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Crise histórica: por que o Reino Unido teve seis premiês em 10 anos

Renúncia de Keir Starmer marca a quinta desistência do principal cargo do Executivo britânico em uma década; entenda a crise política

Keir Starmer: com nova renúncia, o líder trabalhista é o quinto premiê britânico a desistir do cargo em apenas uma década (Carl Court/AFP)

Keir Starmer: com nova renúncia, o líder trabalhista é o quinto premiê britânico a desistir do cargo em apenas uma década (Carl Court/AFP)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 22 de junho de 2026 às 14h57.

Última atualização em 22 de junho de 2026 às 15h15.

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O Reino Unido se prepara para uma nova troca de comando em Downing Street. Com a renúncia de Keir Starmer após pouco menos de um ano, o país deve ter seu sétimo primeiro-ministro em apenas dez anos.

É um intervalo de instabilidade política que não tem precedente na história moderna britânica. Entre os líderes que ocuparam o cargo de premiê nos últimos 50 anos, dois ficaram nele por pelo menos dez anos: a conservadora Margaret Thatcher e o trabalhista Tony Blair.

No entanto, os longos governos no Reino Unido deixaram de existir desde 2016, devido ao referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit. Desde então, nenhum premiê conseguiu completar um ciclo político estável.

David Cameron, que governava o país desde 2010, desistiu do cargo após a vitória do Brexit. Theresa May assumiu em sequência, mas não conseguiu consolidar um acordo para a saída do bloco e também abdicou de sua posição de poder. Boris Johnson, que teve o governo mais longevo da última década, resignou após uma série de crises políticas durante a pandemia de COVID-19.

Em 2022, Liz Truss se tornou a primeira-ministra menos longeva da história, com apenas 49 dias no poder. Na época, a instabillidade do governo britânico levou à página Daily Star do Twitter a criar uma "competição" entre a permanência da chefe do Executivo e uma cabeça de alface americana, para cronometrar qual dos dois duraria mais. O alface venceu.

Rishi Sunak enfrentou perda de apoio eleitoral com menos de um ano de governo, sendo, no entanto, o único líder da última década a ser derrotado por meio do voto e não por desistência.

A alta rotatividade ocorreu mesmo com líderes chegando ao cargo após vitórias expressivas nas urnas. Cameron, Johnson e Starmer, por exemplo, deixaram o comando do governo poucos anos depois de conquistarem maiorias parlamentares consideradas inesperadas.

A instabilidade atual é resultado de uma combinação de fatores, de acordo com a mídia britânica: os efeitos políticos do Brexit, uma economia marcada por baixo crescimento, erros estratégicos dos próprios líderes, maior resistência dentro dos partidos e uma transformação na forma como a política é disputada.

O Brexit redesenhou a política britânica

O referendo de 2016 é apontado como um dos principais pontos de ruptura da política britânica recente. A decisão de abandonar a União Europeia abriu uma crise que dominou o debate público durante anos e alterou as alianças tradicionais entre partidos e eleitores.

David Cameron convocou a consulta popular e deixou o cargo após a vitória do Brexit. Theresa May assumiu a missão de conduzir a saída do bloco, mas sua liderança foi enfraquecida pelas dificuldades para aprovar um acordo no Parlamento.

Jeremy Hunt, ex-ministro das Finanças, afirmou ao Financial Times os efeitos do Brexit foram além da negociação com a União Europeia. O processo modificou o equilíbrio político do país.

O Partido Trabalhista perdeu parte do apoio histórico entre trabalhadores de regiões industriais do norte e das Midlands inglesas, enquanto setores mais ricos do sul passaram a se afastar dos conservadores por causa da aproximação do partido com o Brexit.

Nesse espaço de reorganização surgiu o crescimento de forças populistas, especialmente ligadas a Nigel Farage. O resultado foi um eleitorado mais fragmentado, com disputas que deixaram de ser definidas apenas pela divisão tradicional entre esquerda e direita.

Decisões que aceleraram quedas

Apesar dos fatores estruturais, escolhas feitas pelos próprios primeiros-ministros também contribuíram para suas saídas, de acordo com o The Guardian.

