Analistas aprovam governo Dilma com nota 7,75

Com base na avaliação feita pelos especialistas, EXAME.com elaborou uma tabela com os pontos fracos e fortes do governo federal

São Paulo - Não é apenas a população que aprova o início do governo Dilma. A nota média dos analistas políticos ouvidos por EXAME.com para os 100 primeiros dias da nova gestão, que serão completados neste domingo (10), foi 7,75.

Isso não significa que os especialistas deixem de apontar vários aspectos ruins (veja tabela na última página com os pontos positivos e negativos). Entre eles, a dificuldade que a equipe econômica tem encontrado para controlar os preços. “O cenário de inflação com que o governo trabalha menospreza os gargalos estruturais do país. O grande risco é o Banco Central abrir mão de suas convicções e se curvar à Fazenda, perdendo autonomia”, diz Rafael Cortez, cientista político da Tendências Consultoria.

O perfil gerencial da presidente da República é elogiado. “Ela já deixou claro aos ministros que vai cobrar resultados. Eles dão poucas entrevistas porque têm receio de receber um puxão de orelha”, afirma Gaudêncio Torquato, presidente da GT Marketing e Comunicação. Porém, o professor de Ciência Política do curso de Administração Pública e Governo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), Francisco Fonseca acredita que não é correto dizer que Dilma não tem uma dose de política no seu jeito de administrar. "A carreira dela começou na militância política, inclusive armada. Além disso, era adquiriu muita experiência na Casa Civil, um cargo altamente político." 

O estilo mais discreto de Dilma em relação ao do ex-presidente Lula também é destacado pelos analistas. “Ela conseguiu sair da sombra de um líder carismático. Além disso, o estilo mais discreto ajuda o governo a tocar a agenda e evitar polêmicas desnecessárias”, diz Cortez. Os analistas destacam o fato de que a presidente evita ataques gratuitos à imprensa. “O Lula era um polemista que adorava comprar uma briga. A Dilma pensa mais antes de falar”, avalia Carlos Ranulfo, professor do Centro de Estudos Legislativos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Dilma não tem gerado conflitos com a oposição. “Ela foi muito feliz ao convidar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para o almoço com Obama”, diz Cortez. “Até a oposição tem dificuldades para criticá-la”, complementa Ranulfo.

Outro ponto favorável foi a mudança da política externa, com o Brasil votando contra o Irã na ONU pela primeira vez. “Foi um voto avançando e condizente com os parâmetros que são esperados de nações democráticas”, diz Torquato. O professor da UFMG acredita que Dilma terá “menos ambições internacionais do que Lula, o que não é necessariamente ruim.” Francisco Fonseca, da FGV-SP, destaca a manutenção da "pluralidade" de ações. "Não foi à toa que a primeira viagem de Dilma foi para a Argentina, o que reforçou o Mercosul."


A erradicação da pobreza, uma das principais bandeirantes da presidente, ainda carece de ações práticas, segundo Gaudêncio Torquato. “Há uma espécie de dissonância entre discurso e prática. Não vejo projetos novos nessa área.”

Embora tenha um bom diálogo com prefeitos e governadores, não houve nenhuma sinalização de que uma reforma tributária será encaminhada para o Congresso. “Ainda está no prazo, mas espera-se que algo saia ainda no primeiro semestre”, diz Ranulfo. Já o professor Fonseca inclui na lista de pendências do governo as reformas política e da mídia. "Não me parece que esses temas estejam sendo encaminhados."

A vitória na votação das regras de reajuste do salário mínimo foi fundamental. “Palocci teve um papel importante na articulação com os partidos”, diz Rafael Cortez. No campo das despesas, o Brasil ainda gasta muito dinheiro com o pagamento de juros da dívida. "As políticas sociais recebem menos da metade do que o país paga de juros", afirma Fonseca, da FGV-SP.

A presidente Dilma tem conseguido proteger alguns cargos estratégicos da cobiça dos políticos. “Ela mostrou que não está refém do PMDB e isso pode gerar uma disputa saudável por cargos do segundo escalão”, avalia Cortez. O professor Fonseca diz que uma reforma política, que reduza o número de partidos, pode diminuir o número de indicações presidenciais. "É preciso também valorizar a carreira do funcionário público, que deveria ter a possibilidade de alcançar o topo das estatais." Um exemplo elogiado no rol de escolhas políticas e técnicas foi o nome de Henrique Meirelles para comandar as obras dos Jogos Olímpicos. “A minha surpresa foi o Meirelles aceitar a função, pois ele terá um verdadeiro abacaxi para descascar”, diz Torquato, da GT Marketing e Comunicação.

