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Gás russo: países europeus liberam socorros recordes a empresas e famílias

Alemanha anuncia pacote de € 65 bilhões para conter efeitos da disparada do custo de energia. França, Suécia, Finlândia e Holanda também preparam ajuda

 (Andrey Rudakov/Bloomberg)

(Andrey Rudakov/Bloomberg)

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Agência O Globo

5 de setembro de 2022, 16h23

Antes mesmo de a Rússia declarar que não retomaria o fornecimento de gás para a Europa pelo gasoduto Nordstream 1 enquanto as sanções ao país pela invasão da Ucrânia não forem revistas, várias economias europeias anunciaram, nos últimos dias, pacotes bilionários de socorro a suas empresas de energia e também aos consumidores.

Os principais países europeus conseguiram aumentar seus estoques de gás nos últimos meses, temendo uma restrição adicional na oferta russa. Mas a disparada no preço da energia — o custo está em € 200 por megawatt-hora, mais de dez vezes a média da última década — deixou muitas empresas em dificuldades financeiras e algumas à beira da insolvência.

Para o consumidor, a alta da energia levou a uma disparada da inflação que, em vários países europeus, atingiu o maior patamar dos últimos 40 anos.

Veja abaixo o que cada país está fazendo para socorrer empresas e consumidores:

Alemanha

País europeu mais dependente do gás russo, a Alemanha anunciou neste domingo que o governo vai destinar ao menos € 65 bilhões para ajudar empresas e consumidores a lidar com a escalada nos preços de gás.

A Alemanha tem corrido para instalar terminais para a importação de GNL (gás liquefeito), buscando outros fornecedores, para assim reduzir sua dependência do gás russo. O país tem um plano de emergência em três fases, e está neste momento na etapa dois. A terceira frase prevê racionamento compulsório de energia por algumas indústrias.

O pacote bilionário de socorro será financiado por um aumento de impostos sobre empresas que produzem energia a partir de outras fontes que não o gás — solar, eólica, biomassa, carvão ou nuclear. O governo argumenta que essas empresas estão tendo lucros atípicos, já que o preço de referência para a energia praticado no mercado europeu é fortemente influenciado pela alta do gás.

A estratégia segue recomendação da Comissão Europeia, que nos últimos meses tem discutido uma mudança tributária justamente para taxar esses lucros atípicos de produtores de energia que não usam o gás como insumo.

Com o anúncio de domingo, o total desembolsado pela Alemanha em pacotes de socorro já chega a € 95 bilhões — uma das maiores quantias do gênero já praticadas por países desenvolvidos.

O governo vai destinar € 1,5 bilhão para dar continuidade ao programa de distribuição de € 9 por mês para gastos em transporte urbano local por cidadãos alemães. Além disso, aposentados e pensionistas receberam € 300 para ajuda com tarifas de energia, num total de € 6 bilhões em subsídios. Os estudantes, por sua vez, receberão € 200.

A Alemanha ampliou seus estoques de gás nos últimos meses. A meta europeia, de ter 80% de estoques cheios em setembro, foi atingida por vários países. No caso alemão, os estoques chegam a 85%.

Mas o presidente da agência reguladora de energia na Alemanha, Klaus Mueller, afirmou em agosto que, mesmo que o país tivesse 100% de estoque, uma interrupção total do fornecimento de gás russo esvaziaria essa reserva em apenas dois meses e meio.

E, apesar do socorro recorde do governo a empresas e consumidores, os analistas acreditam que o país não conseguirá evitar uma recessão. Segundo relatório do banco ING Grope NV, o pacote de € 65 bilhões será “insuficiente para evitar que a economia como um todo entre em recessão”.

França

Desde a invasão da Ucrânia, o país já destinou € 26 bilhões para ajudar empresas e consumidores a lidarem com a alta do custo da energia.

Menos dependente do gás russo, por ainda ter muitas usinas nucleares na sua matriz energética, a França prorrogou algumas medidas de socorro e determinou, no último fim de semana, que todas as empresas do país apresentem, até o fim de outubro, um plano para reduzir em 10% o consumo de energia, no maior esforço do tipo desde 1970.

O país fixou em 4% o aumento máximo do custo de energia para as famílias, mantendo assim a inflação relativamente baixa. Esse teto será prorrogado em 2023 para as famílias de baixa renda, anunciou o governo na semana passada. Recentemente, a França reestatizou a produtora de energia EDF, que se endividou com a alta de custos.

Na sexta-feira, o preço da energia para as empresas na França atingiu € 1.000 por megawatt-hora, um recorde histórico. Muitas empresas que estão com contratos de fornecimento de energia prestes a vencer decidiram suspender produção por não conseguirem absorver essa alta de custos.

A Duralex, fabricante tradicional de garrafas e copos de vidro vai paralisar sua produção por pelo menos quatro meses a partir de novembro e colocar 250 funcionários em licença. Na Cristal d’Arques, que produz garrafas de cristal, 1.650 dos 5.000 empregados serão colocados em licença parcial até o fim do ano.

Mesmo com um limite para o reajuste da energia para as famílias, os consumidores também terão de lidar com restrições. Máquinas de lavar roupa não poderão ser ligadas durante a noite e o aquecimento residencial só poderá ser acionado a no máximo 18,9 graus celsius. Vários municípios estão reduzindo a iluminação noturna nas ruas e fechando instalações, como piscinas públicas, para poupar energia.

Suécia

O governo vai destinar € 23 bilhões em socorro financeiro a empresas de energia que enfrentam dificuldade de caixa para comprar seus fornecimentos de gás. Sem isso, as empresas poderiam entrar em “falência técnica”, afirmou nesta segunda-feira o ministro das Finanças da Suécia, Mikael Damberg.

Finlândia

O país vai oferecer € 10 bilhões em suporte financeiro para suas empresas de energia.

"Os recursos do governo serão um programa de crédito de último recurso a empresas que, de outra forma, estariam ameaçadas de insolvência", afirmou a primeira ministra finlandesa Sanna Marin.

Holanda

O governo informou que está elaborando um pacote de € 16 bilhões de socorro a empresas e famílias. Segundo fontes próximas às negociações, os recursos serão financiados por um aumento de taxação sobre produtores de petróleo e por um tributo sobre pequenas e médias empresas.

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