Embaixador brasileiro no Cairo não vê transição calma no Egito

“A expectativa da comunidade internacional não corresponde à realidade que ocorre aqui”, diz o embaixador

Brasília – Há nove anos morando em países muçulmanos, o embaixador do Brasil no Egito, Cesário Melantonio Neto, descartou hoje (2), em entrevista à Agência Brasil, a possibilidade de uma revolução islâmica no país, a exemplo do que ocorreu no Irã, em 1979. Mas o diplomata alertou que a tensão nas cidades egípcias aumenta a cada dia e que é impossível prever o fim da crise política decorrente das manifestações que exigem a renúncia do presidente do Egito, Hosni Mubarak.

O embaixador advertiu que a pressão da comunidade internacional por um processo de transição democrático e pacífico não encontra eco no Egito. “A expectativa da comunidade internacional não corresponde à realidade que ocorre aqui”, disse. "É impossível prever qualquer coisa em meio a esta situação".

A seguir, os principais trechos da entrevista do embaixador Melantonio Neto.

Agência Brasil – É impressão ou a situação está mais tensa hoje (2) do que ontem e há uma semana?

Melantonio Neto – Aumentou muito a tensão. Até ontem (1º), o Exército estava controlando a circulação de pessoas portando armas, mas hoje isso não ocorreu. Pessoas armadas com facas, pedras e até porretes estavam na Praça Tahrir, no centro do Cairo. Também é muito estranho que, no mesmo momento que havia uma manifestação no Cairo, ocorriam outras no restante do país. É um movimento organizado e isso está claro.

ABR – Os brasileiros que se programaram para viajar para o Egito podem manter os planos? Qual é o seu prognóstico sobre o que vai ocorrer?

Melantonio Neto – É impossível prever qualquer coisa em meio a esta situação que está aqui. É impossível dizer quando tudo isso vai acabar. Deve-se analisar dia após dia. Em relação aos planos de viagem para o Egito, o Itamaraty desaconselha as viagens, até porque os monumentos, museus e tudo mais estão fechados à visitação pública [por questão de segurança].

ABR – Há informações de que pode ocorrer uma revolução islâmica no Egito, o senhor acredita nisso?

Melantonio Neto - Eu conheço bem o Irã e a Turquia, pois vivi nesses dois países. Já estou vivendo nos países muçulmanos há nove anos e posso dizer que não há semelhança alguma entre a Revolução Islâmica do Irã [em 1979] com o que está acontecendo aqui. O Irã é xiita, ramo do Islamismo que se envolve com as questões de Estado, enquanto o Egito é sunita, mais ligado aos temas de família e sociedade. Portanto, há diferenças que devem ser consideradas. Não é verdade que a Fraternidade Islâmica queira dominar o processo político, tanto é que o escolhido como porta-voz da oposição é [o prêmio Nobel da Paz] Mohamed Elbaradei.

ABR – Especula-se que Elbaradei será o novo presidente do Egito. Isso procede?

Melantonio Neto – Não é possível fazer afirmação alguma sobre isso, pois a oposição egípcia também tem vários nomes de destaque como Yusif Ali Nur, que perdeu a quinta eleição para o presidente Mubarak e passou a ser um crítico. Foi preso e passou anos na prisão. Portanto, é preciso esperar para opinar.

ABR – A comunidade internacional defende uma transição democrática e pacífica, há condições para isso ocorrer?

Melantonio Neto – A expectativa da comunidade internacional não corresponde à realidade que ocorre aqui no Egito. Ontem, a oposição esperava que o presidente Hosni Mubarak anunciasse a renúncia, e não que comunicasse sua permanência até a posse do novo presidente, que só ocorrerá em dezembro. Ou seja: Mubarak foi à televisão dizer que vai ficar no poder mais um ano.

ABR – Depois de uma semana de manifestações, há desabastecimento no Egito, falta de combustíveis, comida e água?

Melantonio Neto – Não há desabastecimento. Fiz uma reunião hoje com todos os funcionários para saber justamente isso: se estava faltando algum produto. Não faltam combustíveis, alimentos, nem água. Tenho ido ao comércio também para observar isso.

ABR – O senhor prevê dias difíceis para a economia egípcia depois desses episódios?

Melantonio Neto – Eu prevejo um ano muito difícil para a economia egípcia. A economia egípcia é baseada no comércio, via Canal de Suez [principal rota de comércio entre a Europa e o Oriente Médio], em investimentos estrangeiros e remessas de egípcios que vivem no exterior. Em meio à tensão atual, tudo isso fica ameaçado, aliado à própria situação social existente no Egito, que é uma população jovem, com menos de 30 anos, desempregada e, no geral, com renda de US$ 2 (menos de R$ 4) por dia.

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