Exército assume linha de frente para transição no Egito

O Exército anunciou um "mapa do caminho" que inclui uma eleição presidencial antecipada e novas legislativas em datas que ainda não foram determinadas

Cairo - Ao depor o presidente Mohamed Mursi, o Exército egípcio chegou à linha de frente para abrir uma fase de transição difícil, com o apoio de grande parte da opinão pública e de personalidades políticas e religiosas, com o risco de um confronto perigoso com a Irmandade Muçulmana.

Em meio à confusão causada pela queda do presidente, o Exército anunciou um "mapa do caminho" que inclui uma eleição presidencial antecipada e novas legislativas em datas que ainda não foram determinadas, assim como a suspensão da Constituição.

Nesta quinta-feira de manhã, o civil que escolhido pelas Forças Armadas para ocupar o posto presidencial interino -o presidente da Corte Constitucional Adly Mansour, uma figura desconhecida para muitos- prestou juramento sem saber exatamente que poderes terá.

Com sua foto estampada nas capas de todos os jornais, o chefe do Exército, general Abdel Fattah al-Sissi, de 58 anos, surge como o novo homem forte do país, embora não tenha atribuído para si alguma nova função.

O Exército assumiu as rédeas do país por um período de transição de 16 meses após a queda de Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011, sob o comando do Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), o marechal septuagenário Hussein Tantawi.

Mas a instituição militar não pretende seguir o caminho daquele período conturbado que deixou uma lembrança ruim para os egípcios e para os próprios militares, consideram analistas.

"Acredito que os novos chefes militares não querem repetir os erros do CSFA na época, que pioraram a situação e finalmente levaram à eleição de Mursi", considera o analista político Hala Mustafa.


"A principal diferença é que, desta vez, há uma adesão popular" ao "mapa do caminho" do Exército, afirma ele, referindo-se às manifestações para pedir a saída de Mursi e saudando a sua deposição após um ultimato dos militares.

O general Sissi tomou o cuidado de associar o anúncio de seu plano a personalidades como Mohamed ElBaradei, ex-chefe da agência de energia atômica da ONU que se tornou o mais eminente líder da oposição a Mursi. ElBaradei ganhou o prêmio Nobel da Paz em 2005, graças em parte as suas firmes convicções democráticas.

Ele também ganhou o apoio das duas maiores autoridades religiosas do país, o grande imã da instituição sunita Al-Azhar, xeque Ahmed al-Tayyeb, e o patriarca copta ortodoxo Tawadros II.

No entanto, alguns têm dúvidas. "Como em um passe de mágica, os egípcios parecem ter esquecido todas as violações dos direitos humanos cometidas pelo Exército em nome da 'estabilidade' e da 'produtividade', e todas as manifestações que ocorreram (em 2011 e 2012) para que voltasse aos seus quartéis", escreveu recentemente o editori Thoraia Abu Bakr no jornal Daily News Egypt.

O confronto entre o Exército e a Irmandade Muçulmana pode prolongar o clima de tensão e violência que mina o Egito e compromete sua economia.


"A saída forçada do primeiro presidente civil e democraticamente eleito do país pode enviar aos islamitas a mensagem de que eles não têm lugar no sistema político", indicou o International Crisis Group, com sede em Bruxelas, em uma análise da situação no Egito.

O ICG alerta para o risco de "uma reação violenta e, até mesmo, de resistência desesperada por parte dos partidários de Mursi".

A deposição de Mursi foi acompanhada por uma onda de detenções de altos membros da Irmandade Muçulmana, incluindo seu guia supremo, Mohammed Badie. Mursi, que lançou na noite de quarta um último apelo para denunciar um "total golpe de Estado", foi detido pelos militares.

"Todas as possibilidades estão abertas, em função da reação e da resposta da Presidência (deposta) e da Irmandade Muçulmana", considera o jornal Egyptian Gazette em um editorial.

O Exército egípcio ocupa desde a queda da monarquia, em 1952, um lugar importante na política nacional, embora prefira com frequência atuar nos bastidores. A instituição deu ao Egito todos os seus presidentes -Mohamed Naguib, Gamal Abdel Nasser, Anwar al-Sadat, Hosni Mubarak- até a eleição de Mursi, um civil, formado em Engenharia.

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