Kiev sofre ataques antes de novas negociações entre Ucrânia e Rússia

Parcialmente cercada pelas tropas russas, a capital da Ucrânia acordou com três grandes explosões. Os serviços de emergência afirmaram que zonas residenciais em vários distritos foram atacadas
Bombeiros lutam contra incêndio em edifício do distrito de Sviatoshyn, oeste de Kiev: novos ataques nesta terça-feira, 15 (afp/AFP)
Bombeiros lutam contra incêndio em edifício do distrito de Sviatoshyn, oeste de Kiev: novos ataques nesta terça-feira, 15 (afp/AFP)
Por Da redação, com agênciasPublicado em 15/03/2022 07:02 | Última atualização em 15/03/2022 10:06Tempo de Leitura: 10 min de leitura
  • A noite teve novos ataques em áreas residenciais de Kiev;
  • Negociações entre Rússia e Ucrânia serão retomadas nesta terça-feira;
  • Funcionários do alto escalão de EUA e China se reuniram por sete horas em Roma, sem consenso sobre participação chinesa no apoio à Rússia;
  • Premiês de Polônia, República Tcheca e Eslovênia se encontrarão com Zelensky diretamente em Kiev pela primeira vez;
  • A Rússia estaria recrutando milhares de novos soldados na Síria;
  • A União Europeia aplicou mais sanções contra a Rússia, incluindo o bilionário Roman Abramovich, dono do Chelsea.

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Ataques a Kiev

Ao menos duas pessoas morreram na manhã desta terça-feira, 15, em novos ataques contra zonas residenciais de Kiev.

Parcialmente cercada pelas tropas russas, a capital da Ucrânia acordou com três grandes explosões. Os serviços de emergência afirmaram que zonas residenciais em vários distritos foram atacadas.

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Em Sviatoshyn, zona oeste de Kiev, um bombardeio atingiu um edifício de 16 andares, "onde os corpos de duas pessoas foram recuperados e 27 pessoas foram resgatadas", informaram as autoridades locais em um comunicado.

Um ataque, que não deixou vítimas, atingiu uma casa em Osokorky (sudeste) e disparos de artilharia provocaram um incêndio rapidamente controlado em um prédio residencial de Podilsk (noroeste), onde uma pessoa foi hospitalizada.

A capital registrou a fuga de metade de seus três milhões de habitantes e está cercada pelas entradas norte e leste.

Apenas as rodovias para o sul permanecem abertas, onde as autoridades municipais instalaram pontos de controle e os moradores recebem alimentos e remédios. Kiev é "uma cidade em estado de sítio", disse um conselheiro de Zelensky.

Pessoas perto de prédio atingido em Kiev nesta terça-feira, 15: cerco à capital continua (Maxym Marusenko/NurPhoto/Getty Images)

Negociações recomeçam

Os ataques acontecem antes da retomada das negociações entre representantes de Rússia e Ucrânia por videoconferência nesta terça-feira.

Na segunda-feira, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky havia classificado o primeiro dia de conversas como "bom". "Mas veremos, continuarão amanhã", disse.

Moscou exige que a Ucrânia se afaste da Otan e reconheça a soberania das regiões separatistas pró-Rússia do leste do país. Kiev exige um cessar-fogo imediato e a retirada das tropas russas de seu território.

Antes, os dois lados participaram em três encontros presenciais em Belarus, país aliado russo na fronteira norte da Ucrânia, além de uma reunião dos ministros das Relações Exteriores na Turquia.

Premiês visitam a Ucrânia

Os premiês de Polônia, República Tcheca e Eslovênia visitarão diretamente a capital ucraniana nesta terça-feira para encontro com o presidente Zelensky.

Participam da visita Mateusz Morawiecki (Polonią), Petr Fiala (República Tcheca) e Janez Janša (Eslovênia).

Será a primeira vez que líderes de países da UE estarão na Ucrânia para encontro oficial com Zelensky desde o início da guerra. 

“O objetivo da visita é manifestar o apoio inequívoco da União Europeia à Ucrânia e à sua liberdade e independência”, escreveu Fiala, primeiro-ministro da República Tcheca, em seu perfil no Twitter.

O grupo, composto por países do antigo bloco socialista no leste europeu, viaja como representante do Conselho Europeu, braço político da União Europeia.

A Polônia é também uma das principais figuras da crise de refugiados, tendo sido destino de quase 2 milhões de pessoas vindas da Ucrânia desde o início da guerra.

Zelensky, Boris Johnson e outros líderes em reunião da Força Expedicionária nesta terça-feira, 15 (Justin Tallis - WPA Pool/Getty Images)

Também hoje, Zelensky participou por videoconferência de encontro da Força Expedicionária Conjunta do Reino Unido, liderada pelo Reino Unido e que conta como a própria Estônia, entre outros. Zelensky apareceu ao lado do premiê Boris Johnson e outros líderes europeus.

Já na quarta-feira, 16, o presidente ucraniano falará ao Congresso americano. Zelensky tem feito uma peregrinação em falas em diversos parlamentos da Otan, e tenta convencer a aliança a implementar uma zona de exclusão aérea na Ucrânia.

EUA e China se reúnem

Enquanto isso, o secretário de segurança nacional dos EUA, Jake Sullivan, e o diplomata do alto escalão chinês, Yang Jiechi, se reuniram por sete horas em Roma nesta madrugada.

Oficiais americanos afirmam desde segunda-feira que a China já teria decidido enviar apoio militar à Rússia, incluindo equipamento militar, como drones.

A China havia classificado as informações como "desinformação", e divulgou comunicado após a reunião afirmando que "todos os lados" devem ser ouvidos no conflito e que está "comprometida com negociações de paz".

