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Irã promete punições 'sem clemência' contra manifestantes; cresce temor de execuções em massa

Regime endurece discurso após repressão violenta que deixou milhares de mortos; ONGs falam em mais de 25 mil vítimas e 26 mil detenções

Irã: manifestantes protestam contra regime iraniano (Piero Cruciatti/AFP)

Irã: manifestantes protestam contra regime iraniano (Piero Cruciatti/AFP)

Isabela Rovaroto
Isabela Rovaroto

Repórter de Negócios

Publicado em 25 de janeiro de 2026 às 16h07.

O regime do Irã intensificou neste domingo, 25, as ameaças contra os responsáveis pelos protestos que tomaram o país no início de janeiro. O chefe do Judiciário iraniano, Gholamhosein Mohseni Ejei, afirmou que os instigadores dos distúrbios serão julgados “sem a menor clemência”, em uma nova escalada do discurso repressivo da República Islâmica.

“Justiça significa julgar e punir sem a menor clemência os criminosos que pegaram em armas e assassinaram pessoas, ou cometeram incêndios criminosos, destruição e massacres”, declarou Ejei, segundo o portal oficial de notícias do Judiciário iraniano, Mizan.

O magistrado também afirmou que há uma cobrança popular por medidas duras contra os envolvidos nas manifestações. “O povo exige, com razão, que os acusados e os principais instigadores dos tumultos, atos de terrorismo e violência sejam julgados o mais rápido possível e punidos, caso sejam considerados culpados”, completou.

Protestos viram desafio ao regime

As manifestações começaram no início de janeiro como protestos contra o custo de vida elevado, mas rapidamente se transformaram em um movimento de contestação mais amplo, envolvendo críticas ao regime clerical e à repressão sistemática da população. Observadores internacionais classificam os eventos como o maior desafio ao poder dos aiatolás em anos.

O governo respondeu com apagões de internet, restringindo drasticamente o acesso à rede e isolando o país do resto do mundo. Durante os dias mais intensos da repressão, diversos serviços de comunicação foram interrompidos, dificultando denúncias e cobertura jornalística internacional.

Segundo números oficiais do governo iraniano, 3.117 pessoas morreram nos confrontos. Desse total, 2.427 foram classificadas como “mártires”, uma designação que diferencia membros das forças de segurança e civis considerados inocentes dos manifestantes rotulados como violentos e “influenciados por forças estrangeiras”.

As autoridades iranianas culpam os Estados Unidos, Israel e seus “agentes terroristas” por incitarem os protestos e promoverem desestabilização interna.

ONGs falam em massacre

As estatísticas divulgadas pelo governo são contestadas por diversas organizações internacionais de direitos humanos. A ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega, estima que o número real de mortos ultrapasse 25 mil pessoas, com a maioria sendo civis e manifestantes desarmados.

Outra organização, a Human Rights Activists News Agency (HRANA), baseada nos Estados Unidos, informou que mais de 26 mil pessoas foram presas por participar ou apoiar os protestos. Muitas dessas prisões teriam sido feitas de forma arbitrária, sem acusações formais ou direito à defesa.

O Irã é, historicamente, o segundo país do mundo que mais aplica a pena de morte, atrás apenas da China. Segundo a Anistia Internacional, o país realizou pelo menos 576 execuções em 2022 e continuou com tendência de alta nos anos seguintes.

Com o novo endurecimento do discurso oficial, cresce o receio de que o Judiciário iraniano use execuções públicas como forma de intimidação e repressão à dissidência. Em manifestações anteriores, prisioneiros políticos já foram condenados à morte por crimes como “inimizade contra Deus” e “corrupção na Terra” — termos jurídicos vagos frequentemente usados contra opositores.

A comunidade internacional tem reagido com cautela. Diversos países ocidentais pedem acesso de observadores independentes, e o Conselho de Direitos Humanos da ONU voltou a pedir ao Irã que garanta transparência e respeito ao devido processo legal nas apurações e julgamentos dos detidos.

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