Mundo fragmentado: estudo aponta uma fragmentação acentuada entre países desenvolvidos e emergentes, além de um cenário marcado por insularidade e medo da desinformação
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 11h13.
Última atualização em 22 de janeiro de 2026 às 18h10.
Em um momento em que a confiança global passa por um processo de reorganização, as empresas despontam como as instituições mais confiáveis. É o que revela o Edelman Trust Barometer 2026, pesquisa que avalia anualmente os níveis de confiança em 28 países.
Nesta edição, o estudo aponta uma fragmentação acentuada entre países desenvolvidos e emergentes, além de um cenário marcado por insularidade e medo da desinformação, que desafia governos, organizações e lideranças.
O índice global de confiança subiu ligeiramente, de 56 para 57 pontos, impulsionado por economias como China (80 pontos), Índia (74) e Indonésia (73). Já entre os países desenvolvidos, os níveis seguem baixos, com destaque negativo para Japão (38), França (42) e Reino Unido (44).
“O mundo está cada vez mais dividido entre sociedades que avançam com otimismo e aquelas paralisadas pelo medo”, afirma o relatório.
Segundo o documento, 70% das pessoas evitam confiar em quem pensa diferente delas. O fenômeno, descrito como “mentalidade insular”, ganha força especialmente em ambientes marcados por polarização e desgaste institucional.
“Quando as pessoas se sentem frustradas com as instituições e cansadas das divisões sociais, elas se fecham em seus círculos mais próximos e passam a olhar para os outros com mais desconfiança. É uma reação compreensível, mas que também pode ser perigosa”, afirma Drake Baer, vice-presidente sênior do Edelman Trust Institute.
A consequência é um ambiente social fragmentado, no qual a confiança nas diferenças se dissolve e o espaço para o diálogo se estreita. A pesquisa aponta que 7 em cada 10 pessoas estão relutantes em confiar em alguém que possui valores, crenças, fontes de informação ou origens culturais distintas.
“A insularidade não é apenas uma questão de afinidade; ela mina a base da coesão social”, diz o estudo. Para os autores, essa relutância em dialogar com o diferente gera um ciclo de desconfiança entre indivíduos, instituições e governos.
Pelo sexto ano consecutivo, as empresas são vistas como as instituições mais confiáveis, superando governos, ONGs e a mídia tanto em competência quanto em ética.
“O público responde a resultados concretos — e é exatamente isso que as empresas conseguem entregar”, diz Baer.
Para o executivo, esse protagonismo eleva a responsabilidade dos líderes corporativos: “À medida que a confiança se torna mais insular, cresce a desconfiança em relação a instituições lideradas por pessoas vistas como ‘diferentes’. Isso impõe um desafio profundo à liderança de grandes organizações”, diz.
O estudo também mostra que CEOs são hoje mais confiáveis do que líderes eleitos — e que as empresas têm papel central como mediadoras de confiança em tempos de polarização.
“As pessoas estão se voltando para quem conhecem diretamente. O vínculo de confiança deixou de ser institucional e passou a ser pessoal”, afirma Baer.
Apesar do papel de destaque das empresas locais, o estudo detecta aumento da desconfiança em relação a companhias estrangeiras.
“As empresas sediadas no próprio país são sistematicamente mais confiáveis do que empresas estrangeiras”, afirma o relatório. Essa preferência é especialmente forte no Reino Unido, Japão, Estados Unidos e Alemanha.
O relatório aponta um cenário de desconfiança generalizada, agravado por medos em torno da manipulação da informação e pela percepção de um futuro incerto.
Segundo o estudo, 65% das pessoas temem que atores estrangeiros estejam contaminando propositalmente a mídia local com falsidades para inflamar divisões internas — o índice mais alto já registrado pela pesquisa, com aumento de 11 pontos em cinco anos.
“A preocupação com que atores estrangeiros contaminem propositalmente nossa mídia com falsidades para inflamar nossas diferenças”, afirma o documento.
Ao mesmo tempo, apenas 39% dos entrevistados dizem consumir conteúdos com viés político diferente do seu pelo menos uma vez por semana, uma queda de 6 pontos em relação a 2025. Essa exposição diminuiu em 20 dos 28 países avaliados, evidenciando o avanço da insularidade informacional.
Nesse contexto de desinformação crescente, os empregadores se tornaram fontes de informação mais confiáveis do que governos ou imprensa, consolidando seu papel como agentes-chave no ecossistema de confiança.
"Em um momento em que a integridade da informação está sob constante questionamento, as organizações não podem subestimar o peso da sua própria influência informacional”, diz Drake Baer, vice-presidente sênior do Edelman Trust Institute.
O pessimismo com o futuro também se intensifica. Apenas 32% acreditam que a próxima geração estará em melhor situação afirma o relatório — o menor nível da série histórica, com quedas acentuadas em países como Singapura, Tailândia, Índia e China.
Para Baer, esse dado reforça a necessidade de vínculos mais consistentes. “Relacionamentos de longo prazo são uma base mais sólida de confiança do que interações de curto prazo”, diz.
A pesquisa ainda mostra que a inteligência artificial é motivo de apreensão, sobretudo entre as populações de baixa renda.
Entre esses grupos, 54% acreditam que ‘pessoas como eu serão deixadas para trás, em vez de colher vantagens reais da IA generativa’. Essa percepção é particularmente elevada no Reino Unido (71%) e nos Estados Unidos (65%).
A confiança, conclui o estudo, está migrando do institucional para o relacional — e exige consistência, transparência e proximidade para ser reconstruída.