Um oficial sênior do governo americano informou, após a reunião, que o encontro de sete horas foi "intenso, refletindo a gravidade do momento", conforme reportou o jornal britânico The Guardian.

"Essa reunião não foi sobre negociar questões específicas ou resultados, mas sobre uma educada e direta troca de visões", disse à imprensa, afirmando que é importante "manter linhas abertas de comunicação entre EUA e China".

Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional: conversas com a China em Roma (Shawn Thew/EPA/Bloomberg/Getty Images)

Sullivan também tem reunião marcada nesta terça-feira em Paris com oficiais do governo francês.

Mas a leitura americana é de que a aliança da Rússia com a China é um projeto que tem apoio do presidente Xi Jinping, de modo que o governo chinês não mudará de ideia. Uma opção estudada seria convencer aliados a direcionar maior pressão econômica também contra a China - o que seria muito mais difícil, em se tratando da segunda maior economia do mundo.

Novas sanções da UE

Nas primeiras horas desta terça-feira, a União Europeia anunciou uma quarta rodada de sanções contra a Rússia. 

As medidas incluem congelamento de bens e proibição de viagem à União Europeia do magnata dono do Chelsea, Roman Abramovich.

Abramovich confirmou no início da guerra que estava colocando o Chelsea à venda em meio à pressão crescente contra empresários russos pelo mundo. A UE justificou afirmando que o “acesso privilegiado” do magnata a Putin o ajudou a “manter sua considerável fortuna”. 

Na lista de sanções de hoje estão ainda restrições de importação na UE a uma série de produtos de aço, exportação de artigos de luxo para a Rússia (como carros e joias) e proibição de investimentos no setor de energia russa (com algumas exceções, como transporte de energia rumo à UE). Agências de rating dentro do bloco também não podem mais avaliar a Rússia ou empresas russas, o que atrapalha o grau de confiança e investimento desses ativos. 

O chefe de relações exteriores da UE, Josep Borrell, descreveu o pacote como “outro grande golpe” às finanças russas. O Fundo Monetário Internacional disse que um calote da dívida russa em poucos dias não é improvável - embora o FMI não acredite que isso levará a uma crise global.

Refugiados

A ONU afirma que o número de refugiados na Ucrânia chega a mais de 2,9 milhões de pessoas, segundo atualização desta terça-feira.

Ao menos 636 civis morreram no conflito, segundo a verificação da ONU, mas diante da dificuldade em verificar de forma independente todas as vítimas, a organização suspeita que o balanço real de mortos é muito superior.

Refugiados na Hungria: quase 3 milhões de pessoas deixaram a Ucrânia (Christopher Furlong/Getty Images)

Recrutamento russo

A Rússia teria recrutado 40 mil pessoas na Síria para se juntar a suas forças na guerra na Ucrânia, segundo o Observatório Sírio para Direitos Humanos.

O observatório tem reportado sobre a guerra civil na Síria em solo por anos e é respeitado entre órgãos internacionais. Segundo o relatório, há pontos de recrutamento em várias cidades sírias e o governo russo tem prometido "salário e privilégios" a quem se alistar.

A Síria foi destruída por uma guerra civil que já dura desde 2011. O país também passou a contar com presença de forças russas após apoio de Vladimir Putin ao ditador sírio, Bashar al-Assad, em oposição a rebeldes em várias frentes, alguns grupos apoiados por potências ocidentais, incluindo os Estados Unidos.

Avanço lento?

O comandante da Guarda Nacional da Rússia, Viktor Zolotov, afirmou que a operação na Ucrânia "não está seguindo tão rápido como gostaríamos", mas insistiu que vitória chegará passo a passo, segundo reportou a Agence France-Presse (AFP).

Vladimir Putin havia ordenado até o momento a suas forças para "conter qualquer ataque imediato às grandes cidades", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, embora não tenha descartado a possibilidade de ações contra as grandes cidades "que já estão quase cercadas".

Uma das cidades cercadas é Mariupol, no sudeste do país, onde as autoridades afirmam que quase 2.200 pessoas morreram com a guerra. Escondidos em porões em meio aos embates, os moradores sofrem há dias com falta de água, energia elétrica, calefação e alimentos.

Na segunda-feira, 210 veículos conseguiram sair pela primeira vez em vários dias por um corredor humanitário. Tentativas anteriores haviam falhado em retirar cidadãos em massa do local.

O Estado-Maior da Ucrânia afirmou durante a noite que as tropas impediram um ataque de 150 soldados russos contra Mariupol e destacaram que as forças de Moscou pretendem "reforçar o reagrupamento de tropas em direção a Kharkiv", a segunda maior cidade  do país, ao leste.

Conflito em mais áreas

Os efeitos da invasão atingem cada vez mais áreas da Ucrânia, incluindo regiões que eram consideradas seguras como a cidade de Dnipro, centro do país, ou a faixa leste próxima da fronteira com a Polônia, que foram alvos de bombardeios nos últimos dias.

Em uma localidade próxima a Rivne (noroeste), as autoridades locais informaram que nove pessoas morreram em um ataque contra uma torre de televisão.

Separatistas pró-Rússia denunciaram um bombardeio ucraniano no centro da cidade de Donetsk (uma das repúblicas separatistas ao leste), que matou 23 pessoas. Os rebeldes divulgaram imagens de corpos ensanguentados nas ruas. O exército ucraniano negou responsabilidade.

No fim de semana, vale lembrar, um bombardeio deixou 35 mortos em uma base militar a poucos quilômetros da fronteira da Polônia, região ainda não atacada antes. O caso fez Zelensky renovar pedido à Otan para que determine uma zona de exclusão aérea.

*A matéria será atualizada com os novos desdobramentos da guerra na Ucrânia nesta terça-feira, 15. Última atualização às 9h47.

(Com AFP)


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