Redação Exame
Publicado em 18 de janeiro de 2026 às 17h16.
A realização das eleições presidenciais em Portugal neste domingo, 18, recoloca em evidência uma particularidade do sistema político do país: a convivência entre um presidente da República eleito pelo voto direto e um primeiro-ministro que, de fato, conduz o governo.
Há 50 anos, Portugal adota o regime semipresidencialista de matriz parlamentar, modelo presente em mais de 50 países, como França e diversas nações do Leste Europeu, segundo levantamento da Universidade de Oxford.
Nesse sistema, embora o presidente seja escolhido diretamente pelos eleitores, o poder executivo do dia a dia cabe ao primeiro-ministro, que emerge das eleições legislativas e precisa do apoio mínimo do Parlamento para governar.
Isso não significa, porém, que o presidente tenha um papel apenas simbólico. Cabe ao chefe de Estado zelar pelo funcionamento das instituições e garantir que as decisões do governo e do Parlamento estejam em conformidade com a Constituição.
Eleito para um mandato de cinco anos, o presidente passa a trabalhar no Palácio de Belém, residência oficial do cargo, e assume a condição de chefe de Estado, representante máximo de Portugal e dos portugueses.
Entre suas atribuições centrais está a nomeação do primeiro-ministro, levando em conta os resultados das eleições legislativas. Em situações extremas de crise política, também pode exonerá-lo.
O presidente tem ainda poder de veto sobre leis aprovadas pela Assembleia da República, devolvendo-as ao Parlamento para nova apreciação. Caso considere que uma norma fere a Constituição, pode solicitar ao Tribunal Constitucional que avalie sua legalidade antes da promulgação.
Em cenários mais graves, dispõe da prerrogativa de dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas.
Além dessas funções, o chefe de Estado é comandante supremo das Forças Armadas, preside o Conselho de Estado e o Conselho Superior de Defesa Nacional e atua como grão-mestre das ordens honoríficas portuguesas. Também pode autorizar a realização de referendos nacionais e conceder indultos, totais ou parciais, a condenados pela Justiça.
Já o primeiro-ministro é quem lidera o governo e coordena o trabalho dos ministros responsáveis por áreas como saúde, educação, transportes, meio ambiente e segurança. É ele quem define as políticas públicas e representa o governo tanto perante o presidente quanto no Parlamento, onde leis são debatidas e votadas.
O desenho institucional português foi consolidado após a Revolução dos Cravos, em 1974, que pôs fim à ditadura do Estado Novo de António de Oliveira Salazar.
Diante das profundas divergências políticas da época, a Constituição de 1976 buscou estabelecer um equilíbrio entre presidente, Parlamento e governo, adotando o semipresidencialismo como solução de consenso para evitar a concentração excessiva de poder.
Esse equilíbrio ajuda a entender por que as eleições presidenciais, embora não definam diretamente os rumos da política econômica ou social, têm peso institucional relevante.
Como destacou a consultoria Teneo em nota recente, mesmo sem poderes executivos, o presidente pode influenciar decisivamente o sistema ao dissolver o Parlamento e convocar novas eleições legislativas em momentos de impasse.
Neste domingo, as urnas foram abertas para cerca de 11 milhões de eleitores em um pleito marcado por número recorde de candidatos — 11 ao todo — e pela expectativa de fortalecimento da direita, hoje na oposição.
De acordo com sondagens, André Ventura, líder do partido Chega, pode liderar a votação no primeiro turno, embora tenha poucas chances de vencer a disputa final, prevista para 8 de fevereiro. O vencedor sucederá Marcelo Rebelo de Sousa, que deixa o cargo após dois mandatos.