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Iêmen, o país da guerra esquecida, ganha o mundo graças a jovem youtuber

Morando na Turquia, o youtuber Ez_aref mostra a cultura de seu país, que está em guerra civil desde 2015

A guerra mais esquecida do mundo (como descrita pela revista britânica The Economist) revelou, nas últimas semanas, sua face mais cruel: um ataque aéreo realizado pelas forças de coalizão (compostas pelos Emirados árabes Unidos, Bahrein, Kuwait, Egito, Jordão, Marrocos, Sudão, Catar, e liderada pela Arábia Saudita, que apoia o governo iemenita) matou 22 crianças e quatro mulheres. No início do mês, outro ataque, semelhante ao do dia 24, deixou dezenas de pessoas mortas, na província de Saada.

Segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), o ataque atingiu um ônibus que levava crianças a um mercado de Dahyan, deixando 43 mortos. A maioria dos feridos tem menos de 10 anos de idade. A coalizão afirmou que os aviões seguiam para um combate contra o grupo Houthi (milícia rebelde apoiada pelo governo do Irã), na cidade industrial Jizan. Nesta terça-feira, um relatório da Organização das Nações Unidas apontou possíveis crimes de guerras – violações do Direito Internacional – cometidos no país.

A guerra civil do Iêmen é um conflito armado entre houthis e governo iemenita que já dura três anos com mais de 40.000 mortes. É tida como a guerra esquecida por ser travada dentro de um país de pouca expressão no caldeirão do Oriente Médio.

A miséria é outra face do conflito, que ocorre em um país que já era pobre, e se tornou ainda mais precário para sua própria população. No mês passado, a Organização internacional Oxfam afirmou que 8,4 milhões de pessoas estavam em situação de inanição. Além da fome, no ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) também afirmou que o país já registrava mais de 500.000 casos de pessoas suspeitos de cólera, que custaram a vida de mais de 2.000 pessoas. A bactéria que causa desidratação e diarreia grave é causada, na maior parte das vezes, pela falta de saneamento básico.

Estima-se que mais de 650.000 pessoas deixaram o Iêmen nos últimos anos. Entre os migrantes forçados está Ezaldeen Aref. Para tirar o país do ostracismo, o jovem, hoje com 23 anos, criou um canal no Youtube que já tem 74.407 seguidores. Há quatro anos morando na Turquia, onde cursou Economia, o youtuber tenta manter o relacionamento à distância com seus expectadores iemenitas conversando sobre temas em comum: alimentação, estudos, etc. Foi, inclusive, com um tema que lhe dizia respeito que Ezaldeen começou seu vlog, em 2014. Para ajudar os amigos a estudar para provas, postou dicas e lições em sua página.

O tempo passou, e Iza (como é conhecido) cresceu, e seus leitores também. As viagens e o cotidiano do jovem que está entre o ensino médio e a universidade viraram os novos tópicos. As demandas por novidades cresciam, e o escritor decidiu investir em uma outra plataforma: os vídeos do Youtube. Foi assim que nasceu o canal Ezaldeen Aref. Em 2017, sua fama se tornou internacional, e ele foi chamado para participar do programa Creators for Change, do Youtube. Junto com 34 personalidades da internet, de diferentes partes do mundo, Ezaldeen acrescentou ao seu reportório temas como xenofobia e igualdade entre populações.

O primeiro vídeo (que conta sobre o dia em que passou com uma família alemã, na Alemanha) mostrou a aceitação, em vez da xenofobia. “Tratar sobre um tema polêmico não precisa necessariamente ser sobre seu lado negativo. Eu quis mostrar que, mesmo sendo muçulmano, podia conviver em harmonia com uma família de cultura completamente diferente da minha”, explica.

Há quatro anos na Turquia, Ezaldeen afirma que prefere não gravar vídeos sobre a xenofobia que ele mesmo sofre, todos os dias. “Meus amigos turcos, e outras pessoas da cidade poderiam não gostar, ou até mesmo se ofender com meus vídeos. Prefiro continuar focando em soluções, não nos problemas”.

As soluções, conforme ele mesmo explica, estão em mostrar a cultura de seu país, as diferenças e as semelhanças que encontra em seu cotidiano. Um vídeo sobre o Eid iemenita (celebração muçulmana que marca o fim do jejum do Ramadã) recebeu diversos comentários elogiando seu bom humor e desenvoltura para mostrar um tema que, para muitos, pode ser considerado somente religioso.

A guerra do Iêmen não é dos iemenitas

Mesmo com a participação de parte da população iemenita, a guerra tem se mostrado cada vez mais uma guerra internacional do que civil. Para a antropóloga especialista nos movimentos migratórios do Iêmen da Universidade holandesa de Vrije, Marina de Regt, a população parece estar mais envolvida na guerra do que atuando nela. “As forças internacionais e as milícias locais utilizam a população como alvo de ataques, para enfraquecer ideologias e jogos geopolíticos”, afirma. As ideologias, segundo Marina, dizem respeito à influência política e religiosa do Irã (que é da corrente islâmica xiita), e da Arábia Saudita (da corrente sunita).