Cameron assumiu o risco de convocar o referendo sobre a União Europeia sem conseguir controlar o resultado. May tentou fortalecer sua posição convocando uma eleição antecipada em 2017, mas terminou perdendo a maioria parlamentar e ficou politicamente dependente de negociações internas.

Boris Johnson, eleito com ampla vantagem em 2019, perdeu apoio após sucessivas controvérsias envolvendo sua conduta pessoal. O episódio mais simbólico foi o escândalo relacionado a encontros realizados em Downing Street durante o período de restrições impostas pela pandemia.

Liz Truss teve a permanência mais curta entre os líderes recentes. Seu programa econômico provocou forte reação dos mercados, levando a uma crise de confiança.

Já Rishi Sunak e Keir Starmer enfrentaram dificuldades para apresentar uma mensagem política capaz de manter o apoio popular. No caso de Starmer, a pressão aumentou após resultados eleitorais ruins, conflitos internos no Partido Trabalhista e a saída de integrantes importantes do governo.

A economia como fonte de insatisfação

A fragilidade econômica aparece como outro elemento central da crise política britânica.

Desde a crise financeira de 2008, o Reino Unido passou por um período prolongado de crescimento fraco. A renda disponível avançou pouco, enquanto a inflação recente agravou a percepção de perda de poder de compra.

Paul Johnson, ex-diretor do Instituto de Estudos Fiscais, afirmou ao Financial Times que os últimos primeiros-ministros assumiram um país em que muitas pessoas sentem que não tiveram melhora significativa de vida por quase duas décadas.

A situação fiscal também reduziu a capacidade dos governos de responder às demandas sociais. A dívida pública cresceu de forma acelerada desde 2010, enquanto o custo para financiá-la aumentou. Mesmo com impostos em níveis elevados, uma parcela cada vez maior da arrecadação passou a ser destinada ao pagamento de juros.

A força dos conflitos internos dos partidos

A instabilidade também foi alimentada por mudanças no comportamento dos parlamentares britânicos.

Durante os anos de disputa sobre o Brexit, deputados passaram a organizar grupos próprios de pressão e desafiar com mais frequência seus líderes partidários. A experiência criou uma cultura em que primeiros-ministros passaram a ser vistos como mais facilmente substituíveis.

Hannah White, diretora do Institute for Government, afirmou ao Financial Times que o período do Brexit fortaleceu a disposição dos parlamentares de formar alianças independentes para influenciar decisões políticas.

A facilidade de coordenação por meio de aplicativos de mensagens também contribuiu para esse movimento. Na prática, líderes passaram a governar sob ameaça constante de rebeliões dentro das próprias bancadas.

Trocas frequentes dificultam projetos de longo prazo

A sucessão constante de primeiros-ministros também tem impacto sobre o funcionamento do Estado.

Cada mudança em Downing Street normalmente provoca alterações no gabinete, substituindo ministros e interrompendo planos antes que sejam concluídos. Gus O’Donnell, ex-chefe do serviço público britânico, afirmou ao The Guardian que a troca frequente de equipes prejudica áreas que dependem de planejamento de longo prazo. Ele citou a Previdência como exempl, em determinado período, o setor teve nove ministros diferentes em cinco anos.

Para especialistas, a questão não é apenas a qualidade individual de cada líder, mas o tempo necessário para administrar problemas complexos. Cath Haddon, do Institute for Government, disse ao jornal que governos precisam de estabilidade suficiente para formular políticas, ajustar propostas e colocá-las em prática.

Linha do tempo

  • 2010 - 2016: governo de David Cameron (Partido Conservador). Saída por renúncia.
  • 23 de junho de 2016: Referendo do Brexit.
  • 2016 - 2019: governo de Theresa May (Partido Conservador). Saída por renúncia.
  • 2019 - 2022: governo de Boris Johnson (Partido Conservador). Saída por renúncia.
  • 31 de janeiro de 2020: Brexit é oficializado
  • 2020 - 2022: pandemia de COVID-19
  • 2022: governo de Elizabeth Truss (Partido Conservador). Saída por renúncia.
  • 2022 - 2024: governo de Rishi Sunak (Partido Consevador). Saída após derrota eleitoral.
  • 2024 - 2026: governo de Keir Starmer (Partido Trabalhista). Saída por renúncia.
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