Estreito de Ormuz: abertura da rota de escoamento do petróleo segue incerta. (GettyImages)
Repórter
Publicado em 18 de junho de 2026 às 14h57.
Última atualização em 18 de junho de 2026 às 15h16.
O acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã entrou em vigor e permitiu a retomada gradual da navegação pelo Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas para o comércio global de energia. Nesta quinta-feira, 18, governo americano anunciou o encerramento do bloqueio naval imposto durante o conflito e deu início a uma nova etapa de negociações sobre o programa nuclear iraniano.
Na Casa Branca, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou que começou a contar o prazo de 60 dias previsto para solucionar os pontos pendentes do memorando de entendimento firmado entre os dois países na noite de quarta-feira.
Durante a coletiva, Vance procurou reduzir preocupações sobre a possibilidade de o Irã cobrar taxas de embarcações que cruzem o Estreito de Ormuz, hipótese que poderia alterar o status da passagem marítima, considerada por grande parte da comunidade internacional como uma via de navegação internacional.
"Bem, em primeiro lugar, acreditamos que as vias navegáveis internacionais devem ser isentas de pedágios", disse ele, acrescentando que os países da região "juntos encontrarão uma estrutura de segurança adequada para o estreito no futuro".
Segundo Vance, a abertura da rota marítima é uma condição indispensável para um acordo permanente. Se o estreito permanecer fechado, afirmou, "não haverá um acordo final".
O presidente dos EUA, Donald Trump, recebe uma visita guiada ao Palácio de Versalhes do presidente francês, Emmanuel Macron, antes de um jantar em 17 de junho de 2026 em Versalhes, França.
Poucas horas após a assinatura do memorando, o presidente Donald Trump publicou em sua rede social Truth Social que "o petróleo está fluindo". O documento ampliou o cessar-fogo e abriu negociações para encerrar o conflito iniciado ao lado de Israel no fim de fevereiro. O fechamento do Estreito de Ormuz havia provocado alta nos preços da energia, ampliado temores de desaceleração econômica global e gerado impactos na região do Oriente Médio.
O Comando Central dos Estados Unidos informou na quinta-feira que suspendeu as operações de bloqueio contra portos e áreas costeiras iranianas.
"As forças americanas não estão impedindo o trânsito de embarcações de ou para os portos iranianos no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã", afirmou o comando. "Todos os esforços militares dos EUA para impor o bloqueio cessaram. Nossos grandes navios da Marinha permanecerão na área para garantir que todos os aspectos do acordo sejam respeitados e estejam em pleno vigor e efeito."
Com o acordo em vigor, navios carregados com petróleo que estavam retidos voltaram a cruzar o Estreito de Ormuz. O Kuwait anunciou planos para elevar a produção, enquanto embarcações transportando quase 10 milhões de barris de petróleo passaram a navegar pela região. Entre elas estão os primeiros petroleiros de propriedade saudita a utilizar a rota desde o início da guerra, há mais de três meses.
Autoridades iranianas também informaram que o movimento de embarcações comerciais nos portos do sul do país retornou à normalidade desde segunda-feira, segundo agências de notícias iranianas.
Apesar da retomada das operações, executivos dos setores de navegação e energia continuam aguardando esclarecimentos sobre as condições de segurança da rota, incluindo a existência de minas marítimas e possíveis exigências de autorização por parte do Irã.
O acordo também gerou críticas entre opositores do governo iraniano e integrantes do Partido Republicano. O principal argumento é que o entendimento oferece alívio de sanções e abre caminho para o desbloqueio de recursos financeiros em benefício de Teerã.
Entre os críticos está o senador Roger Wicker, do Mississippi, presidente da Comissão de Serviços Armados do Senado. Em comunicado, ele declarou:
“Especificamente, o fundo de US$ 300 bilhões para a reconstrução e o desenvolvimento econômico do Irã – embora não financiado pelos contribuintes americanos – faria com que o pagamento ao Irã no âmbito do acordo de 2015 do presidente Obama parecesse insignificante em comparação”.
“O regime iraniano não renunciou ao seu objetivo final: ‘Morte à América, morte a Israel’. O regime investirá cada centavo que receber para alcançar esse objetivo”, afirmou.
Questionado por jornalistas sobre relatos de insatisfação do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e de integrantes de seu gabinete, Vance respondeu que Israel deve considerar a importância da aliança com Washington.
“Se eu fizesse parte do gabinete do governo israelense, talvez não estivesse atacando o único aliado poderoso que me resta no mundo”, disse. “O problema de Israel não é Donald Trump, e qualquer pessoa em Israel que pense que seu maior problema é o presidente dos Estados Unidos precisa acordar para a realidade da situação em que o país se encontra.”
O texto do memorando, divulgado pelo presidente iraniano Masoud Pezeshkian, estabelece que o Irã permitirá a passagem de embarcações comerciais pelo estreito “sem custos por apenas 60 dias”, enquanto a normalização do fluxo marítimo deverá ocorrer “em até 30 dias”.
O documento também prevê negociações entre Irã e Omã para definir um modelo futuro de administração e prestação de serviços marítimos na região, em conformidade com o direito internacional e os direitos soberanos dos países costeiros do Golfo Pérsico.
Ainda não havia confirmação sobre um encontro previsto entre JD Vance e o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, marcado para ocorrer na Suíça. A reunião tem como objetivo discutir uma solução definitiva para o conflito.
Vance afirmou que os Estados Unidos alcançaram seus principais objetivos estratégicos. Segundo ele, “O Irã está enfraquecido, seu programa nuclear destruído, sua economia em situação desesperadora e, se mudarem sua política externa, o país estará vulnerável a novas mudanças.”
“Com esse comportamento, grandes coisas vão acontecer para o Irã e para o mundo”, disse ele. “Se não acontecerem, não nos afeta em nada — de qualquer forma, nós ganhamos. E é assim que o presidente estruturou este acordo e esta negociação.”
No mercado financeiro, o petróleo continuou em queda. O barril do Brent recuou 2,5% na quinta-feira, sendo negociado a US$ 77,55 em Nova York. O valor ficou abaixo dos cerca de US$ 95 observados após Trump indicar, dias antes, que um acordo estava próximo.
Mesmo com a correção recente, a commodity acumula valorização próxima de 30% no ano. Operadores do setor avaliam que o retorno completo dos fluxos de petróleo e gás natural liquefeito pelo Estreito de Ormuz poderá levar vários meses.
Durante o período de negociações, Estados Unidos e Irã tentarão definir limites para o programa nuclear iraniano e estabelecer mecanismos para reduzir ou eliminar estoques de urânio altamente enriquecido.
Iranianos na praia de Suru, em Bandar Abbas, no Estreito de Ormuz: agência iraniana Tasnim diz que o Irã suspendeu as negociações com os EUA (AMIRHOSSEIN KHORGOOEI/ISNA/AFP/Getty Images)
Pelos termos estabelecidos, Estados Unidos e Irã concordam em interromper as hostilidades, reabrir o estreito de Ormuz e iniciar um período de negociações de dois meses para alcançar um entendimento definitivo sobre o programa nuclear iraniano e a retirada das sanções impostas ao país.
O memorando determina “o fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes”, abrangendo também a ofensiva israelense em território libanês.
Veja a seguir os 14 pontos previstos no entendimento entre os dois países:
Por outro lado, o texto do memorando não estabelece qual será o nível máximo de enriquecimento de urânio permitido ao Irã. De acordo com a emissora norte-americana CNN, a definição sobre o destino do material nuclear iraniano e dos estoques de urânio enriquecido foi deixada para a etapa final das negociações, que deverá ser concluída em até 60 dias.