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Análise: após fazer sua maior ameaça, Trump agora lidará com Irã mais forte

Cessar-fogo durará apenas duas semanas, e americanos terão de fazer concessões ao Irã para evitar nova alta global do petróleo

Donald Trump, presidente dos EUA, durante entrevista coletiva na Casa Branca
 (Saul Loeb/AFP)

Donald Trump, presidente dos EUA, durante entrevista coletiva na Casa Branca (Saul Loeb/AFP)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de internacional e economia

Publicado em 8 de abril de 2026 às 11h20.

Última atualização em 8 de abril de 2026 às 15h02.

Na terça-feira, 7, Donald Trump fez a maior ameaça de sua carreira, no que foi também foi uma das falas mais duras já feitas por um presidente dos Estados Unidos. Ele prometeu "destruir a civilização do Irã" caso o país não reabrisse o Estreito de Ormuz. Trump, que recuou dez horas depois e fechou um cessar-fogo de duas semanas, agora tenta apresentar seu movimento como uma vitória, enquanto precisa lidar com um Irã que se fortalece.

Nas semanas anteriores, Trump vinha dizendo que os ataques ao Irã eram uma forma de derrubar o governo do país e dar liberdade aos iranianos. Em poucas horas, a promessa de libertação virou uma ameaça de extermínio de uma população inteira, o que é considerado genocídio, o maior crime de guerra possível.

Nem mesmo o presidente russo Vladimir Putin, ao ordenar a invasão da Ucrânia, fez tal ameaça. Ele defendia que a Ucrânia não deveria existir como país, mas que os ucranianos e seu território deveriam ser incorporados à Rússia.

A fala de Trump pegou mal mesmo entre seus apoiadores. Alguns republicanos leais, como o senador Ron Johnson, criticaram Trump publicamente, embora a maioria do partido tenha ficado em silêncio. Na oposição, mais de 70 parlamentares democratas defenderam um pedido de impeachment, pois um presidente não tem poder para declarar guerra sem aval do Congresso, e ameaçar outra civilização vai contra os princípios dos EUA e as leis internacionais.

As consequências para o presidente, ao menos por enquanto, não deverão ser graves, pois os republicanos possuem maioria no Congresso e Trump já escapou de dois impeachments no primeiro mandato. Mas o caso reforçou a percepção de que o presidente sempre recua, ideia amarrada na sigla TACO (Trump Always Chicken Out, Trump sempre amarela, em tradução livre).

Após o recuo, anunciado no começo da noite, Trump deu início a outra operação: retratar o movimento como uma vitória, embora o conflito tenha, até agora, aumentado o poder do Irã.

Jovens formam corrente humana em usina após ameaças a infraestrutura energética no Irã

Corrente humana feita por iranianos em usina de energia, antes de ameaças de Trump (Agência Fars)

Mais poder ao Irã

O presidente e seus chefes militares têm reiterado que os ataques americanos teriam destruído a capacidade militar do Irã e matado seus principais líderes. Em entrevista coletiva na manhã desta quarta-feira, o general Dan Caine disse que os EUA destruíram 80% dos sistemas de defesa do Irã, 450 locais de armazenamento de mísseis e mais de 150 navios.

Mesmo com tantas perdas, o Irã segue capaz de fazer ataques, e o regime parece longe de cair. Além disso, no plano simbólico, passou a ser um país que consegue levar os EUA, a maior potência global, a sentar na mesa de negociação para fazer concessões.

O Irã mostrou ter poder para fechar o Estreito de Ormuz, mesmo sob severo ataque americano e após vários de seus líderes terem sido mortos por bombardeios. O cessar-fogo durará inicialmente duas semanas, e a ameaça de um novo bloqueio ao estreito segue presente. Agora, o Irã é visto como controlador de fato da passagem, por onde circulam 20% do petróleo global.

Nas negociações, também está em debate a retirada das sanções, uma demanda antiga do país. O Irã também fala em exigir compensações pela guerra e no direito de cobrar pedágio em Ormuz para arrecadar recursos.

O presidente americano adotou o discurso de que houve uma mudança de regime no Irã, pois os novos líderes do país seriam mais abertos a negociações. Ele diz que as conversas de paz envolvem a possibilidade de o Irã abrir mão do enriquecimento de urânio, algo que o país não disse publicamente, em outro sinal de que o conflito ainda terá uma resolução difícil.

Trump ainda precisa lidar com Israel, que decidiu manter os ataques ao Líbano, contra o Hezbollah, um aliado iraniano. O premiê Benjamin Netanyahu considera o Irã como o principal inimigo de Israel, e promete fazer de tudo para destruir as capacidades militares iranianas. O país fará pressão para que os EUA façam menos concessões.

Para os próximos meses, Trump terá ainda de lidar com as consequências econômicas da guerra e seus impactos políticos nos EUA. Analistas apontam que levará meses para que a produção e a circulação de petróleo no Oriente Médio se normalizem e os preços dos combustíveis baixem, o que resultará em mais inflação. O Irã já mostrou ter capacidade de mexer com os preços globais e, ao que tudo indica, não terá medo de usar esse poder. 

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