Como os eleitores da esquerda radical podem decidir a eleição na França

Menos da metade dos votos de Jean-Luc Mélenchon tem sido transferida ao atual presidente Emmanuel Macron, segundo as pesquisas. O segundo turno da eleição na França acontece neste domingo, 24 de abril
Mélenchon em campanha: candidato do França Insubmissa conseguiu 22% dos votos no primeiro turno (Benjamin Girette/Bloomberg/Getty Images)
Mélenchon em campanha: candidato do França Insubmissa conseguiu 22% dos votos no primeiro turno (Benjamin Girette/Bloomberg/Getty Images)
Por Da RedaçãoPublicado em 22/04/2022 08:00 | Última atualização em 22/04/2022 01:21Tempo de Leitura: 9 min de leitura

Os eleitores franceses vão às urnas neste domingo, 24, para o segundo turno da eleição presidencial entre o presidente Emmanuel Macron e a ultradireita de Marine Le Pen. E um grupo em especial pode ser decisivo no processo, caso escolha (ou não) comparecer: os eleitores mais à esquerda no páreo, que no primeiro turno votaram por Jean-Luc Mélenchon. 

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Candidato do movimento França Insubmissa, fundado por ele próprio, Mélenchon ficou em terceiro, com 22% dos votos. Por pouco não esteve perto de ir até mesmo ao segundo turno, o que seria inédito (Le Pen teve só 1,2 ponto a mais, 23,2% dos votos).

Mas, hoje, os eleitores de Mélenchon são o fiel da balança para garantir uma vitória de Macron, que por ora lidera nas pesquisas com dez pontos à frente de Le Pen, mas tem tido uma disputa dura contra a opositora.

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Como toda a esquerda francesa, Mélenchon é um ferrenho opositor de Le Pen, candidata do partido Reunião Nacional e cuja família representa há décadas a extrema-direita na França. Assim, o natural seria que votassem por Macron.

Mas a escolha não tem sido tão óbvia. Menos da metade dos votos de Mélenchon, no entanto, tem sido transferida ao atual presidente, enquanto parte grande de seus eleitores parecem perto de escolher a abstenção.

Uma das últimas pesquisas sobre a transferência de voto pós-primeiro turno, do Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop), divulgada nesta semana, mostra que:

  • 40% dos eleitores de Mélenchon planejam não ir às urnas; 
  • 39% dizem que votarão em Macron; 
  • e 20% votarão em Le Pen. 

Após o primeiro turno, Mélenchon afirmou que os eleitores não deveriam dar "um único voto" a Le Pen. Porém, também não citou diretamente o voto em Macron, pelo que foi criticado.

Em grande parte pelos eleitores de Mélenchon, a abstenção na eleição francesa deve ser de, no mínimo, 25%. No primeiro turno, já foi uma das mais altas da história: dos quase 49 milhões de eleitores aptos, mais de 26% não votaram.

Faixas na Universidade Sorbonne, na França, com dizeres "A revolução é um dever" e "Nem Macron, nem Le Pen": para do eleitorado de Mélenchon rejeita ambos os candidatos  (Sam Tarling/Getty Images)

A "frente ampla" contra Le Pen

Após o resultado no primeiro turno, quase todos os demais presidenciáveis declararam voto em Macron, ainda que com críticas. 

Uma frente da esquerda à direita se formou contra Le Pen, incluindo o Partido Socialista (centro-esquerda tradicional) e o Republicanos (centro-direita tradicional), além dos ambientalistas e dos comunistas.

Movimento parecido ocorreu em 2017, quando Le Pen e Macron já haviam disputado a Presidência. Mas veio sobretudo em 2002, quando o pai de Marine, Jean-Marie Le Pen, foi ao segundo turno de forma inédita. Le Pen "pai" saiu massacrado pelo conservador Jacques Chirac, que contou com apoio histórico de rivais da esquerda e teve mais de 80% dos votos.

“Vou votar em Macron para evitar a chegada de Le Pen ao poder e o caos resultante”, declarou neste mês a direitista Valérie Pécresse, dos Republicanos. Dos principais candidatos, só Éric Zemmour, também de extrema-direita, apoia Le Pen.

Emmanuel Macron e Marine Le Pen: o atual presidente lidera nas pesquisas com mais de 55% dos votos, mas também é altamente rejeitado (AFP/AFP)

Para Macron, um dos desafios é que muitos votaram em Mélenchon não por rejeição a Le Pen, mas por sua campanha focada no aumento do custo de vida, direitos trabalhistas e discurso contra as elites. São temas que Le Pen também explorou — e que ela conseguiu somar na campanha às pautas tradicionais da extrema-direita francesa, como anti-imigração e anti-União Europeia.

Na prática, portanto, essa parte dos eleitores de Mélenchon são os mais propensos a transferir o voto para Le Pen, sobretudo os mais pobres e com menor escolaridade, segundo as pesquisas.

O custo de vida foi central na campanha presidencial em meio à inflação alta em toda a Europa, piorada pela guerra na Ucrânia. Macron, por sua vez, tenta usar a seu favor a recuperação econômica pós-pandemia: a França cresceu 7% em 2021, a maior alta anual em meio século, e o desemprego caiu.