A restrição de ajudas humanitárias e o agravamento da fome e de doenças fizeram com que a Organização das Nações Unidas considerasse a situação do Iêmen como a pior crise humanitária que o mundo enfrenta atualmente.

As ajudas, porém, não chegam à população porque também são peças do jogo geopolítico da guerra. Segundo Michael Page, vice-diretor da divisão do Oriente Médio da Organização Human Rights Watch (HRW), as forças de coalizão e os houthis impedem a chegada de alimentos e remédios para controlar a população vulnerável.

“As forças militares impedem a chega de alimentos e medicamentos em cidades que são ideologicamente contrárias, por exemplo. Além disso, as forças de coalizão e os houthis não permitem que organizações chequem ou realizem relatórios sobre a real situação do país”, comenta.

Além disso, Michael afirma que um dos maiores desafios para as organizações tem sido o documentar os abusos das forças internacionais. “É difícil documentar a venda irregular de armas para os combatentes, e de exigir que as armas não sejam usadas contra a população civil”, afirma. Segundo a Organização, somente no mês passado a coalizão informou que estava investigando casos de uso inapropriado de armas contra civis. Os 75 casos, porém, eram menos do que os 79 reportados pela HRW e por outras organizações.

Os Estados Unidos, responsáveis por financiar e auxiliar na logística dos combates das forças de coalizão, afirmam que as ações têm “melhorado’, e que suas garantias vão impedir que as armas – vendidas pelo próprio país – sejam usadas em infrações das leis de guerra. “A população está cansada e perdendo a esperança”, afirma a antropóloga Marina.

REUTERS | Khaled Abdullah
IÊMEN: população se manifesta contra ataques da coalizão, na capital Sanaa

A ajuda que tenta chegar

Ezaldeen quer voltar ao seu país. Mesmo que a guerra não tenha terminado, o youtuber afirma que vai retornar ao país, gravar seus vídeos e tentar ajudar a população. “Ainda é muito perigoso filmar no Iêmen. Mas eu vou arriscar, porque acho que serei mais útil estando lá do que fora do país”, afirma.

Embora Iza não seja o único com a vontade de retornar ao Iêmen, as condições para as organizações e ações sociais têm ficado cada vez mais difíceis. Antes do início da guerra, 16.760 instituições sociais e Organizações não governamentais (ONGs) atuavam no país. Majoritariamente urbanas, as organizações atuavam principalmente nas áreas de educação e no combate à corrupção. Atualmente, a maioria das organizações já não funcionam mais.

Para o antropólogo e autor de pesquisas sobre financiamento e políticas sociais no Iêmen da Universidade Radboud, Moosa Elayah, as ações das organizações dependem, atualmente, de doações e financiamentos internacionais, e os interesses ideológicos acabam influenciando na ajuda ou não de certos doadores.

Segundo seu recente artigo Civil Society and Peacebuilding in Yemen, after Ali Abdullah Saleh (Sociedade Civil e a construção da paz no Iêmen, em tradução livre), um relatório realizado em 2018 mostrou que 70% das violações contra as organizações que atuam no país foram causadas pelas milícias Houthis, e 13% pela organização fundamentalista Al-Qaeda.

“A guerra civil enfraqueceu os movimentos que já estavam consolidados, e os que queriam ser formados enfrentam a desorganização e a falta de liderança”, explica o professor, que ainda ressalta que muitos líderes tiveram que sair do país por sofrerem perseguições políticas.

Michael Page, da HRW, enfatiza essa realidade, e afirma que até as grandes organizações não conseguem mais ir aos locais de combate. “Nós temos ações no Iêmen, mas tem se tornado cada vez mais difícil, porque as tropas de coalização nos proibiram de ir à capital Sanaa, destino dos principais voos internacionais”. Muitos dos desafios, portanto, são resolvidos do lado de fora do país. Organizações com escritórios em outros países, fundraises e campanhas de doações são as maneiras que os agentes sociais encontraram para lidar com a guerra, que não tem data para acabar.

As ações não violentas, como o professor e antropólogo Moosa classifica as atividades de ciberativistas e de organizações, talvez sejam a chave para minimizar os efeitos da guerra sobre a população iemenita. “Mesmo distantes, os doadores que financiarem ações locais podem criar líderes que ajudem a construir a paz no país”. A solução para o conflito no Iêmen passa por mais visibilidade para o país e por mais boas ideias para sair do atoleiro. Duas frentes em que Iza, de vídeo em vídeo, pode ser de grande impacto.

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