As duas crises de Draghi: premiê busca gás na Argélia enquanto tenta sobreviver em casa

Em semana decisiva para seu governo na Itália, o premiê Mario Draghi fecha acordo com a Argélia para compra de gás e expõe os desafios da Europa
Draghi: premiê fará discurso decisivo no Senado nesta semana para tentar manter governo de pé (Kai Pfaffenbach/Reuters)
Draghi: premiê fará discurso decisivo no Senado nesta semana para tentar manter governo de pé (Kai Pfaffenbach/Reuters)
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Carolina RiveiraPublicado em 19/07/2022 às 06:00.

No meio de uma crise política em casa, o (ainda) premiê italiano, Mario Draghi, enfrenta também seu problema número dois nesta terça-feira, 19. O mandatário está na Argélia para selar um bilionário acordo de compra de gás em meio aos riscos de escassez na Europa com a guerra na Ucrânia.

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Draghi chegou ao país da África do Norte ainda no começo da semana, em viagem já marcada antes da crise política em casa - que levou o premiê a quase deixar o governo na semana passada.

O acordo na Argélia acontece horas antes da decisiva fala de Draghi no Senado italiano, prevista para quarta-feira, 20, e que mostrará se o premiê conseguirá permanecer no cargo após ter perdido parte de sua base de apoio.

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A Itália, para além da crise política em casa, está no centro também da crise energética: o país recebe 40% de seu gás importado da Rússia, um dos países com maior dependência. A Itália já teve significativa redução de fornecimento russo neste ano, no que é visto como uma retaliação do governo Vladimir Putin contra membros da União Europeia pelo apoio à Ucrânia.

A Argélia, ligada à Itália por um gasoduto que atravessa o Mediterrâneo, se tornou uma das principais fornecedoras italianas após o início da guerra em fevereiro, e já dobrou seu volume de gás vendido.

O presidente da Argélia, Abdelmadjid Tebboune, disse que um acordo de US$ 4 bilhões será assinado nesta terça-feira, com o objetivo de fornecer "uma quantidade significativa de gás" à Itália.

“A Argélia é um parceiro muito importante para a Itália, no setor de energia, na indústria e nos negócios, na luta contra a criminalidade e na busca de paz e estabilidade no Mediterrâneo”, completou Draghi, em fala durante visita.

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A viagem de Draghi acontece paralelamente a outros acordos também fechados por europeus nas últimas horas com países produtores de petróleo.

Na segunda-feira, a França selou uma parceria com os Emirados Árabes Unidos para fornecimento de petróleo e gás - os detalhes ainda precisam ser divulgados. O presidente Emmanuel Macron recebeu o sheik Mohammed bin Zayed Al Nahyan diretamente em Paris.

Já a presidente da Comissão Europeia, órgão do Executivo da União Europeia, Ursula von der Leyen, foi ao Azerbaijão fechar um acordo para compra de gás.

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As movimentações em busca de energia mostram como a crise política na Itália não poderia vir em momento mais delicado para a União Europeia.

Uma saída de Draghi, que é ex-presidente do Banco Central Europeu e visto como figura de credibilidade pelos mercados, aumenta as incertezas sobre a situação econômica na Itália e, por tabela, em toda a zona do euro.

A inflação italiana superou 7% em maio, data do último resultado divulgado, puxada pela alta nos preços de energia que afetam toda a Europa com a guerra.

Nesse cenário, o Banco Central Europeu se prepara para subir juros e deixar para trás sua atual taxa zerada, o que vem tornando piores os riscos para a economia italiana, cuja dívida supera 130% do PIB.

Em casa, enquanto isso, Draghi é criticado pela inflação alta e por, segundo a oposição, estar fazendo pouco para proteger os italianos dos efeitos da alta de preços - o argumento que levou o Movimento 5 Estrelas, de pautas antissistema, a deixar o governo e abrir de vez o racha no alto escalão em Roma na semana passada.

Da energia no exterior à política interna, as duas crises de Draghi estarão, mais do que nunca, altamente conectadas nesta semana.