Argentina e Inglaterra se enfrentam hoje em campo novamente após 24 anos: na foto, o lendário duelo de 1986, com o gol com a "Mão de Deus" de Maradona seguido pelo "Gol do Século" (AFP)
Repórter
Publicado em 14 de julho de 2026 às 06h01.
Última atualização em 15 de julho de 2026 às 10h29.
Dois dos semifinalistas dessa edição da Copa do Mundo, a Argentina e a Inglaterra, se enfrentarão nos gramados por uma vaga na grande final nesta quarta-feira, 15.
As seleções de elite têm um longo histórico de rivalidade nas copas, enfrentando-se 14 vezes em jogos internacionais e cinco vezes em copas do mundo, com a Inglaterra defendendo uma leve liderança, com 3 vitórias contra 2 da Argentina, em duelos que incluem alguns dos mais históricos do futebol, como o gol com a "Mão de Deus" de Maradona em 1986.
Fora dos gramados, os países também compartilham um passado de rivalidades, mas muito mais sangrento. Durante dez semanas em 1982, a Argentina e a Inglaterra travaram uma guerra que nunca foi formalmente declarada pela soberania das Ilhas Malvinas, um arquipélago localizado a cerca de 500 km da costa da Patagônia.
A história política da ilha é complexa.
Ambos os países reivindicam soberania sobre o arquipélago. Para Buenos Aires, é uma extensão natural do território argentino, cuja base legislativa remonta ao período colonial, quando a Espanha ocupava as Malvinas: após a queda do poder imperial e a independência da Argentina, Buenos Aires entende que o controle das ilhas pertence naturalmente ao país.
Em contrapartida, a ilha também foi território colonial da Coroa britânica, que estabeleceu bases nas Malvinas (Falklands, em inglês) já em 1765, poucos anos antes da chegada da Espanha, que forçou a saída britânica. Os ingleses retornaram somente em 1833 — 13 anos após a independência da Argentina — e retomaram o controle da ilha, que desde então tem permanecido como território britânico ultramarino.
Em 2013, ocorreu um referendo no qual os habitantes da ilha — em sua vasta maioria descendentes diretos de colonos britânicos — votaram sobre o status do arquipélago: 99,8% dos correspondentes optaram por continuar sob administração britânica.
Militar briânco olha o jornal com notícias sobre as ilhas Falkland, conhecidas como Malvinas, após rendição da Argentina (Getty Images/Getty Images)
Décadas antes do referendo, em 1965, as tensões voltaram a borbulhar entre os países, após uma demanda da ONU para que os dois lados chegassem a uma resolução da disputa.
O Ministério das Relações Exteriores e da Commonwealth (FCO), órgão britânico, apesar de sua confiança na validade da reivindicação britânica, estava disposto a ceder o território.
Todavia, foram os habitantes que negaram a proposta, fazendo intenso lobby político para frustrar os planos do FCO, que já estavam em estágio de negociação com Buenos Aires. Ainda assim, o FCO buscou mudar a posição dos habitantes ao tornar o arquipélago cada vez mais economicamente dependente da Argentina, por meio de medidas que incluíram, entre outras, um monopólio argentino sobre o petróleo da região.
Na época, a Argentina passava por uma estagnação econômica e por um período de Reorganização Nacional, decorrentes do descontentamento civil com o governo militar.
A gota d'água veio na forma de uma junta militar, formada em dezembro de 1981 e liderada pelo presidente-general Leopoldo Galtieri. Esse grupo era muito mais propenso a tomar medidas e, ao apelar ao sentimento nacional de soberania sobre as ilhas, algo que unia muitos argentinos, o governo seria capaz de mitigar o descontentamento político por meio de operações militares.
Por fim, no dia 2 de abril de 1982, as forças argentinas invadiram as Malvinas sem declaração formal de guerra, desencadeando um conflito sangrento que durou 10 semanas e resultou na morte de 649 soldados argentinos, 255 britânicos e três civis das ilhas, antes de uma rendição argentina.
As relações diplomáticas entre o Reino Unido e a Argentina foram restabelecidas em 1989, após uma reunião em Madri, na qual ambos os governos divulgaram uma declaração conjunta. O acordo, no entanto, não alterou as posições de Londres e Buenos Aires sobre a soberania das Ilhas Malvinas, tema que permanece em disputa.
Cinco anos depois, em 1994, a Argentina incorporou à sua Constituição uma disposição que reivindica as ilhas como parte de uma de suas províncias. Apesar da reivindicação argentina, o arquipélago continua sob administração britânica e mantém o status de Território Ultramarino Britânico com governo autônomo.