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Por que rei Charles III, William, Kate e realeza não vão votar nas eleições do Reino Unido

Eleitores vão às urnas com Partido Conservador em crise e trabalhista favorito pela primeira vez em 14 anos

Agência o Globo
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Publicado em 4 de julho de 2024 às 09h51.

Como os demais cidadãos do Reino Unido, o rei Charles III, a rainha consorte Camila, o príncipe William, a princesa Kate Middleton e outros membros da realeza podem votar nas eleições britânicas. Decidiram não fazê-lo, embora seja este um dos pleitos mais esperados em uma década.

Cabe ao rei Charles III pedir ao futuro primeiro-ministro — líder do partido ou do grupo parlamentar que comande a maioria da Câmara dos Comuns (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil) — que assuma o cargo de chefe do Executivo e forme um governo. O líder da oposição, por sua vez, será o líder do partido ou grupo parlamentar que obtiver o segundo maior número de eleitos.

Com a incumbência de dar o sinal verde para a formação do novo governo, o monarca e outros membros da realeza adotaram historicamente uma posição política neutra. A monarquia precisa colaborar com o Parlamento, independentemente do partido político ou grupo parlamentar que controle a Câmara dos Comuns e de seus matizes ideológicos. O mesmo vale para as relações do reino com líderes internacionais.

Com o objetivo de manter relações cordiais com representantes de todo o espectro político do Reino Unido, membros da Coroa não expressam suas visões sobre o assunto — nem publicamente, nem nas urnas, embora fazê-lo não seja considerado ilegal.

"O rei e os membros ativos da família real podem votar legalmente nas eleições gerais na mesma base que outros cidadãos, mas na prática não o fazem. Isso por razões óbvias, especialmente porque causaria um furor de especulação na mídia e violaria a exigência constitucional atual de que eles mantenham uma estrita imparcialidade político-partidária", explica à revista Time o professor de direito constitucional no King's College London, Robert Blackburn.

Eleições no Reino Unido

Com as 650 cadeiras da Câmara dos Comuns em jogo, a disputa no Legislativo define também o próximo primeiro-ministro. Governado há 14 anos por um Partido Conservador que chega à disputa em crise, os britânicos parecem dispostos a fazer uma troca no comando político. As pesquisas de intenção de voto indicam grande margem para o Partido Trabalhista, de esquerda, que passou por uma repaginação nos últimos anos, em direção ao centro.

Uma eleição legislativa já era esperada para o 2º semestre deste ano, mas o anúncio do primeiro-ministro,no dia 22 de maio, de que o pleito seria realizado em seis semanas, pegou a todos de surpresa — em um momento em que o seu partido derretia nas pesquisas de opinião pública, mais de 20 pontos percentuais atrás dos rivais trabalhistas. A dissolução do Parlamento, em 30 de maio, deu início a um período eleitoral de cinco semanas, marcado por uma disputa narrativa, com o intenso debate sobre imigração e segurança nacional dividindo espaço com alguns escândalos nos dois maiores partidos.

O sistema eleitoral britânico divide o território em 650 circunscrições espalhadas por Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte. Apenas um deputado é eleito em cada uma delas. Não há primárias nem 2º turno: o candidato mais votado em cada circunscrição vence mesmo que receba menos de 50% dos votos. Ao fim da eleição, o rei Charles III, chefe de Estado, convoca o líder da sigla com mais deputados eleitos e o incumbe de formar governo — quem tem maioria, escolhe o premier.

As pesquisas de opinião na semana do pleito indicam uma mudança de governo como o cenário mais provável, com o Partido Trabalhista, de esquerda, liderado por Keir Starmer, com uma maioria ainda na casa dos 20%. De acordo com o agregador de pesquisas da Bloomberg, que analisa dados recolhidos por 11 institutos de pesquisa britânico, os trabalhistas lideram com 40,7% das intenções de voto, seguidos pelos conservadores, que têm 20,7%. Completam a lista dos mais votados o partido reformista (Reform UK) dolíder de extrema direita Nigel Farage, com 16,2% dos votos, e os Liberais Democratas, sigla que já se aliou com os conservadores para formar governo no passado, com 11,3%.

Em comparação com 2019, quando venceram as eleições, as pesquisas mostram uma migração de eleitores para os reformistas, liberais democratas e até mesmo para o lado trabalhista. De acordo com uma pesquisa recente do YouGov, muitos eleitores afirmam que o Partido Conservador deixou o Reino Unido em uma situação pior do que quando chegou ao poder, em 2010. Também dizem que, com relação aos principais temas que causam preocupação — economia, acesso aos serviços de saúde e imigração — que acreditam que os trabalhistas estão melhor preparados para resolvê-los.

Protegendo o vaso chinês

A liderança consolidada do Partido Trabalhista durante toda a corrida eleitoral fez com que analistas resgatassem a expressão "estratégia do vaso Ming" para definir a postura de Keir Starmer, que passou a campanha evitando confrontos abertos e ruidosos — o que o levou a ser acusado de ser "robótico" em alguns momentos da disputa. O termo, atribuído ao político liberal britânico Roy Jenkins, foi utilizado para definir um outro trabalhista, o ex-premier Tony Blair, durante a campanha que venceu em 1997. Na analogia Blair — e agora Starmer — defendia sua vantagem como alguém que carrega um "vaso Ming de valor inestimável" através de uma sala com o piso liso.

O caminho de Starmer, de 61 anos, até chegar às vésperas da eleição como favorito, porém, foi mais longo do que a campanha. Ele é o principal responsável pelo reposicionamento dos trabalhistas em uma série de pautas, que afastou a sigla da esquerda mais ideológica ligada ao ex-líder Jeremy Corbyn, em um movimento em direção ao centro.

