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Bastidores de Trump e escolha do novo secretário-geral: o que deve dominar Assembleia da ONU

O encontro confirmado com a Venezuela, o aceno em aberto a Lula e a disputa pela sucessão de Guterres marcam a semana

Autoridades da ONU na abertura da 81ª Assembleia Geral: Guterres, Khalilur Rahman e Movses Abelian. (Loey Felipe/Flickr)

Autoridades da ONU na abertura da 81ª Assembleia Geral: Guterres, Khalilur Rahman e Movses Abelian. (Loey Felipe/Flickr)

Lia Rizzo
Lia Rizzo

Editora ESG

Publicado em 19 de setembro de 2026 às 08h00.

Última atualização em 19 de setembro de 2026 às 08h28.

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Nova York - A diplomacia dos bastidores promete rivalizar com os discursos oficiais na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, cuja semana de alto nível começa nesta segunda-feira, 21, em Nova York.

Enquanto os chefes de Estado se revezam entre discursos a partir de terça, 22, a agenda paralela de Donald Trump concentra boa parte da expectativa em torno do evento. Ela inclui um encontro já confirmado com a Venezuela e a possibilidade de uma breve reunião com o presidente Lula.

Pela tradição de décadas, o Brasil discursa primeiro no Debate Geral, ponto alto da temporada, seguido pelos Estados Unidos.

É justamente essa sequência que mais uma vez alimenta especulações sobre um contato entre os dois presidentes, visto que enquanto um deixa a área reservada do plenário, o outro se prepara para entrar.

Venezuela confirmada, Lula em aberto

O compromisso mais concreto da agenda de Trump foi confirmado nesta sexta-feira, 18, por meio do embaixador americano na ONU, Mike Waltz: um encontro do tipo pull-aside com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez.

Trata-se de um formato mais informal do que uma reunião bilateral com pauta e assessores e, conforme o portal Axios, a conversa poderia ocorrer já na terça-feira mesmo.

O gesto tem peso simbólico, por ser o primeiro encontro entre Trump e a atual liderança venezuelana, visto que Washington trata Caracas como vitrine de sua política externa.

Com o Brasil, não há reunião bilateral formal prevista e nenhum dos dois governos apresentou pedido oficial nesse sentido. Ainda assim, o Palácio do Planalto considera provável que um breve encontro pessoal nos bastidores volte a ocorrer, nos moldes do que aconteceu no ano passado.

Em 2025, Lula e Trump conversaram por cerca de 39 segundos na troca de oradores. A partir desse episódio, o presidente americano afirmou ter sentido uma "química" com o brasileiro, e o breve diálogo abriu um canal que levaria a encontros posteriores na Malásia e na Casa Branca, além de telefonemas.

O principal compromisso político de Lula fora da sede da ONU, até agora, não é com Trump, mas com um adversário dele: o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, uma das vozes mais conhecidas da esquerda americana, que solicitou o encontro, previsto para segunda-feira.

A agenda ainda pode mudar, já que o presidente quer reservar tempo para preparar o discurso de abertura, centrado na defesa da soberania nacional.

Quem sucede Guterres? Disputa domina os bastidores

Por trás dos discursos, a corrida pela sucessão de António Guterres, atual secretário-geral da ONU, deve monopolizar as conversas diplomáticas.

Esta é a última Assembleia a começar sob o comando do português, cujo segundo e último mandato termina em 31 de dezembro. O sucessor assume em 1º de janeiro de 2027.

Nesta sexta-feira, o Conselho de Segurança realizou sua terceira votação informal e secreta, as chamadas straw polls, para medir o apoio a cada candidato às vésperas da chegada dos líderes. Nesse mecanismo, cada um dos 15 integrantes do Conselho registra, para cada nome, se o "encoraja", o "desencoraja" ou não manifesta opinião.

Segundo diplomatas afirmaram a algumas publicações, a costa-riquenha Rebeca Grynspan liderou a rodada, com nove votos de "encorajar" contra cinco de "desencorajar".

Logo atrás apareceu a guianense Carolyn Rodrigues-Birkett, com oito a favor e seis contra, enquanto o argentino Rafael Grossi, diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, somou cinco "encorajar" e oito "desencorajar".

Completam o campo o ex-presidente senegalês Macky Sall, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, a ex-chanceler equatoriana María Fernanda Espinosa, o ugandense Olara Otunnu e a equatoriana Ivonne A-Baki.

Vários membros do Conselho já sinalizaram o desejo de ver, pela primeira vez em oito décadas, uma mulher no cargo.

As votações, porém, não têm valor oficial. Servem apenas para ir estreitando o campo antes de o Conselho recomendar um único nome à Assembleia, que costuma ratificar a escolha.

E então, um candidato precisa de ao menos nove votos favoráveis no pleito formal. E qualquer um dos cinco membros permanentes (Estados Unidos, China, França, Rússia e Reino Unido) pode vetá-lo.

Com a votação ainda dividida e sem favorito consolidado, diplomatas não descartam a entrada de novos nomes, já que não há prazo formal para candidaturas.

A pauta americana: "de volta ao básico"

Os Estados Unidos chegam a esta edição com uma agenda declarada de contenção. Em comunicado sobre a 81ª sessão, o Departamento de Estado afirmou que o país perseguirá um objetivo único: "entregar prosperidade por meio da paz", trazendo a organização "de volta ao básico".

Na prática, Washington traduz sua demanda em quatro exigências. Quer uma ONU que priorize a paz e a segurança internacionais, respeite a soberania dos Estados-membros, entregue resultados mensuráveis e preste contas dos recursos que lhe são confiados.

O recado americano contrasta com o tom oficial da sessão deste ano, que ocorre justamente sob o tema "Restaurando a confiança, gerindo a transformação: uma ONU que entrega para todos", proposto pelo presidente da Assembleia, Khalilur Rahman, de Bangladesh.

A distância entre os dois discursos não é retórica. Os EUA são o maior contribuinte individual da ONU, e sua agenda de cortes define, portanto, quanto a organização terá para entregar aquilo que promete e que a agenda global precisa.

A semana traz ainda uma pauta temática densa, com os conflitos internacionais, a mudança climática, a preparação para pandemias, a elevação do nível do mar e o avanço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

A questão palestina, que dominou a edição anterior com a onda de reconhecimentos por países ocidentais, segue como pano de fundo das tensões no Oriente Médio.

Nova York, enquanto isso, se blinda preparando segurança reforçada, fechamento de vias e forte presença policial em terra, mar e ar, com equipes antidrones e restrição do espaço aéreo sobre a sede da ONU durante toda a semana.

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