Ativista chinês cego escalou muro para fugir de guardas

Inicialmente ele havia pensado em cavar um túnel para a fuga, mas desistiu da ideia

HONG KONG/PEQUIM - Em uma casa em mau estado na zona rural da província chinesa de Shandong, Chen Guangcheng fingiu estar doente, ficando deitado na cama por longos períodos para que os guardas que o vigiavam fossem mais complacentes, disseram ativistas. Então, ele agiu, escalando um muro e escapando para a liberdade.

Foi essa atitude que permitiu ao ativista cego chinês enganar seus guardas e fugir da prisão domiciliar, num ato que agora ameaça prejudicar as relações diplomáticas entre a China e os Estados Unidos, disseram grupos defensores dos direitos humanos envolvidos na fuga.

Inicialmente ele havia pensado em cavar um túnel para a fuga, mas desistiu da ideia. Quando foi deixado sem vigilância por um curto período, em 21 de abril, Chen, um homem magro, escapou na escuridão pulando um muro de dois metros de altura.

"Ele, de fato, tentou cavar um túnel, mas abandonou o plano", contou Bob Fu, presidente do grupo religioso e pró-direitos humanos China Aid, com sede no Texas. "O plano bem-sucedido surgiu quando Chen conseguiu fingir que estava acamado."

Fu disse que os guardas onipresentes na casa só conseguiram descobrir a fuga na quinta-feira, cinco dias depois de ele escapar.

O dissidente Hu Jia, de Pequim, declarou no sábado que Chen costumava ficar dentro de casa por longos períodos, por isso as pessoas que o vigiavam se acostumaram a não vê-lo por vários dias.

Hu foi detido pela polícia, mas solto um dia depois, embora pelo menos um outro ativista que integra a rede de partidários de Chen continue desaparecido, e aparentemente está preso. A mulher de Chen, um filho e a mãe dele ficaram em Shandong, e não há contato com eles.

Dissidentes e grupos pró-direitos dizem que Chen, que milita contra esterilização de mulheres e abortos forçados, medidas que integram a política chinesa de controle da natalidade, está agora sob proteção dos Estados Unidos em Pequim, depois que amigos ativistas o ajudaram a evitar ser recapturado e a viajar mais de 500 quilômetros até a capital chinesa, na semana passada. Um diplomata estrangeiro disse neste domingo que ele estava na embaixada dos EUA, mas não deu detalhes.

"Depois que ele chegou, me encontrei com ele, abracei-o e nos tratamos como irmãos", afirmou Hu neste domingo à Reuters, depois de ser libertado pela polícia. "Nós conversamos por uma hora e então decidimos que Guangcheng deveria ir para o lugar mais seguro na China: a Embaixada dos Estados Unidos."


Hu disse que não esteve na embaixada e não sabe exatamente o que aconteceu quando Chen entrou lá, mas afirmou que ele recebeu assistência dos diplomatas.

"Guangcheng não quer asilo, mas quer que o primeiro-ministro Wen (Jiabao) investigue a perseguição a ele e sua família nos últimos sete anos", acrescentou Hu.

"Caro premiê Wen, finalmente escapei", anunciou Chen em uma mensagem de vídeo de um local não revelado, divulgada na sexta-feira a Wen, segundo na linha de poder na China.

Na mensagem, Chen disse ter permanecido sob permanente vigilância em sua casa e ruas nos arredores.

"Pelo que posso dizer, e considerando que não posso enxergar, havia de 90 a 100 policiais, autoridades do partido e do governo", disse ele.

Os governos dos EUA e da China não quiseram fazer comentários sobre o paradeiro de Chen, mas sua fuga parece prestes a ofuscar um encontro de diplomatas de alto escalão esta semana.

(Reportagem adicional de Tan Ee Lyn em Hong Kong, Benjamin Kang Lim, Terril Yue Jones e Maxim Duncan em Pequim)

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