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Como Christina Kirchner foi de poderosa líder argentina a ré

Combativa, temperamental e astuta, esta advogada de profissão, de 69 anos, denunciou o julgamento desde o primeiro minuto como uma perseguição política

 (AFP/AFP Photo)

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A
AFP

7 de dezembro de 2022, 09h30

A vice-presidente argentina, Cristina Fernández de Kirchner, figura central da política argentina nos últimos 20 anos, tão amada por seus apoiadores quanto odiada por seus detratores, foi condenada nesta terça-feira (6) a seis anos de prisão em um julgamento polêmico por corrupção que ela chamou de "pelotão de fuzilamento". 

Combativa, temperamental e astuta, esta advogada de profissão, de 69 anos, denunciou o julgamento desde o primeiro minuto como uma perseguição política e desmentiu a acusação dos procuradores, ao assegurar que por mais de três anos de audiências "não foram apresentadas provas" de crimes, apesar das afirmações do Ministério Público.

Presidente por dois mandatos entre 2007 e 2015, Kirchner foi julgada por corrupção na atribuição de licitações de obras públicas na província de Santa Cruz (sul), seu berço político. Ela é a líder de um setor de centro-esquerda do peronismo.

Seus foros e apelações certas a preservam de ser presa enquanto não houver trânsito em julgado na Suprema Corte. Por este motivo, poderia se candidatar às eleições gerais de 2023.

No entanto, ela descartou que vá disputar algum cargo eletivo no ano que vem.

"Não serei candidata a nada, nem a senadora, nem a deputada, nem a presidente da Nação", anunciou por meio das redes sociais após a sentença proferida nesta terça-feira.

A sentença inclui sua inabilitação perpétua para ocupar cargos públicos por considerá-la autora do crime de administração fraudulenta.

O julgamento transcorreu em um clima de intensa polarização política e de deterioração da situação econômica na Argentina.

Dias depois de o Ministério Público pedir 12 anos de prisão e a inabilitação política permanente da ex-presidente, ela foi atacada por um homem que puxou duas vezes o gatilho de uma pistola muito perto de sua cabeça, mas a arma não disparou.

O autor do atentado se misturou às centenas de apoiadores que faziam vigília em frente à sua casa em Buenos Aires para prestar solidariedade a Cristina.

"Sinto que estou viva por Deus e pela Virgem", disse ela em sua primeira aparição pública.

Casal "K"

Esta captura de tela obtida de um vídeo publicado pelo canal do YouTube de Cristina Fernandez de Kirchner mostra a vice-presidente falando durante seu julgamento de seu escritório no Congresso Nacional em Buenos Aires

Viúva do ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), falecido em 2010, ela e o marido eram associados à letra "K", denominação com a qual os argentinos se referem tanto ao casal quanto aos seus apoiadores.

Cristina se casou com Néstor Kirchner quando eram estudantes de Direito na Universidade de La Plata (a 60 km de Buenos Aires). Desde então, apresentaram-se como um casal inseparável. Eles tiveram dois filhos: Máximo, um parlamentar, e Florencia, uma cineasta que nunca atuou na política.

"Desde que nos conhecemos, eu e Néstor nunca mais nos separamos", escreveu Cristina em seu livro autobiográfico, "Sinceramente".

Militantes peronistas universitários, Néstor e Cristina Kirchner ficaram detidos por 17 dias em janeiro de 1976, pouco antes do golpe que instaurou a última ditadura militar (1976-1983).

A partir deste episódio, concentraram-se em um escritório jurídico na cidade de Río Gallegos (sul). A ex-presidente disse que a iniciativa foi muito bem sucedida e criou os alicerces de uma fortuna que lhes permitiu comprar mais de 20 imóveis na Patagônia.

Passada a ditadura, começaram suas carreiras políticas. Os dois chegaram à Presidência com um plano concertado. "Pensávamos na necessidade de assegurar com o tempo um processo político virtuoso de transformação", escreveu ela em seu livro.

Diferenças com Fernández

A vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, foi condenada a 6 anos de prisão. A política também foi condenada à inabilitação perpétua.

Em 2019, Alberto Fernández foi eleito presidente com Cristina Kirchner como companheira de chapa, mas ela se distanciou dele em seguida, às vezes com duras críticas públicas a ele e seus colaboradores.  

A penosa crise econômica da Argentina, com uma inflação que pode terminar 2022 em 100% anual, e sua resistência a um acordo com o Fundo Monetário Internacional a distanciaram cada vez mais do presidente.

Seus dois mandatos na Presidência, em pleno boom das commodities, se caracterizaram por políticas protecionistas e programas de assistência social, que aumentaram os gastos públicos.

Ela enfrentou o poder real, como os proprietários rurais, os grandes meios de comunicação e as instituições financeiras internacionais, embora também tenha apoiado empresários alinhados.

Aproximou-se dos líderes da esquerda latino-americana. Cristina lembra com afeto de Fidel Castro e Hugo Chávez. Também valoriza sua relação com o papa Francisco.

Enquanto foi presidente, foram aprovados o casamento entre pessoas do mesmo sexo e uma lei de identidade de gênero. Como presidente do Senado, acompanhou a aprovação da lei do aborto em 2020.

Filha de um motorista de ônibus e uma dona de casa, Cristina Kirchner reivindica suas origens de classe.

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