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‘Não tive contato com Lula, mas gostaria de ter’, diz líder opositora venezuelana

Maria Corina Machado, pré-candidata mais votada nas primárias da oposição em 2023, pede que a comunidade internacional exija eleições democráticas a Maduro

Maria Corina, como é chamada por seus compatriotas pediu a ajuda da comunidade internacional entre eles o do presidente Lula (Gaby Oraa/Getty Images)

Maria Corina, como é chamada por seus compatriotas pediu a ajuda da comunidade internacional entre eles o do presidente Lula (Gaby Oraa/Getty Images)

Agência o Globo
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Agência de notícias

Publicado em 29 de janeiro de 2024 às 09h29.

Última atualização em 29 de janeiro de 2024 às 09h31.

Na última sexta-feira, o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela (TSJ) confirmou a inabilitação para disputar eleições da líder opositora venezuelana Maria Corina Machado por 15 anos, uma decisão que a candidata mais votada nas primárias da oposição em 2023, com 92% dos votos, já esperava. Além da mulher que comanda o partido opositor Vente, também foi inabilitados pelo STJ o ex-candidato presidencial Henrique Capriles, entre outros.

A medida viola o chamado acordo de Barbados, selado em novembro do ano passado por representantes do governo de Maduro, da oposição e a Casa Branca, sob à observação de outros países, entre eles o Brasil. Numa longa entrevista ao GLOBO, Maria Corina, como é chamada por seus compatriotas, pediu a ajuda da comunidade internacional e dos governos da região que têm dialogo fluido com o Palácio de Miraflores, entre eles o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A líder opositora admitiu não ter conseguido fazer um contato com Lula, mas disse que gostaria de conversar com o presidente brasileiro. “A pergunta é: o que vai fazer a comunidade internacional? Gostaria de saber isso, depois de todos os compromissos, das declarações públicas, das reuniões, o que vão fazer?”, afirmou a líder opositora, que há sete anos está proibida de sair do país. Nos últimos dez dias, quatro de seus colaboradores foram presos e levados para centros de detenção do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin), sem a possibilidade de ter acesso a seus advogados.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

O Tribunal Supremo de Justiça determinou sua inabilitação para participar de eleições. Quais serão seus próximos passos?

O governo de Nicolás Maduro está descontrolado. Este era um cenário previsível, e não muda nada, continuamos organizando os venezuelanos porque nada vai nos tirar da rota eleitoral. A decisão do TSJ foi política e grotesca. Agora, tudo dependerá das articulações dos próximos meses, e nisso vou me concentrar. Maduro pretende escolher o pior caminho, a fraude eleitoral, mas não vamos permitir.

Qual será seu plano de luta?

A pergunta é: o que vai fazer a comunidade internacional? Gostaria de saber isso, depois de todos os compromissos, das declarações públicas, das reuniões, o que vão fazer? A realidade é que o que está em jogo na Venezuela é enorme. Não se trata apenas de nosso país, em situação trágica. Aqui um professor ganha US$ 21 por mês, o salário mínimo é de US$ 3. A imigração de venezuelanos vai continuar crescendo, porque as pessoas saem do país quando sentem que seus filhos estão condenados a viver uma tragédia. A única maneira de conter a imigração é que os venezuelanos tenham futuro em seu país. Hoje o futuro somos nós, e assim pensam inclusive pessoas da base chavista, e isso é o que irrita Maduro.

A senhora mantém contatos com a comunidade internacional?

Acho que cada vez contamos com o apoio de mais países, e essa é minha maior responsabilidade. Uma transição ordenada convém aos venezuelanos, mas também a toda à região. Maduro não tem hoje a coesão de todos os grupos políticos e sociais para impor uma posição totalitária, isso teria um altíssimo custo para ele. Isso implicaria a saída de milhões de venezuelanos em poucos meses do país, imagine a pressão para os EUA, Colômbia e também para o Brasil. Maduro vai terminar entendendo que sua melhor opção é negociar uma transição ordenada, com garantias de que não viria um processo de retaliação e vingança.

Uma eventual anistia?

Não é o momento de falar sobre esse assunto.

Com que países a senhora está conversando?

Falo com muitos países e todos sabem o que está acontecendo na Venezuela em matéria de direitos humanos, corrupção e crimes de lesa-Humanidade. Precisamos que os governos e a oposição, juntos, assumam que uma solução para a Venezuela. Nós somos liberais, mas essa questão vai muito além de posições políticas, tem a ver com paz, justiça e democracia. Os governos que têm canais de comunicação com Maduro têm um papel importante. Existe uma oportunidade real.

A senhora buscou contatos com o governo Lula?

Não tive contato com Lula, mas gostaria de ter.

A eleição presidencial está em risco?

