Mendonça de Barros: e agora, Reino Unido?

Quais são os impactos políticos e econômicos da saída do Reino Unido da União Europeia? Para separar o ruído dos fatos, EXAME Hoje ouviu o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES e ex-ministro das Comunicações. Para ele, a União Europeia vai fazer de tudo para que, daqui a seis meses, os britânicos estejam arrependidos da decisão.

Como o Brexit impacta a economia internacional?
É fundamental separar os impactos que o mercado vai sofrer hoje e nas próximas semanas dos efeitos a longo prazo dessa decisão. Como essa é uma questão de interesse mundial, afinal a União Europeia é a terceira maior economia do mundo, o mundo inteiro fez suas apostas – para um lado e para o outro. Quando essa incerteza é atacada com uma decisão definitiva, começam os acertos entre quem ganhou e quem perdeu – e a volatilidade dos mercados vai ao extremo. À medida em que esse acerto é feito, as transações voltam a se estabilizar.

O mercado estava otimista demais em relação à permanência da União Europeia?
Acho que sim. O artigo de hoje do Martin Wolf, do Financial Times, está perfeito. Ele mesmo afirma que esse é o dia mais triste de sua carreira e atesta que o Reino Unido, agora, vai enfrentar um longo período de indefinições que, com uma esmagadora probabilidade, é o prenúncio de um futuro diminuído para o país. Agora, é hora de se preocupar com um problema que é do Reino Unido, mas que é também da Europa inteira: a insatisfação com a União Europeia. Toda a campanha a favor da permanência no bloco era uma tentativa de postergar essa discussão em relação ao futuro do bloco. Em algum momento, essa insatisfação teria que ser resolvida – e o mundo vai ter que lidar com isso agora.

Quais os próximos passos que a União Europeia deve adotar a partir de agora?
Hoje, já está acontecendo uma mobilização importante. Os dirigentes da União Europeia estão sendo bem categóricos em afirmar que há um artigo na Constituição do bloco que prevê a saída de países e que, nesses casos, é crucial resolver essa questão o mais rápido possível. Eles já estão pressionando o Reino Unido para agendar uma reunião que defina como se dará essa saída. O problema é que os britânicos não têm um novo dirigente ainda. E os conservadores que defenderam o Brexit, como Boris Johnson ou Michael Grove, fizeram uma campanha baseada em demagogia e, agora, não fazem a mais pálida ideia do que deve ser feito a partir de agora. Então, eles devem tentar evitar Bruxelas o máximo que puderem. Há um conflito agora entre a União Europeia e os futuros dirigentes do Reino Unido, e isso vai dificultar muito os novos caminhos para os britânicos.

O que os britânicos podem esperar a partir de agora?
A União Europeia vai apertar o cerco e deve ser extremamente rigorosa nas negociações, para tentar mostrar para o resto dos países do bloco que a decisão do Reino Unido vai ter graves consequências. A libra deve desvalorizar, a inflação deve subir e, com isso, eles vão precisar subir a taxa de juros. Os britânicos têm uma balança de pagamento muito frágil e, com uma mudança dessas no Banco Central, um crescimento que vinha razoável capota. A União Europeia vai fazer de tudo para que isso aconteça – e fazer com que, daqui a seis meses, o Reino Unido esteja arrependido da decisão que tomou. E a Escócia, que votou massivamente pela permanência, deve retomar em breve as discussões pela independência, o que vai ter um custo ainda pior para os britânicos.

Para o Brasil, há algum risco?
Muito pequeno – a não ser que se delineie um cenário catastrófico na Europa. Não temos grandes acordos comerciais com a União Europeia, então estamos um tanto isolados nessa questão. O dólar está abrindo com 1,6% de alta, nada demais, vamos acompanhar ao longo do dia. Nossa dinâmica aqui é interna. Temos muitas coisas para resolver na nossa política ainda.

(Camila Almeida)

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