Pezeshkian: presidente assumiu liderança em período de transição após assassinato de Khamenei (ATTA KENARE / AFP)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 23 de setembro de 2026 às 12h01.
Última atualização em 23 de setembro de 2026 às 12h19.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, discursou nesta quarta-feira, 23, na Assembleia Geral da ONU, em meio à guerra entre o país e uma coalizão liderada pelos Estados Unidos e Israel e a novas tentativas de reabrir as negociações entre Teerã e Washington.
A fala ocorreu um dia depois do presidente americano Donald Trump usar o mesmo palco para ameaçar “aniquilar” o Irã caso não seja alcançado um acordo.
O pronunciamento também aconteceu após um contato indireto entre representantes dos dois países, realizado na terça-feira por meio de mediadores do Catar. Pezeshkian aproveitou a tribuna para defender a diplomacia, reafirmar a posição iraniana sobre o programa nuclear e criticar os ataques de Estados Unidos e Israel.
Ao longo do discurso, porém, deixou claro que Teerã não aceita negociações acompanhadas de ameaças ou coerção militar.
Pezeshkian afirmou que o Irã está disposto a retomar o diálogo e as negociações com os Estados Unidos, desde que as conversas ocorram sem coerção.
“A resistência do povo iraniano só aumentará diante das sanções, do aumento da pressão e da intimidação”, afirmou o presidente, segundo o Guardian. Em seguida, declarou: “Nunca vamos baixar a cabeça ou dobrar o joelho.”
Pezeshkian também disse que o país está aberto a negociações, mas estabeleceu uma condição: “Estamos prontos para o diálogo, a diplomacia e as negociações, sem aceitar a linguagem da força.”
A declaração ocorreu após Trump usar o mesmo palco, na terça-feira, para dizer que poderia “aniquilar” o Irã caso não fosse alcançado um acordo.
O presidente iraniano reiterou que seu país não pretende desenvolver armas nucleares, mas rejeita limitações ao uso pacífico da tecnologia nuclear.
Segundo Pezeshkian, o enriquecimento de urânio para fins civis é um direito do Irã e pode ser utilizado em áreas como pesquisa médica e geração de energia. “Tecnologia nuclear pacífica faz parte do nosso progresso inerente”, afirmou.
O presidente também reiterou a posição iraniana de que o país não quer uma arma nuclear, mas não aceitará limitações ao seu programa nuclear civil. A questão está no centro do impasse com Washington.
Pezeshkian dedicou parte importante de seu discurso à Palestina e relacionou a questão à possibilidade de alcançar uma solução duradoura para os conflitos no Oriente Médio.
“A Palestina continua sendo uma ferida aberta na consciência da comunidade internacional”, afirmou o presidente iraniano, segundo o Guardian. Na sequência, declarou: “Não podemos falar de paz ignorando a Palestina. Uma paz duradoura na Ásia Ocidental é impossível sem justiça para a Palestina.”
Pezeshkian também criticou o funcionamento dos mecanismos internacionais diante da situação palestina, apresentando o conflito como um exemplo da dificuldade da comunidade internacional em impedir o sofrimento de civis.
O presidente também abordou o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio mundial de petróleo e gás. Ele afirmou que o Irã não aceitará que outros países tenham livre acesso à passagem enquanto ela também seja usada para pressionar ou atacar o território iraniano.
Pezeshkian alertou ainda que uma expansão da guerra não produzirá segurança e defendeu que os conflitos da região sejam tratados por meio da diplomacia.
Durante o discurso, o presidente iraniano apresentou imagens de vítimas dos ataques contra o país e acusou Estados Unidos e Israel de atingirem infraestrutura civil e violarem o direito internacional.
Pezeshkian também afirmou que o Irã não iniciou a guerra e apresentou suas ações militares como defesa diante dos ataques.
Ao criticar o tratamento internacional dado aos dois países, afirmou: “Israel mata, mas o Irã está sujeito a sanções.” O presidente iraniano também sustentou que o Irã não deveria ser pressionado a abandonar sua capacidade nuclear civil enquanto Israel mantém capacidades nucleares.
No plenário, a delegação americana deixou a Assembleia Geral enquanto o presidente iraniano fazia as acusações contra Washington e Israel.
O discurso ocorreu depois de um contato indireto entre representantes dos dois países. Na terça-feira, autoridades iranianas conversaram, por meio de mediadores do Catar, com o enviado americano Steve Witkoff e Jared Kushner, genro de Trump.
Segundo o New York Times, as conversas trataram da possibilidade de retomar as negociações. Teerã teria pedido o fim do bloqueio naval aos portos iranianos e a liberação de ativos congelados.
Trump classificou o encontro como “muito bom”, mas disse que os representantes iranianos não eram do mais alto escalão. O governo iraniano, por sua vez, afirmou que a reunião não representava uma mudança em sua posição.
Antes do discurso, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, disse que Trump estava aberto a um eventual encontro com Pezeshkian em Nova York.
A reunião indireta ocorreu após meses de impasse nas negociações entre os dois países e adicionou uma frente diplomática ao conflito, enquanto o tráfego comercial no Estreito de Ormuz continua abaixo dos níveis anteriores à guerra.