Starmer afastou os trabalhistas de discursos e figuras acusadas de antissemitismo, e prometeu apoio contínuo a Israel na guerra contra o Hamas durante a campanha eleitoral. Também moderou o ímpeto da esquerda britânica pela nacionalização das empresas de energia, uma proposta de seu antecessor, propondo alternativamente a criação de uma nova empresa estatal para impulsionar o investimentos em fontes limpas. Ainda no campo econômico, antecipou o nome de Rachel Reeves, uma economista com passagem pelo Banco da Inglaterra, como sua futura secretária de Finanças, como uma espécie de garantia de que manteria uma política de responsabilidade fiscal.

Outro ponto de virada, que parece ter sido decisivo para superar a desconfiança, foi o alinhamento do discurso sobre questões de segurança e defesa, bem como sobre imigração. Starmer garantiu que o gasto com os militares aumentaria durante o seu governo, e disse que o apoio à Ucrânia seria mantido — em claro contraste com a postura de Corbyn, que chegou a falar em sair da Otan. Ele também atacou a questão da imigração, mantendo distância do projeto de deportações forçadas para Ruanda, uma bandeira do Partido Conservador que nunca entrou em prática e gerou alertas sobre violações de direitos humanos, prometendo respeito a tratados internacionais sobre migração, oferecendo como alternativa a negociação bilateral com os países de origem dos migrantes ilegais sem direito a asilo e refúgio.

"Assim que ele se tornou o líder [trabalhista] em 2020, ele tomou como missão pessoal afastar todos os pontos negativos que fizeram com que as pessoas não votassem no Partido Trabalhista em 2019", disse Steven Fielding, professor emérito de história política na Universidade de Nottingham, ao New York Times. "Ele conseguiu expandir o número de eleitores".

De juventude antimonarquista a nomeado "sir" durante o reinado de Elizabeth II, curvando-se perante o então príncipe Charles para receber o título de cavaleiro, em 2014, Starmer é visto por observadores da política britânica como alguém em maior sintonia com o monarca do que Sunak e a ex-premier Liz Truss. Pautas como mudanças climáticas, política habitacional, imigração e relacionamento com a União Europeia devem ser menos truncadas durante os encontros semanais com o rei, caso seja eleito.

Em busca de sentido

Se o clima é de otimismo do lado trabalhista, nas fileiras do Partido Conservador a preocupação divide espaço com a perplexidade. Rachado após anos no poder e crises sucessivas, muitos conservadores ainda tentam entender porque Rishi Sunak convocou eleições em um momento de fragilidade perante a opinião pública, e preveem uma derrota contundente na votação desta quinta.

Quando Sunak anunciou a data da eleição, imediatamente após a divulgação de indicadores positivos no campo econômico, em maio, analistas se apressaram em descrever o ato como uma tentativa do premier de capitalizar em cima da pauta econômica e da estabilização dos patamares de inflação — que caiu de 11% ao ano, em outubro de 2022, para 2,3% em abril deste ano. Por outro lado, há quem especule que a convocação foi mais uma tentativa de estancar a sangria: sem nada no radar político indicando uma reviravolta até o fim do ano, Sunak teria marcado a votação para evitar uma derrota pior.

Na reta final da campanha, Sunak tentou convencer aliados e eleitores a se engajarem na disputa e incentivar o comparecimento às urnas. Em uma campanha intensa nas redes sociais, o premier advertiu os conservadores sobre o risco de uma "super maioria" trabalhista, insistindo que levaria ao aumento de impostos e a um poder "sem freios" da extrema esquerda. Em uma entrevista à rede BBC, na segunda-feira, ele negou que a campanha sobre a "super maioria" trabalhista fosse uma admissão de derrota.

Às vésperas da eleição, os conservadores também trouxeram para a campanha o ex-premier Boris Johnson, que até o momento não tinha participado ativamente. Na terça-feira, Johnson discursou em um comício de Sunak, adotando uma narrativa similar à campanha on-line do primeiro-ministro, ligando os trabalhistas ao aumento de impostos e falta de controle sobre a imigração.

Por outro lado, alguns setores do partido parecem já ter assumido a derrota. Em uma entrevista coletiva na manhã de quarta, o secretário de Trabalho e Pensões do governo Sunak, Mel Stride, declarou que, pelas sondagens indicavam que a vitória trabalhista poderia resultar na "maior maioria que este país alguma vez viu". O comentário mereceu um desmentido de Sunak, que disse que o seu Gabinete ainda não "desistiu da eleição".

Escândalos à sombra

Na terra dos tabloides, a campanha também reservou alguns escândalos, cujo impacto eleitoral ainda está para ser medido. Do lado conservador, Sunak precisou se justificar e retirar apoio à candidatura de um de seus conselheiros políticos que, trabalhando em seu gabinete, fez um palpite em uma casa de apostas, cravando a data em que as eleições seriam realizadas — três dias antes do premier anunciar publicamente. O assessor, Craig Williams, admitiu ter feito a aposta, mas não esclareceu se tinha informações privilegiadas sobre o pleito na época.

Starmer, por sua vez, entrou na seção de escândalos após uma análise do Financial Times revelar que ele recebeu £ 76 mil (R$ 543 mil) em presentes, incluindo ingressos para jogos de futebol e ternos, desde a eleição geral de 2019. Embora todos os itens tenham sido declarados, segundo as regras do Parlamento britânico, a divulgação do montante três dias das eleições podem ter algum impacto em determinados grupos. (NYT, Bloomberg e AFP)

 

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