Irã: busca por piloto desaparecido reacende crise de 1979 (KEN CEDENO/AFP)
Diretor de redação da Exame
Publicado em 4 de abril de 2026 às 16h26.
A busca por um piloto americano que ejetou de seu jato atingido neste sábado levou a uma nova escalada nas tensões entre Estados Unidos e Irã. E devolveu à memória a maior crise geopolítica entre os dois países -- o sequestro de 52 diplomatas americanos na embaixada de Teerã em 1979.
Há 47 anos, a batalha diplomática se alongou por 444 dias, tempo suficiente para, segundo alguns analistas, custar a reeleição do então presidente americano Jimmy Carter para republicano Ronald Reagan. Neste sábado, 4 de abril de 2026, a queda do jato F-15E levou o presidente Donald Trump a dar 48 horas por o Irã chegar a um acordo para o fim da guerra.
Quase cinquenta anos e quantidade de fatores muito mais larga que o estreito de Ormuz separam os dois episódios. Mas o jornal americano The New York Times relembrou, numa reportagem publicada hoje, a ferida profunda do episódio de 1979.
"A possibilidade de que o Irã possa capturar o piloto reascende o espectro de um replay na crise de reféns de 1979, um trauma na história americana que foi a base para 50 anos de uma relação hostil entre os países", diz o texto da jornalista Yeganeh Torbati.
A crise de reféns é contada em detalhes no magistral King of Kings, do jornalista e historiador Scott Anderson. Lançado em 2025, antes, portanto da nova escalada entre os dois países, o livro conta a chegada ao poder do aitolá Ruhollah Khomeini, em 1979.
Em meio a um processo para votar uma nova constituição que acabaria por criar um sistema político com o líder religioso no topo, um grupo de estudantes iranianos invadiu a embaixada americana em Teerã. Como relembra Anderson, até hoje não se sabe a real participação de Khomeini no plano.
O fato é que o aiatolá aproveitou o episódio para escalar um conflito geopolítico e fortalecer seu governo. Anderson detalha a brutalidade do regime iraniano e a inoperância americana para lidar com a crise no Oriente Médio.
Jimmy Carter, presidente à época, priorizou a libertação com vida dos reféns e relutou num conflito aberto. Seu governo chegou a tentar uma operação de resgate com oito helicópteros que entrou para a história como um dos maiores fracassos militares do país. Oito soldados morreram sem sequer se aproximar da embaixada.
No fim, o sequestro foi decisivo na derrota eleitoral de Carter para o republicano Ronald Reagan. Os reféns acabaram libertados apenas nas primeiras horas do novo governo, o que Anderson chama de uma "humilhação final" de Khomenei ao ex-presidente americano.
King of Kings conta também em detalhes o enorme desconhecimento do governo americano sobre o Irã e as batalhas internas que levaram à tomada do poder por Khomeini. Na época, as missões diplomáticas americanas sequer tinham tradutores para tirar suas próprias conclusões dos discursos e entrevistas de um líder religioso que foi responsável, nas contas do autor, por mais de 100 mil execuções.
Como relembra a reportagem de hoje do New York Times, Trump repetidamente critica a forma como Carter lidou com a crise dos reféns, chamando-a de "patética".
Uma nova crise de reféns poderia, mostra a reportagem, complicar as opções de Trump para dar fim às operações militares no Irã. O presidente americano já mostrou disposição de tomar ações militares mais concretas que Carter 47 anos atrás.
Mas um grupo crescente de analistas reforçam a dificuldade do atual governo de entender o governo iraniano. Neste sentido, 2026 e 1979 estão cada dia mais próximos. Uma crise envolvendo reféns pode ser a gota que falta para entornar o caldo tanto no Oriente Médio, quanto para o governo Trump. O prazo de 48 horas está contando.