Elvira Nabiullina, a banqueira central russa que não consegue renunciar

A ex-ministra da Economia e conselheira de Putin teria apresentado duas vezes sua renúncia ao presidente russo, que não somente a rejeitou como a nomeou por mais um mandato de cinco anos.
 (Exame/Chris Ratcliffe/Bloomberg)
(Exame/Chris Ratcliffe/Bloomberg)
Por Carlo CautiPublicado em 05/04/2022 17:05 | Última atualização em 05/04/2022 17:30Tempo de Leitura: 6 min de leitura

No dia 28 de fevereiro, quatro dias após o início da invasão da Ucrânia, durante a cúpula de emergência convocada pelo presidente russo Vladimir Putin para discutir sobre as sanções ocidentais contra Moscou, a única mulher sentada na mesa do governo, no meio de dezenas de homens, era a presidente do Banco Central da Rússia, Elvira Nabiullina.

Na foto que foi divulgada pelo Kremlin, ela parecia aterrorizada. Olhando para o chão, com uma evidente expressão de descontentamento e as mãos atormentando o rosto.

Nesse mesmo dia, vestida completamente de preto, Nabiullina deu uma entrevista coletiva anunciando que o Banco Central da Rússia iria aumentar a taxa básica de juros de 9,5% para 20% ao ano.

Novamente, sua expressão facial e a escolha cromática mostraram sinais inequívocos de desaprovação pela decisão de entrar em guerra.

Não por acaso, a presidente do Banco Central da Rússia teria apresentado duas vezes sua renúncia para Putin, que a rejeitou ambas as vezes e respondeu renovando seu cargo por mais cinco anos.

Existem relatos de que Nabiullina teria acusado o presidente de ter "jogado a economia russa no esgoto". Mas, em tempos de guerra, é impossível distinguir com certeza os fatos da propaganda.

A economista marxista que veio do leste

Nascida em 29 de outubro de 1963 na cidade de Ufa, na Baskiria, região rica em petróleo espremida entre os Urais e o Volga, Nabiullina foi uma brilhante aluna da Universidade de Moscou, onde estudou história do pensamento econômico soviético através dos textos de Lenin e Marx.

Muitos de seus colegas da época se lembram dela como dedicada ao ideal comunista.

Em 1985, ano em que Mikhail Gorbachev chegou ao poder, se inscreveu no Partido Comunista da União Soviética (PCUS), condição indispensável para fazer carreira.

Em 1991, quando o colapso da URSS já parecia claro, ela devolveu o crachá por baixo da porta do escritório do partido na Universidade de Moscou.

Poucos meses depois, começou a colaborar com a Escola Superior de Economia, fundada em 1992 por seu marido Jaroslav Kuzminov, considerada o berço do liberalismo russo.

Mesmo assim, ela nunca escondeu que considera a dissolução da União Soviética uma catástrofe. Sentimento compartilhado com Putin.

De 1991 a 1998 trabalhou ao lado dos mais importantes economistas russos, incluindo Anatoly Chubais, pai do plano de privatização que gerará os oligarcas.

Em 2007, Putin nomeou-a Ministra da Economia.

Após a crise financeira de 2008-2009, ele a agradecerá publicamente, indicando-a como a salvadora da Rússia.

Entre 2014 e 2015, Nabiullina mandou fechar 276 instituições financeiras "zumbis" suspeitas de lavagem de dinheiro, garantindo uma maior estabilidade ao sistema bancário.

Além disso, se opôs repetidamente ao pedido do Kremlin de aumento das taxas básicas de juros.

Hoje, a economista mais poderosa da Rússia parece forçada a conduzir uma política monetária que vai na direção oposta à sua doutrina.

Obra de transformação da economia russa

Nos últimos oito anos, Nabiullina trabalhou para transformar, tijolo por tijolo, a economia russa em uma fortaleza autossuficiente e inexpugnável.

Só que ela descobriu que o verdadeiro propósito de seu trabalho não era garantir a solidez econômico-financeira da Rússia, e sim resistir a uma guerra.