Do outro lado, há ainda a fatia do eleitorado de Mélenchon que, esta sim, tem posição à esquerda e rejeita fortemente Le Pen, mas que também não vê em Macron seu candidato ideal. São sobretudo jovens e eleitores de centros urbanos, que veem em Macron uma figura à direita.

É esse grupo que a campanha do presidente tenta motivar para levar às urnas, buscando usar temas em comum como visões progressistas nos costumes, a pauta ambiental e uma imagem de Le Pen como "mal maior".

A abstenção e relativa apatia do eleitorado com Macron no primeiro turno preocupa a campanha porque pode fazer com que a disputa fique mais apertada nos votos válidos. Em 2017, Macron venceu Le Pen com 66% dos votos, mas o placar largo não deve se repetir desta vez.

A coordenadora da campanha de Mélenchon, Adrien Quatennens, disse que Macron "tem responsabilidade pelo sucesso da extrema-direita hoje", e afirma que o presidente deve, agora, "fazer o que for necessário" para conquistar os eleitores do França Insubmissa, incluindo levar o programa mais para a esquerda.

A rejeição a Macron

Na eleição de 2017, Macron se vendeu na campanha como figura de novidade e renovação, o que o levou à vitória, mas, em 2022, ele chega ao pleito com alta rejeição acumulada.

Educado nas melhores faculdades da França e ex-banqueiro, o mandatário é visto como elitista e descolado dos anseios da população. O presidente defende reformas impopulares (como a idade mínima para aposentadoria aos 65 anos) e teve a imagem impactada logo no começo do mandato por protestos como os dos "coletes amarelos" a partir de 2018.

Há também uma rejeição frequente dos franceses a políticos que já estão no cargo, e Macron, se vitorioso, seria o primeiro presidente reeleito em duas décadas.

Enquanto isso, um de seus trunfos eleitorais, as negociações com o russo Vladimir Putin sobre a guerra na Ucrânia, deixaram de ser prioridade para o eleitor à medida em que o conflito se estendeu.

Ao mesmo tempo em que lidava com os desenrolares da crise de segurança na Europa, Macron foi criticado por ter demorado a começar a campanha dentro da França, o que analistas acreditam que o prejudicou.

Já Le Pen vem desde o começo da campanha moderando o discurso, feito campanha com crianças e idosos no interior e tentando imprimir uma nova imagem de conciliação e simpatia, o que a fez reduzir parte da rejeição que trazia anteriormente.

Por isso, no segundo turno, o presidente mudou a estratégia e rodou o país de norte a sul, tentando tirar o atraso dos últimos meses.

Le Pen em campanha no segundo turno: tentativa de se mostrar como acessível à população e preocupada com custo de vida, em oposição a Macron (CHRISTOPHE SIMON/AFP/Getty Images)

Como estão as pesquisas na França

Da frente anti-Le Pen à campanha intensa, Macron tem conseguido crescer nas pesquisas, incluindo entre o eleitorado de Mélenchon (o presidente chegou a ter só 33% dos votos do candidato de esquerda, e conseguiu subir seis pontos, para 39%, segundo o Ifop).

O Ifop apontou nesta quinta-feira, 21, que Macron tem 55,5% das intenções de voto, contra 44,5% de Le Pen.

Uma média das principais pesquisas feita pela agência Reuters aponta o mesmo resultado (56% Macron, 44% Le Pen). São cerca de três pontos a mais do que tinha na mesma pesquisa logo após o primeiro turno. 

Macron também se fortaleceu após um aquecido debate televisionado nesta quarta-feira, 21, em que analistas apontam que o presidente se saiu melhor do que a opositora, como já havia ocorrido em 2017.

"Apesar de uma performance decente, Marine Le Pen não conseguiu fazer do debate um divisor de águas", escreveu o colunista político do jornal francês Le Monde, Gilles Paris, e cravou: "Macron ganhou o debate. De novo". Pesquisa Ipsos chegou a dar 57% dos votos para o presidente após o evento.

Enquanto isso, fora da França, políticos da esquerda europeia pediram voto para Macron — e, sobretudo, contra Le Pen — nesta semana, em um texto conjunto.

Macron e Scholz: políticos de esquerda na Europa pediram voto ao presidente francês, apesar de sua posição criticada pela esquerda francesa (Kay Nietfeld - Pool/Getty Images)

A comunicação é assinada por António Costa, premiê de Portugal (do Partido Socialista, de centro-esquerda), Pedro Sánchez, premiê da Espanha (do PSOE, centro-esquerda) e Olaf Scholz, chanceler da Alemanha (do social-democrata SPD), que afirmam que o segundo turno francês não é "uma eleição normal".

"A escolha que o povo francês enfrenta é crucial — para a França e para cada um de nós na Europa", diz a mensagem. Os políticos lembraram ainda a relação de Le Pen com Putin, a quem Le Pen elogiou no passado e de quem vem tentando se distanciar desde o começo da guerra na Ucrânia.

Mesmo sem ter todo o eleitorado de Mélenchon, Macron ainda é o favorito para seguir no Palácio do Eliseu. A eleição neste domingo deixará claro se a frente ampla anti-Le Pen — ainda que não tão forte quanto esperado — surtirá resultado.

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