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Mursi desafia Exército egípcio, que planeja futuro sem ele

A cúpula das Forças Armadas se prepara para afastar o político islâmico nas próximas 24 horas e suspender a Constituição

"O preço da preservação da legitimidade é a minha vida", disse Mursi em um inflamado e repetitivo discurso de 45 minutos. "A legitimidade é a única garantia para preservar o país" (REUTERS/Asmaa Waguih)

"O preço da preservação da legitimidade é a minha vida", disse Mursi em um inflamado e repetitivo discurso de 45 minutos. "A legitimidade é a única garantia para preservar o país" (REUTERS/Asmaa Waguih)

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Asma Alsharif, Yasmine Saleh

2 de julho de 2013, 21h40

Cairo - O presidente egípcio, Mohamed Mursi, prometeu na quarta-feira permanecer no cargo e defender a legitimidade constitucional, enquanto a cúpula das Forças Armadas se prepara para afastar o político islâmico nas próximas 24 horas e suspender a Constituição.

Em um desafiador pronunciamento televisivo por volta de meia-noite (hora local), Mursi respondeu a um ultimato dos generais alertando que qualquer desvio em relação à ordem democrática instituída numa série de eleições no ano passado levará o Egito para um caminho perigoso.

Enquanto ele falava, uma enorme multidão percorria as ruas o centro do Cairo e de várias outras cidades exigindo a renúncia de Mursi, na terceira noite consecutiva de grandes manifestações. Os partidários do presidente também apareceram, e alguns se envolveram em confrontos com as forças de segurança na Universidade do Cairo.

"O preço da preservação da legitimidade é a minha vida", disse Mursi em um inflamado e repetitivo discurso de 45 minutos. "A legitimidade é a única garantia para preservar o país".

Num alerta dirigido tanto aos seus partidários quanto ao Exército, ele disse: "Não declaramos a jihad (guerra santa) uns contra os outros. Só travamos a jihad contra os nossos inimigos".

Ele atribuiu a atual instabilidade a remanescentes do regime de Hosni Mubarak, derrubado em 2011, ao "Estado profundo" e aos corruptos. "Não se deixem enganar. Não caiam na armadilha. Não deixem que roubem nossa revolução", alertou.

Um porta-voz da oposição acusou Mursi de fazer "um apelo aberto pela guerra civil", e disse que os protestos pacíficos serão mantidos.

Ultimato militar

Na segunda-feira, o general Abdel Fattah al Sisi, comandante do Exército, deu prazo de 48 horas para que Mursi aceitasse partilhar poderes com a oposição, sob pena de uma intervenção militar na política.

Um porta-voz militar disse que as Forças Armadas não vão comentar as declarações do presidente até a tarde da quarta-feira. O ultimato de Sisi expira às 17h (12h em Brasília).


Condenando um golpe contra o primeiro líder eleito livremente na história egípcia, dezenas de milhares de seguidores do grupo Irmandade Muçulmana saíram às ruas, confrontando oponentes em várias cidades. Mas a presença da oposição, com centenas de milhares de manifestantes nas ruas, acabou abafando a multidão governista.

Forças de segurança disseram que dezenas de pessoas ficaram feridas em confrontos envolvendo partidários de Mursi na Universidade do Cairo. Testemunhas relataram ter escutado disparos e visto as autoridades usando gás lacrimogêneo.

Em meio a temores de uma guerra civil, os militares estão de prontidão. Sete pessoas morreram em um tumulto durante um protesto e em tiroteios esporádicos no Cairo, e outras centenas de pessoas ficaram feridas nas províncias.

"Mursi - fim de jogo - fora", proclamava um laser projetado num edifício na lotada praça Tahrir, onde egípcios dançavam alegremente, em cenas que lembravam a euforia e as palavras de ordem que acompanharam a derrubada de Mubarak, em janeiro de 2011. O espetáculo luminoso fazia uma contagem regressiva para o fim do prazo dado pelos militares.

Apesar do seu discurso combativo, o tempo parece ter praticamente se esgotado para Mursi, já que líderes liberais se recusam a negociar com ele. Vários ministros e assessores já abandonaram o barco.

Fontes militares disseram à Reuters que, supondo que os políticos sejam incapazes de superar até quarta-feira o impasse que já dura um ano, os generais têm um programa já redigido e pronto para ser implementado - mas que será aperfeiçoado em consultas com partidos que estejam dispostos a negociar.

Por esse plano, os militares instalariam um conselho provisório, composto principalmente por civis de diferentes partidos e por tecnocratas experientes, para governar o país até que emendas constitucionais sejam redigidas, dentro de alguns meses.

Haveria então uma nova eleição presidencial, mas as eleições parlamentares seriam adiadas até que estivessem em vigor condições rigorosas para a seleção dos candidatos, segundo essas fontes.

Elas não disseram como os militares pretendem lidar com Mursi se ele não aceitar deixar o cargo pacificamente. Alguns dos seus partidários islâmicos já prometeram defender o que dizem ser uma ordem democrática e legítima, mesmo que para isso precisem morrer como mártires. E alguns desses ativistas têm um histórico de luta armada contra o Estado.