Jogo do Flamengo será adiado? Entenda o que está acontecendo no Peru

A partida chegou a ser suspensa pelas autoridades peruanas e pela Conmebol após o governo do Peru anunciar toque de recolher
Estádio de Lima: jogo do Flamengo poderia ser adiado em meio a toque de recolher no Peru (Daniel Apuy/Getty Images)
Estádio de Lima: jogo do Flamengo poderia ser adiado em meio a toque de recolher no Peru (Daniel Apuy/Getty Images)
Por Carolina RiveiraPublicado em 05/04/2022 09:36 | Última atualização em 07/04/2022 11:05Tempo de Leitura: 5 min de leitura

O governo do Peru anunciou que as cidades de Lima e Callao entram em estado de emergência a partir desta terça-feira, 5, em meio aos protestos que têm tomado o país. A situação afetaria o Flamengo, que, pelo calendário, jogaria contra o peruano Sporting Cristal pela Libertadores em Lima na noite de hoje.

A partida chegou a ser suspensa pelas autoridades peruanas e pela Conmebol, porém, em uma reviravolta, a confederação anunciou que o jogo irá acontecer após o governo do Peru cancelar o toque de recolher. O jogo sofrerá um atraso e não começará 21h30, mas sim às 22h (de Brasília).

A medida decretada pelo presidente Pedro Castillo inclui um toque de recolher até a meia noite (horário local) desta terça-feira, o que inviabilizaria a partida.

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As cidades já amanheceram com toque de recolher, e só serviços essenciais podem funcionar, como serviços profissionais das áreas de saúde, manutenção em áreas como água e eletricidade, telecomunicações, limpeza e atividades correlatas.

Mais cedo, a situação do jogo da Libertadores chegou a ser levantada junto ao ministro da Justiça, Félix Chero, que disse que o jogo não será exceção.

"Terá que ser remarcado. Não nos esqueçamos que em medidas excepcionais, há atitudes excepcionais que têm de ser tomadas. Uma partida de futebol não pode se sobrepor à tranquilidade do país", disse em entrevista à imprensa local.

A Conmebol, que comanda o futebol sul-americano, tentou durante o dia manter a realização do jogo nesta terça-feira. O presidente Rodolfo Landim foi ativo nas conversas para a manutenção do jogo em Lima, ainda que com portões fechados. Havia debates sobre se o Sporting pode ser eventualmente penalizado com perda dos pontos da partida, já que o Flamengo não teve ingerência sobre a situação e estava pronto para jogar.

O adiamento poderia fazer o Flamengo ter problemas com o calendário apertado em 2022. A próxima data livre do clube brasileiro é em 1° de junho, quando haverá uma data Fifa.

Protestos no Peru

O decreto no Peru veio após protestos massivos no país ao longo dos últimos dias, tendo como uma das principais pautas o aumento de preços em meio à inflação no país.

Estão no radar sobretudo o aumento de combustíveis e produtos como fertilizantes, que levaram também a altas em preço dos alimentos. Os protestos foram encabeçados por transportadores e agricultores, embora tenham se ampliado para mais grupos da população na sequência.

Os atos bloquearam estradas do país durante seis dias e, no último sábado, 2 de abril, confrontos entre manifestantes e a polícia deixaram mais de uma dezena de feridos e presos.

Protestos em dia de votação de impeachment de Castillo no Congresso: instabilidade política no Peru (Angela Ponce/Bloomberg/Getty Images)

O governo anunciou na semana passada isenções de impostos sobre combustíveis e aumentou o salário mínimo em 10% (para 1.025 soles na moeda local ou cerca de R$ 1.301 na cotação atual), mas as medidas não foram suficientes para amenizar as tensões.

Segundo o governo, o estado de emergência foi decretado para garantir a segurança, e decidido após uma reunião na noite de segunda-feira, 4, do presidente Pedro Castillo com seu gabinete de ministros.

Em pronunciamento, Castillo afirmou que o objetivo é "proteger os direitos fundamentais de todas as pessoas".

Governo conturbado de Castillo

O episódio é mais uma das controvérsias envolvendo o governo Castillo, professor da zona rural eleito em junho de 2021 prometendo um governo de esquerda.

Castillo chegou ao cargo após uma eleição apertada contra a direitista Keiko Fujimori e em que ambos os candidatos chegaram ao segundo turno com parcela pequena dos votos - e grande parte da população insatisfeita.

Desde então, o mandatário teve de trocar uma série de ministros da formação original do gabinete, mudou parte de sua plataforma e vem sendo criticado mesmo por alas que ajudaram a elegê-lo.

Castillo deixa Congresso em 28 de março: presidente sofreu dois processos de vacância em menos de um ano no cargo (Angela Ponce/Bloomberg/Getty Images)

Como outros presidentes peruanos anteriores, Castillo sofre dura pressão do Congresso, que tem poderes mais amplos no Peru ao poder votar uma "moção de vacância" contra o presidente, por justificativas abrangentes, como "incapacidade moral".

Com menos de um ano de mandato, Castillo já escapou de dois processos de impeachment - o último há sete dias -, e o Congresso ameaça constantemente abrir um novo processo.

O último presidente eleito do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, de centro-direita, renunciou antes de sofrer impeachment em 2018, e seu substituto, o vice Martín Vizcarra, também foi removido em 2020. A instabilidade política tem sido frequente no Peru, que é também um dos países mais afetados por escândalos de corrupção que envolveram a construtora brasileira Odebrecht e quase toda a elite política do país.

*A matéria foi atualizada com a confirmação da realização da partida.