Alice Weidel, a controversa líder da extrema-direita alemã

Lésbica, ex-banqueira, residente na Suíça e casada com uma imigrante. Quem é Alice Weidel, a líder do partido Alternativa para a Alemanha

Nas eleições gerais da Alemanha de 24 de setembro, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve cerca de 13% dos votos e conseguiu entrar em peso no Parlamento, conquistando 98 assentos. É a primeira vez que um partido de extrema-direita volta ao Bundestag após a chegada ao poder do Partido Nazista, em 1933. Um feito que quebrou a antiga regra da União Cristã-Democrata (CDU), teorizada por Franz Josef Strauss, que previa “nenhum rival na direita”, para cobrir e garantir democraticamente aquela área política.

A AfD, partido fortemente conservador mas não oficialmente neo-nazista (ao contrário do Partido Nacional Democrático da Alemanha – NPD), é contra a chegada de imigrantes na Alemanha, preza pelo fechamento das fronteiras, apoia a família “tradicional” formada por um homem e uma mulher e diz ser a única força política que defende o povo alemão contra os interesses das elites financeiras globais e europeias, além das intrigas dos chamados “globalistas”.

Entretanto, a principal líder do AfD, Alice Weidel, que acabou de ser eleita deputada, tem uma vida particular em aberto contraste com muitas posições defendidas pelo partido.

Lésbica declarada, Weidel é casada com Sarah Bossard, uma mulher imigrante do Sri Lanka, com a qual adotou dois filhos. Mesmo assim, ela não mostrou problemas em declarar publicamente que “crianças devem crescer com o cuidado de um pai e de uma mãe”.

Economista de formação, ela trabalhou no gigante alemão dos seguros Allianz e no banco de investimento Goldman Sachs – considerado o símbolo do capital internacional por boa parte dos partidos populistas europeus – e morou por cinco anos na China. E, além do mais, sua residência oficial nem é em território alemão, e sim na cidade de Bienna, na Suíça. Oficialmente é a cidade onde moram sua mulher e seus filhos, mas para os observadores mais maliciosos é uma localidade onde a pressão tributária é bem menor do que na Alemanha.

Segundo o jornal alemão Die Welt, Weidel teria contratado de forma ilegal uma refugiada síria para trabalhar como empregada doméstica em sua casa suíça. E sem pagar um centavo de impostos, previdência ou encargos trabalhistas. De novo, em aberto contraste com a posição oficial da AfD, fortemente hostil à política de abertura aos imigrantes da chanceler Angela Merkel.

Weidel informou através de seu advogado que a refugiada síria era “hóspede” e não “camareira” em sua casa. Ela rejeitou as acusações de tentar fraudar a Receita Alemã morando em um paraíso fiscal, declarando que vive no estado de Baden-Württemberg, seu colégio eleitoral. “Sou da roça, me sinto como se tivesse acabado de descer de um trator”, ama contar falando de si mesma, lembrando que nasceu no pequeno povoado de Gütersloh na Renânia do Norte-Vestefália.

Seja como for, a imprensa europeia está apontando como nessa política de 38 anos convivem, sem aparente contradição, globalização e nacionalismo, além de uma boa dose de revisionismo histórico. Como demonstrado sempre pelo Die Welt, que publicou e-mails enviados por Weidel em 2013, ano de fundação da AfD, nas quais ela chamava os políticos alemães de “porcos” e “fantoches ao serviço das potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial”. Um vocabulário que faz referência direta ao Terceiro Reich de Hitler.

Weidel nega que esses e-mails sejam verídicos. Entretanto, seu companheiro de partido e colega na liderança da AfD, Alexander Gauland, já declarou publicamente que é “orgulhoso” dos feitos da Wehrmacht, o exercito alemão, durante a Segunda Guerra Mundial.

Declarações polêmicas que, entretanto, não impediram Weidel de se tornar o rosto oficial do partido, prometendo colocar novamente a”Alemanha primeiro” na política nacional e liderando a escalada do AfD até o Bundestag, triunfando como terceira força política alemã. Um feito histórico por um movimento que há quatro anos nem existia. E um sucesso pessoal dessa jovem mulher lésbica em uma força política quase inteiramente formada por homens conservadores (as mulheres são menos de 17% dos inscritos e somente 13% dos deputados eleitos).

Mas acreditar que Weidel represente o início de uma mudança cultural dentro do complexo mundo das direitas nacionalistas alemã e europeia seria ingenuidade. A própria Weidel sempre procurou esconder -— ou pelo menos manter longe dos holofotes — sua vida privada. E as razoes não são apenas ligadas ao direito à privacidade, mas, como é fácil imaginar, a inconsistência que representava. Tanto que pouco antes do voto de domingo foi cobrada uma explicação pública sobre essas contradições. Ela realizou uma espécie de “saída do armário” ideológica durante um evento da campanha eleitoral realizado no estado da Baviera, um dos mais conservadores da Alemanha, para tentar silenciar as fofocas e responder as pressões dos jornalistas.

“Não estou aqui apesar da minha homossexualidade, mas também por causa de minha homossexualidade”, declarou Weidel em frente a uma plateia de militantes, partidários e simpatizantes do AfD. E é justamente essa a estrategia dela, considerada brilhante por muitos analistas políticos: misturar as cartas na mesa, lançar fumaça nos olhos do tradicionalismo machista e dos preconceitos de seu eleitorado. Weidel sugere uma aliança “étnica” entre europeus — sejam eles héteros ou homossexuais — contra os estrangeiros, apontando seu partido como “a única proteção real para gays e lésbicas na Alemanha” diante da ameaça representada pelos migrantes muçulmanos que, segundo ela, seriam naturalmente hostis aos homossexuais por razões religiosas.

Além disso, Weidel mostrou um cinismo maquiavélico em liquidar sem nenhum remorso a ex-líder histórica da AfD, Frauke Petry, que declarou não querer entrar na bancada parlamentar do partido. “Para ela não tenho nenhuma compreensão”, declarou friamente Weidel em resposta ao anuncio de Petry, que foi a madrinha política de Weidel.

Petry é acusada de querer “moderar” demais o AfD e de atacar abertamente Björn Höcke — um político antissemita considerado por muitos o líder oculto do partido. Rapidamente, Petry foi substituída por Weidel, que levou novamente o AfD para posições mais duras. O que parece ter agradado os “falcões” conservadores do partido. Mas isso não lhe garantirá uma liderança livre de problemas.

As contradições de Weidel terão que superar o teste do Bundestag, onde ela vai ter que defender o programa eleitoral da AfD, que protesta contra o declínio da “família tradicional alemã” e ataca o o espaço dado nas escolas alemãs para as discussões sobre homossexualidade e diversidade de gênero. Weidel já salientou que “na escola as crianças precisam estudar alemão, matemática e ciência. Os temas LGBT e aqueles relacionados às questões desse tipo são adequados apenas para serem discutidos dentro das paredes de casa”. É uma pena que seus filhos estudem em uma escola na Suíça, e não na Alemanha.

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