Desde a anexação da Crimeia em 2014, e com as sanções econômicas que seguiram, a Rússia se comprometeu a reduzir a dependência do dólar e fortalecer as reservas internacionais que servem de amortecedor para proteger o rublo.

De fato, a missão era se preparar para enfrentar a exclusão dos mercados financeiros internacionais.

Por isso, Nabiullina trabalhou para garantir um baixo endividamento, uma reduzida exposição da Rússia com as economias de outros países e US$ 640 bilhões de reservas.

Um montante enorme, capaz de garantir ao país um certo grau de tranquilidade.

Pouco antes da guerra, a governadora parecia triunfante: seu rigor trouxe a inflação abaixo de 4% e conseguiu impor sua linha dura contra as criptomoedas, proibidas na Rússia.

Só que essa aparente tranquilidade nada mais era que parte dos preparativos para o ataque contra a Ucrânia.

Sanções contra a Rússia provocam caos econômico

Imediatamente após a invasão, Europa e Estados Unidos tentaram atingir a fortaleza russa diretamente no coração financeiro, impondo sanções, pela primeira vez na história, também contra um banco central do G20.

As reservas internacionais - em grande parte depositadas em bancos estrangeiros - foram congeladas, inibindo grande parte da capacidade de Nabiullina de sustentar o rublo, a moeda russa.

Os cidadãos russos, amedrontados, começaram a formar filas nos caixas eletrônicos na tentativa de sacar dinheiro, e o Banco Central foi forçado a proibir as retiradas de moeda estrangeira.

O PIB russo começou a despencar, e muitos especialistas esperam uma derrocada de 8% este ano, com uma inflação prevista na casa dos 20%. O pior dos pesadelos para uma guardiã da ortodoxia monetária como Nabiullina.

O caos parece ter tomado conta até dentro do Banco Central da Rússia de uma forma inédita.

Tanto que Nabiullina foi forçada a fazer um apelo aos funcionários, pedindo para redobrar os esforços e falando em uma "situação extraordinária e fora do padrão", acrescentando que "todos nós teríamos preferido que isso não acontecesse".

Ela chegou a pedir que os colegas evitem brigas e discussões políticas no escritório, em casa ou nas redes sociais.

Consequências monetárias da guerra

O problema maior, na verdade, são as consequências monetárias dessa guerra.

Se o rublo continuar perdendo terreno (o pedido de Putin para que o Ocidente pague o gás em rublos visa justamente evitar essa possibilidade), as manobras de Nabiullina sobre os juros não seriam suficientes para conter a inflação, e Rússia poderia perder o controle sobre os preços, inclusive de alimentos.

Os cidadãos começariam a protestar de forma cada vez mais intensa, e capacidade de Putin de reprimir o dissenso seria ineficaz.

Em um cenário de caos econômico e social como esse, a capacidade do presidente do Banco Central de conter os danos é limitada.

Por isso a única saída honrosa seria evidentemente a renúncia. Apresentada por Nabiullina duas vezes. E rejeitada por Putin.

Nabiullina prisioneira do Kremlin?

Muitos analistas se perguntam se Nabiullina se tornou uma prisioneira da fortaleza que contribuiu a erguer.

Ao mesmo tempo, alguns observadores consideram que a economista, consciente da importância fundamental de seu papel neste momento, acredita ser a única pessoa capaz de continuar esse trabalho tão desafiador. E, provavelmente, ela tem razão.

Nabiullina sabe que se opor abertamente a Putin seria o fim de sua carreira. Ela sairia do Banco Central, mas não conseguiria mais ajudar seu povo.

Então, de cabeça baixa, tenta defender o que construiu.

Viver em um país autoritário ocupando um cargo tão importante no governo limita a dialética. Não pode se falar tudo que se pensa, ou as consequências poderiam ser graves.

Mas existe uma linha tênue entre a dissidência silenciosa e a cumplicidade na destruição da economia russa que Nabiullina poderia acabar superando.