Setores radicais e violentos estão pressionando para evitar qualquer loucura que justifique a não realização das eleições. Loucuras como invadir a Guiana. Mas há setores dentro do chavismo que são racionais e entendem que uma eleição livre é o que lhes convém, porque poderiam pensar numa concorrências eleitoral no futuro. Essas pessoas pensam na experiência de Lula e do PT. Nós não sairemos da rota eleitoral, e espero que a comunidade internacional eleve sua voz porque não podemos enfrentar isso sozinhos.

Como está a situação política neste momento dentro do país?

O governo sabe que o foco global não está na Venezuela e aproveita para cometer crimes. Se analisarmos o acordo de Barbados, o governo de Maduro recebeu tudo o que pediu por parte dos Estados Unidos, mas está violando seus compromissos. É importante, nesse contexto, pressionar o Brasil, e pressionar o presidente Lula, porque ele disse que acredita num processo de transição e na realização de eleições limpas e livres, num ambiente de respeito aos direitos humanos.

Aumentou a repressão?

Temos de lembrar que o ano de 2023 foi espetacular para a cidadania venezuelana. Fizemos primárias superando todos os obstáculos impostos pelo regime, que não autorizou através do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) a realização do pleito, interveio conexões de internet, ameaçou servidores, foi brutal. Tivemos uma participação de quase 3 milhões de eleitores, que foi extraordinário mostrou ao mundo que este país está de pé, e disposto a lutar para recuperar a democracia e a liberdade através da rota eleitoral. Dessa primária surgiu uma liderança legitimada, porque tive mais de 90% de apoio. Todos os partidos políticos e organizações civis me apoiaram e se uniram a nossos comandos. O país está unido e exigindo que seja fixada uma data para a eleição presidencial. Em 23 de janeiro passado, quando os venezuelanos celebramos o fim da ditadura Pérez Jiménez, organizamos encontros cívicos. Esse dia, nossas 14 sedes amanheceram vandalizadas. Na segunda 22 de janeiro, celebrei uma missa porque completou-se um ano da morte do meu pai. No dia 23, a capela onde fiz missa foi atacada. É delirante o que estão fazendo. Quatro dias antes, Maduro lançou o plano Fúria Bolivariana. Esta é uma ordem de Maduro. Nesse mesmo dia 23 desapareceram chefes de nossos comandos em estados venezuelanos. Sofremos ameaças permanentemente.

Como foram esses desaparecimentos?

Em alguns casos temos vídeos dos momentos em que nossos colaboradores foram detidos pelo Serviço de Inteligência Bolivariano (Sebin). Durante três dias, alguns deles estiveram desaparecidos. Na quinta, alguns foram apresentados nos tribunais, cercados por agentes do Sebin, e sem terem acesso a seus advogados. Foram acusados e obrigados a aceitarem advogados do regime. São três pessoas, e ainda não sabemos onde exatamente estão. Na semana anterior, no dia 15 de janeiro, foram realizados protestos pelo dia dos professores. No estado de Barinas prenderam o líder do sindicato local, que é membro de meu partido. No total, temos quatro detidos sem direito a uma defesa privada. Isso se chama terrorismo de Estado.

Qual é, na sua avaliação, o objetivo do plano Fúria Bolivariana?

As razões são evidentes, Maduro tem terror a eleições limpas e livres, nas quais eu vou derrotá-lo. Estão desesperados, construindo uma enxurrada de mentiras, para impedir que eu possa disputar uma eleição, como estabelece a Constituição venezuelana e o acordo de Barbados, que eles assinarem.

O governo disse que o acordo de Barbados está morto…

Eles estão violando o acordo, e querem criar a farsa de que os que estão violando o acordo são seus adversários. Já não sabem o que inventar. Inventaram o referendo sobre o Essequibo, e foi um fracasso total, apesar das ameaças do governo a servidores e pessoas que dependem do Estado. Este país quer uma mudança e quer essa mudança pela via eleitoral, esse é nosso direito. O acordo de Barbados diz que as partes têm o direito de escolher seus candidatos como quiser, e as partes garantem um ambiente pacífico e participativo. Também que os candidatos terão igual acesso aos meios de comunicação, iguais possibilidades de mobilidade, quando há dez anos não posso sair do país. Há sete anos não posso pegar um avião dentro da Venezuela, porque as companhias aéreas estão ameaçadas. Quando me mobilizo pelas estradas o regime bloqueia os acessos, amedronta minha equipe e nos ataca fisicamente. Por último, há dez anos não apareço na TV pública. Nos meios privados também me censuram. Agora Maduro quer se transformar numa vítima de conspirações, tentativas de magnicídio, como faziam Chávez e Fidel Castro. Eles são os que têm o controle das Forças Armadas, das armas, do dinheiro. Nós estamos organizando as pessoas, montante uma rede para a defesa do voto com 600 mil venezuelanos. Quem conspira é Maduro, porque tem medo. Nós estamos pedindo que cumpram sua palavra, por exemplo, quando disseram que haveria um mecanismo para minha habilitação.

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