Biden fala em “superar temporada de escuridão”

No discurso que fechou a convenção do Partido Democrata, o candidato disse que a eleição é ‘uma batalha pela alma’ dos Estados Unidos

Joseph Robinette Biden Jr., 77, fez na noite de ontem o discurso mais importante de seus 47 anos de vida pública. Ao aceitar a candidatura presidencial do Partido Democrata, numa eleição descrita por muitos como uma das mais cruciais das últimas décadas, Biden prometeu “superar esta temporada de escuridão”.

Falando num auditório praticamente vazio por causa da pandemia, com imagens transmitidas ao vivo pela TV e pela internet, ele descreveu a eleição de novembro como uma “batalha pela alma” dos Estados Unidos.

“Que a história possa dizer que o fim desse capítulo de escuridão americana começou hoje, nesta noite, com o amor, a luz e a esperança entrando na batalha pela alma do país”, disse Biden.

“O caráter estará na cédula. A compaixão, a decência, a ciência, a democracia: tudo isso estará na cédula”, afirmou o candidato da oposição, numa referência à condução da crise do coronavírus por Donald Trump, que já causou a morte de 170 000 americanos.

Os Estados Unidos passam por uma tempestade perfeita, nas palavras de Biden.

“Quatro crises históricas ao mesmo tempo: a pandemia, a pior crise econômica desde a Grande Depressão, chamados urgentes por justiça racial e as inegáveis realidades e ameaças da mudança climática”, afirmou Biden

O candidato mencionou o New Deal, extenso programa de reformas estruturais implementado por Franklin Roosevelt nos anos 1930. Também evocou o passado ao falar dos eventos de Charlottesville, há três anos, quando integrantes de grupos de extrema direita fizeram uma manifestação na cidade que terminou em violência.

“Feche os olhos e lembre dos neonazis, dos klansmen [membros do grupo racista Ku Klux Klan], dos supremacistas brancos carregando tochas, com as veias saltadas, despejando a mesma bile anti-semita ouvida na Europa nos anos 1930”, disse Biden.

“E lembre do que o presidente disse: havia ‘pessoas muito boas dos dois lados’. Foi um alerta para o país. E para mim um chamado à ação. Naquele momento soube que teria de ser candidato. Meu pai me ensinou que silêncio é cumplicidade.”

 

 

Biden mencionou os protestos que chacoalharam o país depois do assassinato de George Floyd por policiais na cidade de Minneapolis, no fim de maio, e fez elogios a sua candidata a vice, Kamala Harris, a primeira mulher negra e primeira descendente de asiáticos a ser candidata a vice (sua mãe imigrou da Índia).

Biden também acenou para republicanos desencantados com Trump e prometeu ser o “candidato democrata, mas o presidente americano”.

Ele falou das propostas de criar empregos verdes, de estimular a indústria nacional e prometeu acabar com os cortes de impostos que só beneficiaram “o 1% dos americanos mais ricos”, num aceno claro à ala esquerdista de seu partido, que quer aumentar a taxação dos bilionários e acabar com as brechas legais aproveitadas pelas grandes empresas.

Em relação à pandemia, Biden afirmou que a partir do primeiro dia colocará um plano em ação – algo que Trump não fez até hoje, disse o democrata. “Ele [Trump] fica esperando um milagre. Tenho uma notícia para ele: não vai ter milagre.”

Biden também afirmou que vai tornar obrigatório o uso de máscaras em todo o país e que vai “tirar a mordaça dos especialistas”. “As pessoas ouvirão a verdade nua e crua. Elas aguentam.”

Sem mencionar o nome do adversário nem uma vez sequer, o democrata estabeleceu os termos da campanha daqui até 3 de novembro: uma escolha entre um presidente que promove a dissensão e ameaça os valores fundamentais da sociedade americana ou um homem capaz de unir o país num momento de crise aguda.

 

Caráter e empatia

Oficialmente, a noite tratou da “Promessa da América”, mas o tema real foi o caráter de Biden, sempre oferecendo contrapontos — explícitos ou não — com a personalidade de Donald Trump.

Um dos pontos que serão repetidos à exaustão nos próximos dois meses é a capacidade de empatia de Biden com aqueles que sofreram perdas trágicas, como ele.

A primeira mulher do candidato, Neila, morreu num acidente de carro em 1972, que também vitimou a única filha do casal. Três décadas depois, Biden perdeu o filho mais velho, Beau, para um câncer no cérebro. Uma montagem lembrou Beau Biden, que se alistou na Guarda Nacional depois dos atentados de 11 de setembro e depois foi secretário da Justiça do estado de Delaware.

Numa videoconferência, sete candidatos derrotados por Biden nas primárias conversaram sobre as experiências que tiveram com o candidato durante as prévias do partido. “É como um daqueles vídeos com participantes de reality shows que foram eliminados do programa”, disse o senador Cory Booker.

A senadora Elizabeth Warren lembrou de um discurso feito por Biden na comemoração do primeiro aniversário do atentado a bomba na maratona de Boston. “No meio da fala, ele mudou e passou a falar diretamente para os pais das vítimas. Ele entende a dor.”

