobre serviços como telefonia, água ou eletricidade, mesmo sem controlar as redes de abastecimento.

Há pouco tempo o Talibã controlava 15% do território do país, hoje eles controlam quase 100%. Com isso suas receitas deverão aumentar drasticamente, lhe permitindo comprar ainda mais armas, se estruturar mais e ganhar força. Sem contar que hoje o grupo radical é muito mais organizado do que há 20 anos.

Outra fonte que garante rios de financiamentos para o Talibã são os recursos minerais presentes no Afeganistão. Minério de ferro, cobre, talco ou o cobiçado lítio. A maioria dos quais ainda não explorados. O valor dessas reservas é de cerca US$ 3 trilhões.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), esses minerais extraídos ilegalmente representam um negócio de US$ 464 milhões. Muito mais do que as receitas obtidas com ópio e heroína.

Entre todos esses minerais, o talco se mostrou particularmente rentável. Mais conhecido como um produto de beleza, o talco é utilizado na fabricação de papel, cerâmica e tintas no mundo todo.  

Não por acaso o Talibã e o ISIS chegaram a se enfrentar militarmente na província de Nangarhar, na fronteira com o Paquistão, para tentar controlar essas minas. Um confronto entre grupos extremistas islâmicos, propagandeado como ideológico, mas que, na verdade, era meramente econômico.

Mesmo se o governo afegão tivesse proibido a exportação de talco, o contrabando ilegal para o Paquistão - cujos serviços secretos há muito apoiam o Talibã – sempre ocorreu. No Paquistão, o talco afegão é misturado à produção local e revendido nos mercados internacionais, obtendo um lucro enorme.

Islamismo extremista

Uma contribuição importante também vem de doações de organizações de caridade da Arábia Saudita, do Paquistão e de outros países do Golfo. Dinheiro oriundo de ONGs que financiam o islamismo extremista, algumas das quais são consideradas pelos EUA e pela União Europeia como organizações terroristas.

De acordo com o Centro de Pesquisa e Estudos Políticos do Afeganistão, as doações ao Talibã chegam a US$ 150-200 milhões por ano. Além dos canais principais, também há resgates obtidos após sequestros, venda de antiguidades arqueológicas e outras atividades ilegais.

O Talibã precisará de muito dinheiro para garantir o funcionamento do Afeganistão. Um país muito diferente do que eles controlavam há 20 anos. Com uma estrutura estatal que, embora problemática e permeada pela corrupção, graças à sua presença internacional desenvolveu uma administração própria, que fornece serviços aos seus cidadãos.

Segundo o Banco Mundial, para fazer funcionar essa burocracia toda - ainda que mal - em 2018 o governo gastou US$ 11 bilhões, 80% dos quais vieram de ajuda.

É por isso que, se querem garantir a sobrevivência do futuro "Emirado Islâmico do Afeganistão", os "novos" talibãs olham quase com ansiedade para a China. Especialmente aos potenciais contratos de mineração de bilhões de dólares que Pequim está pronta a assinar.

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