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Governo do Líbano renuncia após explosão e fúria nas ruas

Governo do premiê Hassan Diab e todo o gabinete apresentaram renúncia. Em crise, país terá o terceiro primeiro-ministro em um ano

Premiê do Líbano, Hassan Diab: renúncia nesta segunda-feira, 10 (Mohamed Azakir/Reuters)

Premiê do Líbano, Hassan Diab: renúncia nesta segunda-feira, 10 (Mohamed Azakir/Reuters)

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Carolina Riveira

Publicado em 10 de agosto de 2020 às 13h46.

Última atualização em 18 de agosto de 2020 às 09h09.

Dias após uma explosão que matou 160 pessoas na semana passada, o governo do Líbano renunciou nesta segunda-feira, 10. O primeiro-ministro Hassan Diab e todo o seu gabinete apresentaram sua renúncia.

Ontem e ao longo das últimas horas, outros três ministros já haviam renunciado, além de membros do Parlamento. Ao comunicar sua renúncia, Diab chamou a explosão de "crime" e disse que o caso era resultado de uma corrupção histórica no país.

A explosão no Líbano aconteceu na última terça-feira, 4, no porto da capital Beirute, desencadeada por uma carga de nitrato de amônio que estava no local desde 2013. Autoridades do porto haviam informado à Justiça sobre a carga e os riscos do material, mas medidas não foram tomadas ao longo de vários anos.

Além das 158 vítimas, há mais de 60 desaparecidos e mais de 6.000 pessoas feridas, além de diversos moradores que tiveram as casas destruídas pela explosão -- que foi ouvida a mais de 100 quilômetros do local.

Com a renúncia do atual governo, o Líbano terá seu terceiro primeiro-ministro em um ano. O próprio Hassan Diab tinha menos de um ano como premiê, tendo assumido a liderança do governo somente em dezembro passado.

Neste fim de semana, protestos com milhares de pessoas aconteceram em Beirute pedindo a renúncia do governo e responsabilização das autoridades pela explosão e pela crise. Houve confrontos entre policiais e manifestantes e alguns prédios públicos chegaram a ser ocupados. Manifestantes também arremessaram pedras e vidro nos policiais, enquanto a polícia jogou bombas de efeito moral sobre as multidões.

O acidente aconteceu em meio a uma das maiores crises econômicas da história do Líbano, que já vinha deste antes da pandemia do novo coronavírus.

Protestos no ano passado

Com a queda do governo, um novo premiê e novo gabinete podem ser indicados ou uma nova eleição pode ser convocada. A última eleição no país aconteceu em 2018, quando venceu a coalizão liderada pelo antigo premiê Saad Hariri, o Future Movement (movimento do futuro, em inglês).

Hariri renunciou em outubro do ano passado, quando uma onda de protestos contra o governo e a crise econômica no país já havia varrido as ruas do Líbano, levando à queda do governo. Filho do ex-premiê Rafic Hariri, assassinado em 2005, Saad Hariri pertence a uma das famílias mais tradicionais do Líbano e já havia sido premiê em 2011.

Após a queda, Diab tomou posse. Seu governo é criticado por não ter passado leis que evitassem a fuga de capitais do país, o que agravou a crise financeira e a desvalorização da moeda -- desde os protestos de outubro passado, a libra libanesa já se desvalorizou mais de 70%. Diab, por sua vez, acusa a classe política do país de impedir seus planos de reforma.

As estimativas apontam que a economia do Líbano deve encolher 12% neste ano. Caso as previsões se confirmem, será um dos piores resultados desde a guerra civil (1975-1990), marcada por conflitos entre libaneses de diferentes religiões e invasões territoriais de Israel.

O conflito com Israel também oficializou uma divisão de poder que perdura até hoje no Líbano. Ficou definido que o presidente seria sempre cristão, o primeiro-ministro, um muçulmano sunita (a corrente majoritária do islã), e o porta-voz, um muçulmano xiita.

Já era um sistema que não favorecia escolhas baseadas em critérios técnicos para postos-chave no governo, e abria as portas para conversas palacianas pouco ortodoxas. Nos últimos anos, o xadrez político ficou ainda mais complexo, o que acabou exercendo um papel relevante no desastre econômico.

“O aumento do poder de grupos radicais xiitas como o Hezbollah, que recentemente passou a ocupar vários assentos no parlamento, afugentou os investidores do Golfo e de outros países, que alimentavam uma parte da economia libanesa”, disse em entrevista anterior à EXAME Simon Mabon, professor de relações internacionais da Universidade de Lancaster, no Reino Unido.

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