Donald Trump e Lula: presidentes se encontraram no último dia 7
Repórter de Negócios
Publicado em 17 de maio de 2026 às 09h27.
Última atualização em 17 de maio de 2026 às 09h28.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que sua relação pessoal com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode evitar novas tarifas e sanções contra o Brasil, além de atrair investimentos americanos ao país e garantir respeito à democracia brasileira.
A declaração foi dada em entrevista ao jornal Washington Post, a primeira concedida por Lula após a reunião com Trump na Casa Branca, em 7 de maio.
"Se consegui fazer Trump rir, posso conseguir outras coisas também. Não dá para simplesmente desistir", afirmou Lula ao jornal americano.
Ao jornal, o presidente descreveu a aproximação com Trump como uma estratégia deliberada, num momento em que busca um quarto mandato.
Lula também relatou ao Washington Post uma cena dos bastidores do encontro de 7 de maio.
Ao guiá-lo pelo Walk of Fame presidencial, Trump apresentou suas próprias fotos ao petista, que provocou: "Você não sabe sorrir?". Trump teria respondido que eleitores preferem líderes com aparência séria. "Só durante a eleição. Agora que você está governando, pode sorrir um pouco. A vida fica mais leve quando a gente sorri", devolveu Lula.
Na foto oficial divulgada pelo governo brasileiro, Trump aparece sorrindo.
Os presidentes Donald Trump e Lula, durante encontro na Casa Branca (Ricardo Stuckert/PR/Divulgação)
Apesar da boa química, Lula disse que mantém divergências importantes com o líder americano.
"Trump sabe que eu sou contra a guerra com o Irã, que discordo da intervenção dele na Venezuela e que condeno o genocídio que está acontecendo na Palestina", afirmou. "Mas minhas divergências políticas com Trump não interferem na minha relação com ele como chefe de Estado. O que eu quero é que ele trate o Brasil com respeito, entendendo que eu sou o presidente democraticamente eleito aqui."
A relação com Trump tem rendido dividendos políticos ao presidente brasileiro. Em pesquisa realizada após a visita à Casa Branca, 60% dos brasileiros avaliaram que o encontro foi "bom para o Brasil".
O dado é relevante num cenário em que o eleitorado aparece praticamente dividido entre Lula e Flávio Bolsonaro, que disputa a Presidência no lugar do pai, Jair Bolsonaro.
Questionado sobre o esforço da família Bolsonaro para se aproximar de Trump — Eduardo Bolsonaro chegou a se mudar para os Estados Unidos no ano passado para tentar convencer o presidente americano de que o pai era vítima de perseguição política —, Lula foi taxativo.
"Eu nunca pediria a Trump para não gostar do Bolsonaro. Isso é problema dele. Não preciso me esforçar para que ele saiba que eu sou melhor que o Bolsonaro. Ele já sabe."
Entre os temas tratados na Casa Branca, Lula revelou ao Washington Post que entregou a Trump uma cópia do acordo nuclear de 2010, negociado por Brasil e Turquia com o Irã e à época rejeitado por Estados Unidos e União Europeia. O objetivo, disse, era mostrar ao americano que "não é verdade que o Irã esteja tentando construir uma bomba atômica de novo".
Trump teria dito que leria o documento. Lula se ofereceu para facilitar o diálogo, mas os próximos passos não foram discutidos.
O presidente brasileiro também pediu a Trump o fim do bloqueio econômico a Cuba. "Cuba precisa de uma chance", disse ao jornal. Segundo Lula, Trump afirmou que não está invadindo a ilha. "O que eu sei é que, se os Estados Unidos abrirem uma mesa de negociação, não baseada em imposições, Cuba vai participar."
Sobre a China, Lula foi direto ao recado dirigido a Washington: "Hoje, meu comércio com a China é o dobro do meu comércio com os Estados Unidos. E isso não é por preferência do Brasil". E completou: "Se os Estados Unidos quiserem voltar para a frente da fila, ótimo. Mas têm que querer".
Apesar da aproximação com Trump, Lula afirmou ao Washington Post estar preocupado com a direção da política global e com o que vê como erosão da cooperação multilateral. Para ele, líderes pró-democracia precisam entregar resultados concretos antes que movimentos antissistema cresçam ainda mais.
"A democracia falhou quando deixou de responder às aspirações mais básicas das pessoas. Aí qualquer idiota que fala contra o sistema ganha aplausos. Isso está acontecendo no mundo inteiro", afirmou.
"Espero que Trump possa ser convencido de que os Estados Unidos podem ter um papel muito mais importante para fortalecer a paz, a democracia e o multilateralismo", concluiu. "Vai ser difícil? Vai. Mas se eu não acreditasse na persuasão, eu não estaria na política."