Macron, Le Pen, Mélenchon: quem vai ganhar a eleição na França?

França terá o primeiro turno de suas eleições presidenciais neste domingo, 10. Veja os principais cenários para o presidente Emmanuel Macron e a oposição
Le Pen e Macron (ao centro): disputa acirrada (Thierry Monasse/Getty Images)
Le Pen e Macron (ao centro): disputa acirrada (Thierry Monasse/Getty Images)
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Carolina RiveiraPublicado em 08/04/2022 às 06:00.

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Se em 2017 o presidente francês Emmanuel Macron chegava aos holofotes da política francesa como novidade, é em um cenário muito diferente que os franceses vão às urnas neste domingo, 10 de abril.

O presidente de centro busca a reeleição em um pleito que deve ser apertado. Para o primeiro turno neste fim de semana, Macron, de 44 anos, lidera as pesquisas por margem pequena, e tem perdido espaço em meio a questionamentos a seu governo.

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No compilado das principais pesquisas feito pela agência Reuters, Macron tem 26% dos votos, contra 23% de Marine Le Pen, candidata da extrema-direita pelo partido Frente Nacional. Em terceiro vem Jean-Luc Mélenchon, do esquerdista França Insubmissa, com 17%.

Le Pen havia começado março com 17% dos votos e Mélenchon, com 11%, ambos subindo seis pontos percentuais nas últimas semanas. Já Macron caiu quatro pontos, após chegar a 30% no começo de março.

Macron chegou a ganhar espaço nas pesquisas no começo do ano, em meio à guerra na Ucrânia no fim de fevereiro e seu protagonismo nas negociações com o presidente russo, Vladimir Putin. O tema chegou a ser classificado como prioritário entre os eleitores franceses. Com a guerra chegando a mais de 40 dias, o assunto perdeu tração e questionamentos antigos ao governo Macron voltaram à tona.

Como já havia acontecido na eleição de 2017 - quando Macron e Le Pen fizeram o segundo turno -, a eleição francesa também é novamente marcada por um apagamento dos partidos tradicionais de centro.

Le Pen em discurso a apoiadores, em 7 de abril: candidata chegou a perder espaço para Zemmour entre a direita, mas se recuperou  (Louise Delmotte/Bloomberg/Getty Images)

Na centro-direita, a aposta do tradicional partido Os Republicanos (o mesmo do ex-presidente Nicolás Sarkozy) foi Valérie Pécresse, que tem 9% dos votos.

Pécresse está empatada ou mesmo atrás em algumas sondagens de Éric Zemmour, um comentarista que ganhou espaço com discursos de extrema-direita (ele chegou a ocupar o segundo lugar nas pesquisas, mas perdeu espaço para Le Pen).

Já na centro-esquerda, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, do Partido Socialista (do ex-presidente François Hollande), amarga somente 2% dos votos.

O candidato mais bem posicionado da esquerda, Mélenchon, foi relativa surpresa na reta final das eleições, e vem angariando votos em meio à insatisfação do eleitorado de esquerda com Macron e à pouca força do Partido Socialista.

Foi em meio à fragmentação partidária que o próprio Macron se elegeu como "outsider" em 2017 - em um cenário de insatisfação com os partidos tradicionais que se construiu desde a crise europeia pós-2008, não só na França como em outros países da Europa.

Ex-banqueiro e ex-ministro em governos do Partido Socialista (de centro-esquerda, com o qual romperia mais tarde), Macron nunca havia se elegido a um cargo público. Em 2016, poucos meses antes da eleição presidencial, fundou o partido Em Marcha!, com propostas liberais econômicas e relativamente progressistas nos costumes e pautas ambientais.

No entanto, após quatro anos de mandato, o presidente francês não conseguiu entregar todas as reformas prometidas e foi alvo de alguns dos maiores protestos da história da França com o movimento dos Coletes Amarelos, iniciado por insatisfação com preços e que terminou caminhando para um levante mais à direita.

Macron em comício em 5 de abril: presidente sofre criticas da direita à esquerda (Nathan Laine/Bloomberg/Getty Images)

Macron é ainda visto como favorito para vencer, mas o segundo turno em 24 de abril é uma incógnita.

A segunda vaga na etapa final da eleição também será crucial: Macron se deslocará para a direita ou a esquerda a depender de quem for seu oponente, se Le Pen ou Mélenchon. Com pesquisas tão apertadas, quase todos os cenários ainda são prováveis.

Em 2017, Macron venceu Le Pen no segundo turno com 66% dos votos. Desta vez, o compilado da Reuters aponta uma disputa muito mais acirrada, com somente 53% para o atual presidente. Se o segundo turno for contra Mélenchon, Macron pode vencer com mais facilidade, com 59% dos votos.

Enquanto isso, na frente internacional, Macron, sem Angela Merkel na Alemanha, será, se reeleito, o principal líder na União Europeia para os novos desafios do bloco. A lista é grande, da guerra na Ucrânia à imigração, transição energética e redução da dependência do gás natural russo.

A relação com o Brasil também será amplamente impactada pelo resultado. Macron tem tido embates frequentes com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, o que não deve mudar em um segundo mandato.

A relação entre França e Brasil respondeu por US$ 7,3 bilhões em trocas comerciais em 2021 (entre os 25 principais destinos de exportações e o 10º em importações). O novo governo francês será ainda essencial em frentes como o acordo União Europeia-Mercosul, hoje parado esperando aprovação dos parlamentos europeus.

O embate em solo francês ao longo de abril será longo e ferrenho - e definirá os caminhos trilhados na Europa e em todo o mundo.