Brasil pode se beneficiar de embate entre Trump e Biden, diz estrategista da Global X

Malcolm Dorson vê o país como um dos emergentes mais atraentes para investimentos, e que afastamento dos EUA da China pode trazer ainda mais capital

Joe Biden e Donald Trump, principais candidatos na disputa presidencial dos EUA em 2024 (AFP)
Joe Biden e Donald Trump, principais candidatos na disputa presidencial dos EUA em 2024 (AFP)
Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de macroeconomia

Publicado em 14 de fevereiro de 2024 às 12h27.

Última atualização em 14 de fevereiro de 2024 às 15h58.

O Brasil é um dos países mais atraentes para investidores estrangeiros em 2024 e pode se beneficiar da disputa nas eleições presidenciais nos Estados Unidos, avalia Malcolm Dorson, estrategista-chefe de mercados emergentes na Global X, empresa de investimentos ligada à Mirae Asset. 

Em entrevista à EXAME, Dorson avalia que, na provável disputa final entre Joe Biden e Donald Trump os dois deverão fazer campanha prometendo endurecer a postura contra a China, como elevar tarifas de importação, o que pode conter o crescimento chinês. "Mas quando pensamos sobre isso da perspectiva de investimentos, o Brasil é beneficiário de um enfraquecimento da China, assim como da Índia, pois os fluxos de investimento que tem saído da China, que representa cerca de 30% dos índices de mercados emergentes, têm buscado outras áreas para realocar capital, e o Brasil tem sido um grande beneficiado disso. E isso balanceia outros riscos, como o da eleição americana e a redução de ritmo de crescimento chinês", aponta.

Apesar do esfriamento chinês, Dorson pondera que o país segue em ritmo forte. "Mesmo em um ano difícil para a China, o país ainda entregou 5,2% de crescimento, e o governo só começou a implantar estímulos fiscais e monetários em junho. Eles levam tempo para realmente impactar a economia real. Os estímulos não tem sido como uma bazuca, mas fortes o suficiente. Vamos ver isso realmente tendo efeito no crescimento chinês na primeira metade deste ano", projeta

Sobre o otimismo com o Brasil,  a principal razão citada por Dorson é a atuação do Copom, que subiu de modo acelerado a taxa Selic de 2% para 13%, entre 2021 e 2022. A taxa hoje está em 11,25% ao ano. 

"O trabalho do Banco Central para conter a inflação foi fantástico. Ao mesmo tempo em que as taxas de juros subiram, eles não cortaram o crescimento por completo. Eles ainda viram o FDI (investimento estrangeiro direto) em taxas reais positivas, uma queda no desemprego e ainda alguns números de crescimento positivo, o que é notável em um ambiente de juros altos", aponta ele, que fica baseado em Nova York.

Malcolm Dorson, estrategista-chefe de mercados emergentes na Global X (Divulgação)

Assim, o BC brasileiro conseguiu ficar em condições de iniciar a redução da taxa de juros de forma consistente, sem ter de esperar os movimentos de países desenvolvidos. "Isso é raro em mercados emergentes. O mais comum é ver os BCs ficarem meio que esperando o que o FED e o BCE (Banco Central Europeu) vão fazer antes de fazerem seus próprios movimentos", diz Dorson.

O segundo principal ponto que motiva o investidor é que a queda na Selic levará mais gente ao mercado de capitais. "Muitos fundos estão agora com amplos investimentos em renda fixa, porque eles podem ganhar 1% ao mês apenas por ficarem com títulos brasileiros. Conforme as taxas de juros caem, vamos ver uma tremenda quantidade de capital saindo da renda fixa, o que deve impactar os preços e a performance do mercado brasileiro, especialmente porque estamos vindo de um base muito baixa de avaliações no Brasil", aponta.

Ao mesmo tempo, a taxa de juros mais baixa fará com que as empresas e pessoas paguem menos para rolarem suas dívidas e para obterem empréstimos, o que aumentará o consumo doméstico.

Impulso por melhoria fiscal

Dorson considera que o cenário externo não é a principal questão para o Brasil. "A maior preocupação é sempre a situação política doméstica. O impulso é forte para melhorias fiscais e metas para um orçamento equilibrado. Se o governo decidir se afastar disso, se começarmos a ver mais intervenções políticas nos mercados privados ou no trabalho do ministro da Fazenda, se vermos uma troca de Haddad por uma ou outra razão, isso poderia se traduzir em quedas significativas para o mercado de capitais."

"A maior parte das razões porque as pessoas estão ficando confiantes no Brasil é a melhora nas instituições brasileiras. Alguns anos atrás, vimos grande força do Judiciário com a Operação Lava Jato e a habilidade de processar pessoas em alguns dos níveis mais altos de governo. Vimos o Banco Central ter autonomia assegurada e se tornar capaz de agir de modo mais proativo. Todos esses foram ventos de cauda para o Brasil e razões para as pessoas ficarem excitadas com o mercado brasileiro".

Dorson aponta que esse otimismo não passa despercebido pelas agências de avaliação de risco, como S&P e Fitch. "Essas agências estão prestando atenção de perto às melhorias que o Brasil está fazendo, da perspectiva estrutural e institucional, e isso se traduz na possibilidade de melhoria das notas", aponta.

Outras razões para o otimismo com o Brasil, para a Global X, são que o país tem crescido acima das previsões há vários trimestres, está aumentando a produção de petróleo e deve se tornar o quarto maior fornecedor global até 2029 e tem boas reservas cambiais e dívida baixa em dólares, em torno de 16% do PIB. 

Mais de Mundo

Detroit vai de falida à liderança do boom imobiliário nos EUA

Novas regras entram em vigor para obtenção da cidadania portuguesa

Mais de 110 pessoas são sequestradas por supostos jihadistas no Mali

Julgamento de Donald Trump entra em fase decisiva

Mais na Exame