Quanto ao fato de Dilma ter aliados polêmicos, como Fernando Collor de Mello, o professor Ranulfo acha que isso é um problema da política brasileira. “Até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teve de se aliar com o atraso. Quando você atrai um partido para o seu governo, vem o pacote completo. Não dá para excluir alguns nomes.”

O encaminhamento de soluções para problemas antigos de infraestrutura está num ritmo aquém do desejado. “Como o novo governo é do mesmo partido do anterior, era esperado que as coisas estivessem mais adiantadas. Até agora não se definiu nem o modelo que será adotado na construção e na reforma dos aeroportos”, salienta Cortez, da Tendências Consultoria. Opinião semelhante tem Carlos Ranulfo: “Há atrasos nas obras e esse corte de gastos preocupa. O governo precisa encontrar soluções rapidamente.”

Polêmica na Vale

A interferência política que houve na troca de comando da Vale dividiu opiniões. “É uma perda irreparável de alguém com o perfil do Agnelli, mas o fato mais importante nessa história é a constatação de que uma empresa privada que depende de fundos de pensão de estatais não é imune às pressões do Estado”, afirma Torquato, cuja avaliação é semelhante à de Rafael Cortez. Já o professor Ranulfo considera que a intervenção do governo foi aberta e transparente. “Cabe à nova direção da Vale lembrar que ela também tem acionistas privados.” E o professor Fonseca considera que "esse tipo de influência é reflexo dessa nova etapa econômica do país, com o governo apoiando grandes conglomerados nacionais. Sendo assim, esse tipo de interferência faz parte do jogo". 


A ida a programas femininos na TV, como Ana Maria Braga e Hebe Camargo, ajudou a conquistar a simpatia das mulheres e garantiu uma boa popularidade. “Ela fez isso de maneira competente, falando primeiro para dois programas femininos. De mulher para mulher”, diz Torquato.

Notas

Os analistas convidados por EXAME.com nessa reportagem foram instados a dar uma nota de zero a dez para os 100 primeiros dias do governo Dilma.

Rafael Cortez, da Tendências Consultoria: “Dou nota sete para os 100 primeiros dias do governo. A presidente Dilma precisa transformar esse enorme capital político em uma agenda mais positiva, que resolva os grandes problemas.”

Gaudêncio Torquato, da GT Marketing e Comunicação: “A minha nota para o início do governo é oito, mas posso reduzi-la se a presidente Dilma não cumprir tarefas fundamentais, como a do controle da inflação.”

Carlos Ranulfo, professor da UFMG: “Considero o governo Dilma, até agora, merecedor de uma nota nove. Os pontos fracos são a definição de uma estratégia contra a inflação, a lentidão das obras de infraestrutura e a demora na nomeação de alguns cargos no segundo escalão.”

Francisco Fonseca, professor da FGV-SP: “Uma nota sete me parece justa, pois premia a coerência do governo Dilma em relação às promessas de campanha, principalmente de inclusão social e digital, mas também reflete a existência de gargalos que precisam ser resolvidos, como as reformas política, tributária e da mídia” 

Veja um resumo dos principais pontos fortes e fracos do governo Dilma: 

Fonte: Analistas / Elaboração: EXAME.com
10 Pontos Positivos do Governo Dilma* 10 Pontos Negativos do Governo Dilma*
Perfil discreto e gerencial da presidente Falta projeto de Reforma Tributária
Ampla maioria no Congresso Nacional Dificuldade em controlar a inflação
Mudança na política externa  Falta solução para o caos nos aeroportos
Elevada popularidade Corte de gastos duvidoso
Ausência de conflitos com a oposição Excesso de gastos com juros
Nomes técnicos para cargos estratégicos Promessa vaga de erradicar a pobreza
Ratificação da regra para o salário mínimo Aliados polêmicos, como Fernando Collor
Não faz ataques gratuitos à imprensa Excesso de ministros
Boa relação com governadores e prefeitos Reforma Política sem rumo no Congresso

Nos casos em que houve divergências entre os analistas, a elaboração da tabela levou em conta a opinião da maioria.

Obrigado por ler a EXAME! Que tal se tornar assinante?


Tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo de seu dia. Em poucos minutos, você cria sua conta e continua lendo esta matéria. Vamos lá?


Falta pouco para você liberar seu acesso.

exame digital

R$ 12,90/mês
  • Acesse onde e quando quiser.

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.
Assine

exame digital + impressa

R$ 29,90/mês
  • Acesse onde e quando quiser

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

  • Edição impressa mensal.

  • Frete grátis
Assine

Já é assinante? Entre aqui.