Mas o momento mais tocante da noite foi a aparição de Brayden Harrington, um menino de 13 anos que conheceu o candidato no início do ano. Harrington gagueja, como Biden gaguejava na infância. Ele contou – gaguejando em alguns momentos, diante de uma audiência de milhões de pessoas – as técnicas que aprendeu com o candidato, que envolvem recitar em voz alta poemas de W.B. Yeats.

Um pouco de comédia

A apresentadora da noite foi a atriz Julia Louis-Dreyfus, a Elaine de “Seinfeld” e a vice-presidente Selina Meyer da comédia política “Veep”. Dreyfus abriu a programação pedindo que os democratas não deixem de votar: “Se todos votarem, não há nada que o Facebook, a Fox News ou Vladimir Putin possam fazer”.

O tom de humor continuou ao longo da noite inteira. Dreyfus disse que ela vai votar pelo correio (“como Trump”) e que o presidente trapaceia em seus jogos de golfe.

Sarah Cooper, comediante que ficou famosa nacionalmente durante a pandemia dublando discursos e declarações de Trump, fez uma aparição surpresa. Ela apareceu dublando Trump levantando suspeitas sobre a votação pelo correio.

Um segmento da programação de ontem foi dedicado a assegurar os americanos que votar pelo correio é tão seguro quanto votar presencialmente. Com a pandemia ainda fora do controle em muitas partes do país, o voto à distância deve ser a modalidade escolhida por dezenas de milhões de americanos.

As regras variam de acordo com o estado, mas a imensa maioria dos eleitores pode requisitar sua cédula com antecedência, preenchê-la e devolvê-la pelo correio. Nos últimos dias, o novo diretor do correio, Louis DeJoy, a anunciou uma série de cortes, o que levou os democratas a acusar Trump de tentar interferir na eleição. Ontem, afirmou que as mudanças estão suspensas até a eleição.

Mais republicanos descontentes

Horas antes do discurso de Biden, um grupo de 70 republicanos de destaque, todos da área de segurança nacional e alguns ex-integrantes do atual governo, publicou uma carta aberta aos americanos alertando para o risco de reeleger Donald Trump.

“Estamos profundamente preocupados com os caminhos de nossa nação sob a liderança de Donald Trump”, diz o texto. “Com suas ações e sua retórica, Trump demonstrou não ter o caráter e a competência para liderar este país e se envolveu em comportamento corrupto que o torna inapto a servir como presidente.”

A carta lista dez motivos pelos quais Joe Biden deveria ser eleito, entre eles os danos causados por Trump à reputação dos Estados Unidos de líder global, o alinhamento com ditadores e as tentativas de dividir o país. “Trump consistentemente procura incitar divisões políticas, raciais e étnicas, enfraquecendo a nação e deleitando nossos adversários”, afirma a carta.

Entre os signatários estão William Webster (ex-diretor da CIA e do FBI), Richard Armitage (ex-vice secretário de Estado), Chuck Hagel (ex-secretário da Defesa) e Michael Hayden (ex-diretor da CIA e da NSA).

Alguém assistiu?

Os números das duas primeiras noites da convenção ficaram muito abaixo dos totais registrados quatro anos atrás, segundo a Nielsen Media Ratings, que faz mede a audiência da TV americana. Mas esses números podem não contar a história completa.

Segundo a Nielsen, a noite de terça-feira teve 6,3 milhões de telespectadores nas três redes abertas, uma queda de 48% em relação à segunda noite da convenção democrata de 2016. A primeira noite teve uma queda de 42% em comparação com quatro anos atrás.

Quando se incluem as redes de TV paga, como CNN e Fox News, a queda foi um pouco menor, mas ainda significativa: 27% na noite inaugural do maior evento político da TV americana.

T.J. Ducklo, porta-voz da campanha de Biden, disse no Twitter que a audiência por canais alternativos aumentou em relação a 2016. A campanha está “produzindo uma convenção digital, e as pessoas estão assistindo”, afirmou Ducklo. Além da TV, a programação foi transmitida no site oficial do Partido Democrata, no YouTube, em redes sociais como Twitter e Facebook.

Quando foram anunciados os planos de convenções “pouco convencionais”, havia muitas dúvidas sobre a eficácia do formato, mas as opiniões em geral foram positivas. A produção foi ágil, com variedade de cenários, números musicais e um ritmo parecido com um programa de TV, não um comercial político. E, acima de tudo, não houve nenhuma falha técnica importante que pudesse virar meme ou munição para o adversário.

A falta da reação do público causa estranheza, mas por outro lado permite que falas contundentes como as de Barack e Michelle Obama, com críticas ferozes a Trump, parecessem mais solenes e incisivas.

A convenção republicana também terá duração de quatro dias e começa na segunda-feira. Em entrevista ao New York Post, Trump afirmou que vários discursos devem ser feitos nos jardins da Casa Branca, inclusive o dele, previsto para a quinta-feira.

Mas, segundo os analistas políticos, as convenções são só uma formalidade e uma festa para animar a militância. A campanha de verdade – e eventuais reviravoltas — acontece nos dois últimos meses antes da eleição.

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