Biden realiza viagem delicada à Arábia Saudita depois de assassinato de jornalista

Biden começa sua viagem em Israel na quarta-feira (13), mas todos os olhares estarão voltados para sua viagem a Jidá, na Arábia Saudita
Joe Biden: presidente já chamou Arábia Saudita de "Pária" (Al Drago/Bloomberg/Getty Images)
Joe Biden: presidente já chamou Arábia Saudita de "Pária" (Al Drago/Bloomberg/Getty Images)
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AFPPublicado em 11/07/2022 às 10:34.

Depois de chamar a Arábia Saudita de "pária" pelo assassinato de um jornalista dissidente, o presidente dos EUA, Joe Biden, se prepara para se reunir com líderes sauditas durante uma visita delicada ao Oriente Médio. 

Biden começa sua viagem em Israel na quarta-feira (13), mas todos os olhares estarão voltados para sua viagem a Jidá, na Arábia Saudita, na sexta (15).

O Air Force One fará um voo direto sem precedentes entre o Estado hebraico e um país que não reconhece Israel. Donald Trump fez a mesma viagem em 2017, mas no sentido contrário.

Como candidato à presidência, Biden afirmou que o assassinato em 2018 de Jamal Khashoggi - saudita que morava nos Estados Unidos e conhecido por seus artigos críticos aos líderes sauditas no jornal The Washington Post - transformou a Arábia Saudita em um país "pária".

Depois de vencer as eleições, Biden divulgou as conclusões dos serviços de inteligência americanos sobre o crime: o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (MBS) foi o autor intelectual do assassinato.

- Cheque em branco -

Agora, no entanto, Biden parece querer se aproximar de um país que foi durante décadas um aliado estratégico dos Estados Unidos, um importante fornecedor de petróleo e um ávido comprador de armas.

"Na Arábia Saudita revertemos a política de cheque em branco que herdamos do ex-presidente Donald Trump", escreveu Biden em um artigo de opinião publicado no sábado no The Washington Post.

"Desde o início, meu objetivo foi reorientar - mas não romper - as relações", acrescentou.

"Sei que muitos não estão de acordo com minha decisão de viajar à Arábia Saudita. Minhas posturas sobre os direitos humanos são claras e de longa data, e as liberdades fundamentais sempre estão na agenda quando viajo, e estarão durante esta viagem", afirmou.

Jon Alterman, vice-presidente do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) de Washington, disse que o governo de Biden "descobriu o que os governos americanos realizam há décadas: que fazer coisas no Oriente Médio e em todo o mundo é muito mais fácil se os sauditas te ajudam e muito mais difícil se não ajudam".

Em seu artigo, Biden afirma que a Arábia Saudita "trabalha com especialistas (americanos) para ajudar a estabilizar os mercados do petróleo".

Washington deseja que o maior exportador de petróleo do mundo abra a torneira e com isso reduza os preços da gasolina, uma ameaça para os democratas antes das eleições de meio de mandato.

Interesses sobre valores

"Os interesses e o bem-estar de quem dirige um Ford Expedition sempre foram às custas de ativistas corajosos da região que querem viver em sistemas mais abertos e democráticos", disse Steven Cook, analista do Conselho de Relações Exteriores, referindo-se a veículos que consomem muita gasolina, muito populares entre os americanos.

A Arábia Saudita também é fundamental no confronto entre EUA e Irã.

A Casa Branca sabe que a leitura do encontro com MBS, que fará parte da delegação do rei Salman em sua reunião com Biden, também está em jogo nesta viagem.

Marti Flacks, especialista em direitos humanos do CSIS, diz que a Casa Branca provavelmente passou muito tempo projetando a encenação da reunião, seja em público ou a portas fechadas.

Biden não quer parecer um cínico que renega seus princípios por causa de alguns barris de petróleo, mas a presença de MBS pode alterar a reunião.

O presidente dos EUA se apresenta como facilitador de "tendências promissoras" na região e como estrategista diante de tensões, como o programa nuclear do Irã, a guerra no Iêmen e os conflitos na Síria, Líbia, Iraque e Líbano.

Ameaças à visita

Biden pretende "aprofundar e ampliar" o processo de normalização das relações entre Israel e os Estados árabes, iniciado sob o mandato de Trump.

Além do simbólico voo do Air Force One, os analistas esperam notícias sobre as relações entre Arábia Saudita e Israel.

O Estado hebreu está disposto a receber Biden com grande pompa, inclusive em meio à turbulência política, já que se prepara para organizar em novembro suas quintas eleições em menos de quatro anos.

Biden se reunirá com o primeiro-ministro Yair Lapid, mas seus assessores querem que se reúna também com o presidente palestino, Mahmud Abbas.

A morte recente de uma jornalista também ameaça a visita. A família de uma repórter americana-palestina da Al Jazeera, Shireen Abu Akleh, assassinada em maio durante uma operação israelense, pediu para se reunir com Biden, solicitação ignorada pela Casa Branca até agora.