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Marcha das baratas: o protesto que juntou milhares de indianos pela educação

Raiva sobre o sistema de educação indiano levou milhares às ruas sob a flâmula do partido fictício "Cockroach Janta", ou Barata do Povo, que teve sua origem na web

Manifestação do Partido das Baratas, na Índia, pela reforma do sistema educacional (Niharika Kulkarni/AFP)

Manifestação do Partido das Baratas, na Índia, pela reforma do sistema educacional (Niharika Kulkarni/AFP)

Publicado em 21 de julho de 2026 às 06h01.

O Partido Barata do Povo (Cockroach Janta Party, CJP), criado inicialmente como uma sátira política, transformou-se em um dos movimentos de oposição mais inesperados ao governo do primeiro-ministro Narendra Modi na Índia.

Impulsionado pela insatisfação de milhões de jovens com o sistema educacional e o mercado de trabalho, o grupo ganhou projeção nacional em poucas semanas e passou a liderar grandes manifestações no país, segundo o jornal britânico The Guardian.

O movimento foi fundado em maio desse ano por Abhijeet Dipke, um indiano de 30 anos recém-formado em uma universidade dos Estados Unidos. A iniciativa surgiu após o presidente da Suprema Corte da Índia ter comparado jovens desempregados a "parasitas" e "baratas" durante uma audiência. Em resposta, Dipke lançou nas redes sociais a provocação: "E se todas as baratas se unissem?"

A publicação viralizou e deu origem ao partido satírico, cujo manifesto critica duramente o governo e se apresenta como "o partido das pessoas que o sistema esqueceu de contar".

Em apenas duas semanas, a página oficial do CJP no Instagram ultrapassou 22 milhões de seguidores, superando o partido governista Bharatiya Janata Party (BJP). O governo tentou bloquear as contas do movimento nas redes sociais sob a justificativa de questões de segurança nacional, mas a medida não prosperou.

A fúria das baratas

Embora tenha nascido como uma sátira, o CJP rapidamente concentrou sua atuação em uma das principais reclamações da juventude indiana: os sucessivos vazamentos das provas do Exame Nacional de Elegibilidade e Ingresso (NEET), utilizado para selecionar candidatos aos cursos de medicina.

O exame reúne mais de dois milhões de estudantes para cerca de 130 mil vagas, enquanto famílias frequentemente comprometem suas economias para custear cursos preparatórios.

Os vazamentos das provas obrigaram milhões de candidatos a refazer os exames nos últimos anos e foram associados a dezenas de casos de suicídio. O movimento também denuncia a falta de responsabilização do governo pela crise educacional e exige a renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan.

A pauta ganhou força em meio ao elevado desemprego entre jovens diplomados, que atinge cerca de 40% dos graduados com menos de 25 anos.

A primeira manifestação presencial do CJP ocorreu no início de junho, em Nova Délhi, liderada pelo próprio Dipke após seu retorno dos Estados Unidos. Dias depois, uma nova mobilização reuniu milhares de pessoas na capital em protestos que incluíram até mesmo uma greve de fome inspirada nos métodos de Mahatma Gandhi para pressionar pela saída do ministro da Educação.

A saúde de Sonam Wangchuk, que protagonizou a greve de fome, deteriorou-se ao longo de quase três semanas sem alimentação. Após determinação judicial para monitoramento médico diário, a polícia de Déli retirou o ativista à força do acampamento de protesto e o levou a um hospital público. A ação provocou críticas em todo o país e foi classificada por sua família como uma detenção ilegal.

Mesmo hospitalizado, Wangchuk convocou os apoiadores do CJP para uma marcha até o Parlamento na segunda-feira. O protesto reuniu mais de 20 mil pessoas, tornando-se uma das maiores manifestações contra o governo Modi nos últimos anos. A polícia bloqueou ruas, restringiu o acesso à internet na região e impediu a aproximação dos manifestantes ao Parlamento, recorrendo ao uso de gás lacrimogêneo e cassetetes quando parte da multidão tentou romper as barreiras.

Pressionado pela crescente mobilização, o governo aceitou realizar uma breve reunião com representantes do CJP, mas, segundo o Guardian, não assumiu compromissos concretos em relação às reivindicações. O ministro Dharmendra Pradhan não comentou publicamente os protestos, enquanto os organizadores afirmaram que manterão as manifestações até que ele deixe o cargo.

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